Preta Gil chegou para a entrevista com aquele jeitão dela: meio esbaforida, com uma bolsa enorme a tiracolo, carregando mil papéis e falando o tempo todo. Afim de ganhar tempo, maquiou-se ali mesmo, enquanto respondia às perguntas. Vaidosa, passava a mão pelos cabelos alongados com megahair e aplicava corretivo para esconder as olheiras de quem vinha passando noites em claro no estúdio. Era abril de 2003, e a artista estava finalizando aquele queria o seu primeiro disco, “Prêt-à Porter”.
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Aos 29 anos, Preta tinha atuado apenas nos bastidores do showbiz, produzindo eventos e dirigindo clipes. Mas, a certa altura, o trabalho não preenchia mais, bateu a angústia e a filha de Gilberto Gil caiu na depressão. Ela começou a fazer análise e a tomar remédio. No processo de cura, encontrou motivação no desafio de saltar pra frente das câmeras. Em 2003, Preta não apenas lançou o álbum, mas também estreou na TV, com a personagem Vanusa, na novela “Agora É que São Elas”, da Globo.
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Para pagar os custos de produção do CD, teve que vender seu apartamento na Zona Sul do Rio e voltar a morar com a mãe. Por causa da correria incessante, Francisco, seu filho com o ex-marido Otávio Muller, então com 9 anos, estava passando muito mais tempo com o pai. Ela morria de saudades, mas encarou aquilo como uma fase. Estava mesmo focada no desafio de botar pra fora a veia artística que herdara de Gil, mas seguindo seu próprio caminho e pronta para as críticas que receberia.
“Ser filha do Gilberto Gil eu vou ser a vida inteira, graças a Deus! Mas tive que trabalhar muito isso em mim até dar valor. Eu sou filha dele, não sou ele. Eu sou a Preta. Tive que me descobrir, me assumir”, disse ela, antes de explicar por que não tinha buscado esse caminho antes. “Meu irmão Pedro morreu quando eu tinha 15 anos. Ele era um ótimo baterista, e achei que a veia artística da família tinha que ficar com ele. Foi uma coisa de adolescente imatura. Apareceu um estágio em São Paulo, e eu fui”.
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Preta nunca se achou acima de críticas e estava disposta a botar a cara. Mas não imaginava que a grande controvérsia giraria em torno não de suas competências musicais, mas das fotos no encarte do disco. Nas imagens, ela aparecia nua. A reação negativa começou dentro de casa. Numa entrevista à revista “Trip” de 2003, Preta contou que, ao mostrar as fotos para o pai, então em seu primeiro ano como ministro da Cultura, Gil repetiu várias vezes as palavras “desnecessário” e “horrível”.
Mas o pior viria mesmo depois do lançamento. Preta foi alvo de uma chuva de ofensas gordofóbicas, sexistas e racistas. Durante uma entrevista no programa “Conversa com Bial”, de Pedro Bial, em 2019, a cantora falou sobre a sua surpresa diante de toda a reação às imagens do encarte.
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“Aquela capa foi incrível, emblemática. Na época eu dizia: ‘Gente, qual o problema de eu fazer uma capa nua?’. Mas lembro que quando eu fui mostrar para o meu pai, ele falou: ‘Desnecessário, Preta’. Aquilo foi uma confusão na minha cabeça, porque pensei no meu pai, tropicalista, moderno, falando ‘desnecessário’? Mas o meu pai é um sábio. Ele sabia exatamente o que eu ia passar depois e não deu outra”, lembrou Preta.
Numa entrevista à Globonews, em 2022, a artista contou que, em meio a todas aquelas críticas cheias de preconceito, ela se infiltrou numa comunidade do Orkut chamada “Eu odeio a Preta Gil”. Seu único objetivo era entender de onde vinha todo aquele sentimento negativo contra ela.
“Vi que elas me odiavam por tudo que eu era. Por eu ser livre, preta, gorda, bissexual. E eu falei: ‘Podem continuar me odiando, os errados são vocês’. Ali foi muito importante para eu entender que o erro não estava em mim, estava nessas pessoas que não aceitavam a minha liberdade, minha felicidade, ascensão. E que essas pessoas, naquela época não se dava nome para isso, hoje a gente dá, eram racistas, gordofóbicas, homofóbicas”, pontuou a cantora.
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