O toco de madeira é cortado em pedaços com alturas diferentes, que, afixados à terra, formam um caminho divertido e instigante para crianças. Mais adiante, um curso d’água que refresca nos dias quentes também é usado nas brincadeiras. Pequenos galhos de árvores, sementes, folhas, terra, bambu, pedrinhas, tudo é lúdico e convida à interação. Que família não gostaria de ter uma praça ou parque assim na esquina de casa?
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De baixo custo de implantação, os parques naturalizados se valem dos elementos já existentes em áreas públicas das cidades e incentivam novas formas de se relacionar com a paisagem. Os brinquedos são de materiais orgânicos e podem ser usados de diferentes maneiras. É assim na Praça Honório Sabino, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e no Monte Bom Jesus, no centro de Caruaru.
— Os parques naturalizados são uma frente grande de inovação. Incentivam não só o brincar livre, mas a convivência, o vínculo com o espaço público e o prazer de estar a céu aberto. Adoro a frase que diz que podemos tentar construir o brinquedo mais criativo e estimulante do mundo, mas nada superará subir numa árvore. Esses espaços ainda contribuem para a regeneração das áreas verdes — define Maria Isabel de Barros, especialista em infância e natureza do Instituto Alana.
Fortaleza é uma referência. A cidade desenvolve há cinco anos o projeto dos microparques urbanos em áreas degradadas, como terrenos baldios em bairros precarizados e sem alternativas para o lazer infantil, que já foi premiado internacionalmente. A capital cearense tem 13 destes espaços verdes “não domesticados”, hoje refúgios para cerca de 140 mil moradores, segundo a prefeitura. A população participa do planejamento, da implantação e da conservação das áreas.
No exterior, parques e praças com equipamentos e paisagismos diferentes viram pontos turísticos. Na Inglaterra, uma tendência é a valorização do viés histórico. Visitado por mais de um milhão de pessoas por ano, e incluído na lista dos melhores do mundo da National Geographic, o parque infantil Diana Memorial Playground, que homenageia a princesa Diana, tem como elemento central um navio pirata de madeira. Com inspiração na história de Peter Pan, conta ainda com uma trilha sensorial, tendas e esculturas lúdicas.
Em Jerusalém, o Sacher Park se destaca pela amplitude e pelos brinquedões de texturas diversas. Em São Paulo, o Sesc Interlagos tem entre seus destaques o Jardim das Brincadeiras, antigo pomar que passou por reforma. Madeiras de poda, cipós, palha, bambus e folhagens atraem os olhares dos frequentadores.
Em cidades altamente urbanizadas, a qualidade e a democratização dos espaços verdes é fundamental, aponta Adriana Sansão, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ:
— Uma métrica interessante é a regra do 3-30-300, do educador holandês Cecil Konijnendijk: todos precisamos ver três árvores de nossas casas, ter 30% de cobertura arbórea por bairro e estar a uma proximidade de até 300 metros de um espaço verde — explica.
O Parque Bicentenario de la Infancia, em Santiago, e os parques cariocas de Madureira e Realengo são bons exemplos, destaca a pesquisadora. Aberto em 2012, o de Madureira é considerado um dos projetos urbanísticos mais bem-sucedidos deste século no Rio, e se transformou em referência para lazer e cultura. O de Realengo acaba de fazer um ano e também é ponto de encontro.
Áreas arborizadas e bem cuidadas valorizam os bairros. Portanto, devem estar espalhadas, ressalta o arquiteto e urbanista Klaus Chaves Alberto, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Klaus ressalta que as parcerias público-privadas (PPPs), adotadas frequentemente para a conservação de espaços públicos urbanos, não devem se concentrar em áreas mais ricas da cidade, restringir o acesso ou priorizar atividades apenas com retorno financeiro.
— As diretrizes que orientam as PPPs são decisivas — alerta.
Da calçada à área infantil, os projetos têm que ser norteados pelos princípios da acessibilidade. Klaus sublinha que, por lei, no mínimo, 5% dos equipamentos de lazer em espaços públicos e privados devem ser acessíveis, mas a meta ainda está distante de ser alcançada. Brinquedos como balanços com encosto e cinto de segurança e carrosséis adaptados nem sempre são vistos nos parques e praças.
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