Tradicionalmente vista como um período de desaceleração, a aposentadoria tem se transformado em uma nova etapa de reinvenção pessoal — especialmente para quem encontra na tecnologia uma aliada. Mesmo diante dos desafios da adaptação digital, cada vez mais pessoas estão descobrindo no mundo on-line caminhos para viver essa fase com mais autonomia, conexão e bem-estar.
É o caso da escritora Isabel Dias, de 70 anos. Quando se divorciou, aos 59, ela mal sabia mexer no celular. A necessidade de reconstruir sua vida fez com que contratasse uma expert no assunto para aprender a se virar sozinha.
A vida financeira, com a qual nunca havia lidado, passou a ser controlada em planilhas. As compras de mercado, as transações bancárias, a comida pronta e os medicamentos do mês também ganharam soluções on-line.
— Hoje, só saio de casa para me divertir, fazer aulas de teatro e ir à academia. Não sou ninguém sem a internet.
Mais do que resolver tarefas cotidianas, a tecnologia tem sido um instrumento de reinvenção para Isabel. Além de dar aulas de escrita e fazer cursos diversos — de inteligência artificial a bordado livre —, atua como influenciadora de uma marca de beleza e usa o smartphone para contar passos, medir batimentos cardíacos, jogar paciência e memória.
Para o médico Egídio Lima Dórea, coordenador do programa USP 60+, CEO de consultoria com foco em economia prateada e curador de uma plataforma que desenvolve soluções digitais junto ao público que já viveu mais de seis décadas, a tecnologia é peça-chave para um envelhecimento saudável.
Ele explica que envelhecer bem passa por quatro pilares: saúde, aprendizado contínuo, segurança e participação social. Todos potencializados pelo uso de recursos digitais.
— Quando falamos em saúde, por exemplo, estamos lidando com doenças crônicas não transmissíveis. E a tecnologia oferece ferramentas para monitorar essas condições e evitar complicações.
É possível ganhar até seis anos de vida com ações baseadas em prevenção, diagnóstico precoce e reabilitação. E a tecnologia está no centro disso”
— Egídio Lima Dórea, médico e coordenador do programa USP 60+
Tecnologia como aliada da saúde
Dispositivos como relógios inteligentes detectam arritmias e enviam alertas a médicos. Aplicativos lembram de tomar água, incentivam o movimento, sugerem refeições mais saudáveis e até ajudam a meditar.
— Estudos mostram que é possível ganhar até seis anos de vida saudável com ações baseadas em prevenção, diagnóstico precoce e reabilitação. E a tecnologia está no centro disso — aponta Egídio.
No campo da educação, os benefícios se ampliam. Cursos on-line, universidades abertas e oficinas virtuais permitem que aposentados se mantenham atualizados e engajados.
— O conhecimento amplia a longevidade com qualidade. Não dá para viver uma vida longa sem aprender a viver essa vida — afirma o médico.
Durante a pandemia, Egídio viu de perto a adesão surpreendente dos 60+ às aulas remotas.
— A capacidade de adaptação foi impressionante. Mas ainda temos desafios.
Para além do medo de golpes virtuais, o principal deles é o letramento digital.
— Existe um estigma de que pessoas mais velhas não conseguem aprender tecnologia, e esse preconceito, muitas vezes, é incorporado por elas mesmas. Isso dificulta o processo de aprendizagem — explica.
Para o especialista, estar conectado é hoje uma questão de cidadania.
— Quem não está incluído digitalmente está excluído socialmente. A tecnologia deixou de ser uma opção, é uma necessidade.
Os benefícios se estendem ainda à integração social.
— A solidão é um problema de saúde pública, e a tecnologia, quando bem utilizada, pode mitigar esse isolamento. Mas é preciso equilíbrio: a interação virtual não substitui o contato físico.
Casas inteligentes, sensores de segurança, comandos por voz e plataformas de aprendizado já fazem parte da rotina de muitos aposentados no Brasil e no mundo. Para Isabel, esse universo representa liberdade e independência.
— Vejo meu neto por videochamada todos os dias — diz a escritora.
Em sua rotina cheia de cursos, projetos e lazer, o que era uma barreira virou trampolim para uma nova fase da vida. Mais conectada, criativa e cheia de propósito.