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O melhor bar do mundo não precisa de Google Maps

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julho 31, 2025
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Roberto, o comandante do CTI das Almas, assiste ao Telecine Pipoca numa sessão solene em seu cinema em forma de botequim — Foto: Thales Machado

Antes de encostar o cotovelo neste balcão, me apresento: sou Thales Machado, editor de Esportes do GLOBO. Mesmo abrindo cedo e fechando tarde por lá, às vezes de domingo a domingo, passo a partir de hoje a dar expediente também aqui: troco os gramados pelos guardanapos de papel, os gols pelas garfadas, e me arrisco a escrever sobre outra paixão que atravessa a vida com menos preparo físico e mais leveza espiritual: a mesa de bar.

Não é uma guinada de carreira. É só mais uma crônica quinzenal sobre comida, bebida e, sobretudo, gente. Sou mineiro, desses que acreditam que, se Belo Horizonte não tem mar, é porque bar já basta. Vivi dez anos por lá entre copos americanos e conversas que se estendem como as contas do fiado. Há 14 temporadas no Rio, fui aprendendo os jeitos e jeitinhos cariocas de comer e beber: na praia, no boteco, nos restaurantes elegantes ou decadentes.

Nesta coluna, não espere rankings ou a “última dica quente”. A ideia é outra: contar histórias que fermentam entre um chope e outro, celebrar os lugares onde a vida acontece sem alarde. Tem bar que não é novo nem badalado, mas é justamente onde tudo começa — e, se a gente souber viver direito, termina também.

Roberto, o comandante do CTI das Almas, assiste ao Telecine Pipoca numa sessão solene em seu cinema em forma de botequim — Foto: Thales Machado

E tudo começa no bar mais perto de casa. Aquele onde dá pra ir de chinelo ou até de pijama, voltar sem Uber e, principalmente, sem culpa. Onde o garçom sabe seu nome, seu pedido e, com sorte, sua fase da vida. Um bom bar de vizinhança serve muito mais do que comida e bebida: empresta wi-fi quando falta luz, vira sala de espera entre compromissos, resolve o que precisa — e o que ninguém pediu. Por isso, decidi começar pelo básico: vou contar sobre os bares dos bairros onde morei desde que cheguei ao Rio.

Troquei o nome mais bonito de cidade — Belo Horizonte — pela alcunha mais charmosa de bairro: Laranjeiras. Cheguei tropeçando no “s” puxado, pedindo tropeiro onde só havia feijoada. Foram dias difíceis: muito sotaque, pouco critério, errando o caminho e os pedidos, vítima de gurjões sem alma, bolinhos tristonhos e garçons que pareciam estar ali contra a própria vontade.

Até que encontrei o Baixo Gago — e ele me encontrou também. Um bar com alma nordestina e criatividade brasileira no prato: capa de filé ao molho com queijo bola, arrumadinho de alcatra de sol com feijão verde e queijo coalho, pastel feito na hora. Me apaixonei de cara. Pelo Lopes, garçom de fé que não deixa seu copo secar nem em terça-feira chuvosa. Pela caipivodka com limão-siciliano e carambola que refresca até pensamento ruim. E, sobretudo, pelo Seu Zé, dono do pedaço, migrante arretado que trocou o sertão pela Zona Sul e construiu ali um bar que virou sustento de uma família inteira — e, sem querer, também da minha saudade de casa. Descobri que, às vezes, é no balcão de outro forasteiro que a gente reencontra o próprio chão.

Anos depois, já com o pé mais firme na vida — e no chão engordurado da boemia carioca — achei que estava pronto para deixar a Zona Sul e encarar um outro Rio: mais cru, mais real, mais profundo. Me mudei pra Tijuca. No dia em que peguei a chave do apartamento, não comprei lâmpada nem papel higiênico: fui direto procurar o bar mais próximo.

Na esquina, um pé-sujo apertadinho me chamou. Entrei respeitosamente, pedi uma cerveja e tentei puxar papo com o dono

— Meu nome? E por que quer saber? — respondeu Roberto, com o carisma típico de quem desconfia que cliente novo é da Receita Federal.

— Nada não, me mudei pra cá agora. Tô só conhecendo a área.

— Essa rua aqui mesmo, na próxima esquina.

— Ihhh… muito assalto por ali — lamentou, me recebendo com o entusiasmo de quem comenta previsão de chuva no dia do próprio casamento.

Meses depois, ironia da vida: quem acabou sendo assaltado foi o próprio bar. Já íntimos, organizamos com vizinhos uma segunda-feira de reparação moral e alcoólica: bebemos o equivalente à gaveta do caixa roubado. O lugar, apelidado de CTI das Almas por causa dos frequentadores que afundam no balcão com cara de boletim médico, é um monumento ao pé-sujo carioca. À tarde, rola o Cine CTI: o Telecine Pipoca em volume máximo, passando qualquer filme, e todo mundo bebendo em silêncio absoluto, feito sessão solene. Tem quem ache que é depressão — eu chamo de contemplação.

As boas novas de Copacabana, onde moro hoje, ficam para depois. É que a proposta aqui é essa: deixar a novidade pra mais tarde e falar do que sempre esteve ali, discreto, à espera de alguém que sentasse, pedisse um bolinho e reparasse. Se você quiser puxar o banco, a próxima rodada já está no gelo. A prosa melhora depois da segunda — posso encher seu copo?

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O serviço, os comes, os bebes

Baixo Gago – Rua Gago Coutinho, 51, Laranjeiras. De segunda a sábado, de 8h até 23h. Domingos de 9h até 18h. Um petisco? Capa de filé ao Baixo Gago, mas tem época que não tem, então vai de Arrumadinho. A caipivodka supracitada é tão deliciosa quanto perigosa. Recomendo.

Bar e Mercearia Guanabara (ou CTI das Almas) – Rua Martins Pena, 53, Tijuca. Horário pouco confiável: De terça a sábado, de 10h até 0h. Domingo de 10h até às 18h. Na segunda, às vezes abre, às vezes não. Recomendo a cerveja gelada e a batidinha de gengibre. Sempre com moderação.

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