Do barulho ruidoso e de janelas tremendo ao absoluto silêncio. Um ano após a queda do avião da Voepass no condomínio residencial Recanto Florido, em Vinhedo, no interior de São Paulo, moradores relembram o incidente que resultou na morte das 62 pessoas a bordo do bimotor — 58 passageiros e quatro tripulantes. O desastre aconteceu no dia 9 de agosto de 2024, no início da tarde, às 13h22. O voo 2283 deixara Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e estava há pouco menos de 70 Km do destino final quando caiu.
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Érika Galindo, de 42 anos, há dois anos vivendo no condomínio, conta que estava almoçando em casa com a enteada, Gabrielly, de 24 anos, no momento da queda. A sensação, segundo ela, era de que o avião estava imediatamente em cima da residência.
— Tudo aconteceu muito rápido. Antes de o avião chegar ao chão, as janelas começaram a tremer. O barulho estava muito alto, um estrondo, mas depois veio um silêncio absoluto. Pensei que fôssemos morrer também. Foi a Gabrielly que viu que o avião tinha caído, ela gritava e chorava muito, mas eu não tive reação na hora, só falei que precisávamos sair da casa — diz.
As duas rumaram para a portaria do condomínio. Apesar de não entenderem inicialmente onde o avião havia caído, hoje elas sabem que apenas 100 metros separam a residência da família da casa que foi atingida pela aeronave. A estrutura do local em questão, porém, não foi totalmente afetada, uma vez que a queda se deu no quintal.
— Alguns vizinhos apareceram e falaram que o avião era grande, que tinham pessoas, corpos pegando fogo — conta Érika.
Morador do condomínio há dez anos, Eduardo Borges, 51, fazia parte do corpo diretivo do Recanto Florido na época e lembra que a atuação da força de segurança pública (municipal, estadual e federal) durou cerca de 24 horas. Por conta do frio e da chuva intensos, alguns moradores disponibilizaram suas residências para que os agentes pudessem usar o banheiro. De noite, outros se revezavam para oferecer café e bebidas quentes a eles.
Borges comenta ainda que os carros do Instituto Médico Legal (IML) ficaram estacionados em frente ao condomínio durante todo o processo. Só saíram após os 62 corpos serem retirados dos escombros.
De uma hora para a outra, Vinhedo, conhecida por ser um destino tranquilo, se tornou o centro das atenções do país. Nos dias seguintes à queda, a movimentação dentro e fora do condomínio chegou a dificultar a entrada dos moradores em suas residências.
Para Érika e Borges, o sentimento que ficou no condomínio depois do acidente foi o de uma enorme tristeza. Hoje, a maioria dos moradores prefere não falar muito sobre a data.
— Foi terrível, mas tivemos que seguir em frente. Nós, que moramos no condomínio, e as famílias das vítimas, claro, sempre lembraremos do que aconteceu. Presenciamos tudo, o acidente, o resgate, a retirada da aeronave e a recuperação do imóvel — diz Eduardo.
Apesar de estarem a poucos quilômetros de distância do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, Eduardo acredita que o medo de que outro acidente aconteça não é forte entre os moradores. O incômodo maior são os helicópteros, que sobrevoam o condomínio com certa frequência.
— Alguns helicópteros saem de suas rotas, principalmente nos finais de semana, e pairam por aqui. Parece que para verem o condomínio onde o acidente aconteceu. Isso tem assustado e incomodado quem mora aqui — completa.
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Já Érika lembra que algumas pessoas chegavam a deixar flores na entrada do condomínio, a fim de homenagear as dezenas de mortos. Um ano depois, ela sente que tenta deletar o acontecimento de sua mente, para que não reviva o dia com tanta frequência.
— Às vezes me dá um apagão, sabe? Lembro quando me perguntam se eu ainda moro no condomínio onde o avião da Voepass caiu. De um jeito ou de outro, a vida tem que seguir — conta.
Segundo os moradores, a mobilização da prefeitura de Vinhedo, do governo do estado e da própria companhia aérea durou entre dois e três meses. Nas primeiras horas, um comitê de gestão de crise chegou a ser formado.
Depois que todos os escombros do avião bimotor ATR-72 foram retirados do local, os moradores da casa atingida precisaram dar início a uma reforma. Érika e Borges contam que os reparos terminaram recentemente, mas que a família ainda não retornou para o endereço. Desde o acontecimento, Luiz Augusto de Oliveira, dono da casa, prefere não dar entrevistas.
— (Quando aconteceu) ele estava trabalhando em casa, a poucos metros de onde a ponta da asa do avião caiu. Falei para o Luiz que ele ‘nascera de novo’ — diz Borges, que lembra ter se encontrado com o vizinho logo depois do acidente.
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Procurada pelo GLOBO, a Voepass informou que segue “fortemente dedicada à resolução das questões indenizatórias” e que se solidariza “com toda forma de homenagem às vítimas do acidente”. “A tragédia nos impactou profundamente e mobilizou toda a nossa estrutura, humana e institucional, para garantir apoio integral às famílias, nossa prioridade”, completou, em nota.
A prefeitura de Vinhedo, também em nota, disse que “manifesta sua solidariedade às famílias e amigos das vítimas, reafirmando o respeito e a memória de cada uma das pessoas que estavam a bordo. (…) O município segue acompanhando, com responsabilidade e respeito, o andamento das investigações conduzidas pelas autoridades competentes”.
Neste sábado (9), quando a tragédia completa um ano, a associação de familiares das vítimas realizará na cidade um ato em homenagem aos 62 mortos no acidente, um culto ecumênico e uma cerimônia de plantio de árvores.
* Estagiária sob a orientação de Luiz Rivoiro