A Guiana vai às urnas nesta segunda-feira em meio à crise diplomática com a Venezuela, que reivindica a região do Essequibo, rica em petróleo e recursos naturais. O vencedor terá a missão de administrar a nova riqueza do país, ainda marcado por desigualdades, e enfrentar a pressão expansionista do governo de Nicolás Maduro.
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Dos 850 mil habitantes, cerca de 750 mil estão aptos a votar nas eleições legislativas de turno único. O candidato do partido mais votado assume automaticamente a chefia do Executivo. Três nomes despontam como favoritos: o atual presidente, Irfaan Ali; o líder da oposição, Aubrey Norton; e o multimilionário Azruddin Mohamed. Pesquisas locais apontam para a reeleição de Ali, mesmo que seguido de perto por Norton.
Atual mandatário, de origem indiana e muçulmano, Ali tem 45 anos e se apresenta como firme defensor do Essequibo. Nascido em Leonora, um vilarejo a 15 km da capital Georgetown, ele é filho de professores e estudou no Reino Unido e na Jamaica. Foi eleito deputado em 2006 e, em 2020, escolhido pelo ex-presidente Bharrat Jagdeo como candidato do Partido Progressista do Povo (PPP). Derrotou então David Granger. Primeiro mandatário a governar sob a era do petróleo, defende que os recursos sejam administrados em benefício das futuras gerações.
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Aubrey Norton, 68 anos, é seu principal adversário e líder da coalizão Aliança para uma Nova Unidade (APNU). Afro-guianense, formado em Cuba e no Reino Unido, construiu sua carreira no Congresso Nacional do Povo (PNC). Chefe da oposição desde 2022, é um crítico ferrenho do governo, que acusa de corrupção e ilegitimidade. Defende o uso das receitas do petróleo e do gás para combater a pobreza, com propostas de aumento de salários, pensões e auxílios sociais, além de subsídios à eletricidade e à água.
Já Azruddin Mohamed, 38 anos, busca romper o bipartidarismo ao lançar o partido WIN (We Invest in Nation). Filho de empresário, fez fortuna na exploração de ouro e cultivou uma imagem de playboy, mas foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA por evasão fiscal. Promete combater a corrupção, afastar-se das elites políticas e até abrir mão do salário presidencial. Desconfiado da imprensa, com quem pouco fala, aposta na juventude, no discurso direto e na imagem de outsider, embora sua real força eleitoral ainda seja incerta.
Com as maiores reservas de petróleo per capita do mundo, a Guiana quadruplicou seu orçamento estatal após a descoberta, em 2015, de grandes jazidas no Essequibo. O país iniciou a produção há seis anos e espera dobrar a extração de barris até 2030. Em 2024, teve o maior crescimento da América Latina, com avanço de 43,6% do PIB.
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Apesar disso, a pobreza ainda é alta. Segundo o Banco Mundial, a parcela da população que vive com menos de US$ 5,50 por dia caiu de 60,9% em 2006 para 48,4% em 2019. Não há números recentes para medir o impacto dessa indústria em termos de redução da pobreza.
— É preciso distinguir entre crescimento e desenvolvimento, garantir que a riqueza se traduza em desenvolvimento, e não apenas em estradas e infraestrutura — afirma Neville Bissember, professor de Direito da Universidade da Guiana. — Existem modelos a seguir: Botsuana, Cingapura, Malásia.
Passado colonial e sociedade dividida
Único país de língua inglesa da América do Sul, a Guiana foi colônia britânica até 1966 e integra a Commonwealth. Antes, foi colonizada pelos Países Baixos e, após a abolição da escravidão, recebeu imigrantes da Índia para o trabalho nas plantações de cana. A sociedade segue dividida por origem étnica, com diferenças marcantes entre as comunidades de ascendência indiana, africana e indígena. O PPP, de Ali, tem apoio majoritário entre os indianos.
Conflito territorial com a Venezuela
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A Venezuela reivindica o Essequibo há mais de cem anos. A região de 160 mil km² corresponde a dois terços do território da Guiana e voltou ao centro das tensões após as descobertas de petróleo. Caracas sustenta que a fronteira válida é a de 1777, do período colonial espanhol. Enquanto Georgetown defende os limites fixados em 1899, quando o país era colônia britânica.
Em maio, a Venezuela chegou a eleger simbolicamente um governador e outros representantes para a área, totalmente administrada pela Guiana. Antes, no início do ano passado, Maduro promulgou a Lei Orgânica para a Defesa da Guiana Essequiba, que contempla a criação do estado da “Guiana Essequiba”. À época, a decisão foi tachada pelos guianenses como uma “violação flagrante dos princípios mais fundamentais do direito internacional”.
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Pedidos de perdão e feridas abertas
Em agosto de 2023, descendentes de John Gladstone, pai do ex-primeiro-ministro britânico William Gladstone e um dos maiores proprietários de escravos na Guiana, realizaram uma cerimônia em na capital para pedir perdão pelo “crime contra a humanidade”. Manifestantes descendentes de escravizados rejeitaram as desculpas e exigiram reparações.
Em 1978, a selva guianense foi palco de uma das maiores tragédias do século XX. Mais de 900 seguidores da seita Templo do Povo, liderada pelo americano Jim Jones, morreram em um suicídio coletivo. Na véspera, Jones havia ordenado o assassinato do deputado americano Leo Ryan, que visitava o local para investigar denúncias. Depois, persuadiu seus seguidores a ingerir veneno. Quem tentou fugir foi capturado ou morto a tiros. Jones foi encontrado com um tiro na cabeça — nunca se soube se ele se matou ou foi assassinado.
