Thiago Soares foi a um jogo da seleção brasileira pela primeira vez há um ano, na vitória sobre o Equador, em Curitiba. Frequentador de São Januário, o vascaíno de 36 anos, morador do Morro do Turano, na Tijuca, sempre viu a Amarelinha como uma realidade distante. Mas, na próxima quinta, no Maracanã, contra o Chile, já irá para a quarta partida. É que, neste período, ele embarcou numa missão.
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Nos estádios, Thiago passou a integrar o Movimento Verde e Amarelo, espécie de organizada que acompanha o Brasil nos esportes. No Turano, criou um projeto que ensina crianças a tocar percussão, o Crias do MVA. Seu sonho é torná-las muti-instrumentistas e futuros torcedores. Ao mesmo tempo, ajuda o coletivo a implementar a cultura da arquibancada nos jogos da seleção, numa tentativa de aproximá-la do público. Mas reconhece que não é fácil.
— Vou ser sincero: a grande maioria não consegue arcar com o valor dos ingressos. Isso afasta o torcedor da seleção — afirma o produtor cultural.
A dificuldade de conexão nos estádios é só a ponta do iceberg. A pesquisa O GLOBO / Ipsos-Ipec revela que o afastamento é mais profundo. Aos entrevistados, foi pedido que avaliassem, de 0 a 10, seu grau de fanatismo pela seleção. Apenas 15,9% escolheram as notas mais altas (9 e 10). Já quase a metade (48,5%) optou pelas mais baixas (0 a 4).
A nota zero foi a mais escolhida, tendo sido apontada por 32,4%. Ou seja: quase um a cada três diz não se importar com a seleção. Curiosamente, este percentual é quase igual ao de entrevistados que, em outra pergunta da mesma pesquisa, escolheram 9 e 10 para avaliar o nível de fanatismo pelo seu time: 33,3%.
A pesquisa define bem o perfil dos torcedores mais fanáticos pela seleção. Eles estão mais presentes entre os homens, entre os mais jovens, os menos escolarizados, os moradores de cidades pequenas, do interior e das regiões Nordeste e Norte/Centro-Oeste e os que recebem até um salário mínimo.
O recorte econômico evidencia uma das dificuldades na relação, já que há uma incompatibilidade entre os valores dos ingressos e a renda dos que dizem mais se importar com a seleção. Mas há mais fatores em jogo, a começar pelo jejum de títulos mundiais. Em 2026, ele chegará a 24 anos e se igualará à maior escrita da seleção ( de 1970 a 1994).
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Para Lênin Franco, sócio da agência 94 Marketing & Football, os ídolos são o principal ponto de conexão do torcedor com o esporte. E este é outro ponto fraco da seleção.
— Na sua história, ela sempre teve grandes ídolos. E a gente vive um hiato desde o fim da geração de 2002, quando tivemos quatro que foram melhores do mundo: Rivaldo, Kaká, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho — afirma o especialista em marketing esportivo, com passagens por Bahia, Botafogo, Cruzeiro e CBF.
Neymar é a grande inspiração dos alunos do Crias do MVA. Só que, nos últimos anos, o atacante do Santos esteve sozinho como esta figura de elo entre a torcida e a seleção. Recentemente, ele ganhou a companhia de Vini Jr.
Não faltam jovens candidatos, como Estêvão e Endrick, a atingir este status. Para Franco, este é um caminho a ser explorado na comunicação da CBF com o público.
— A maneira mais efetiva de fisgar a emoção do torcedor ainda é o conectando com os atletas e transferindo seu carisma para a camisa da seleção — aponta o especialista em marketing esportivo, que vê nas redes sociais importante ferramenta de comunicação contante com o público. — Ela não acontece só no período de convocações. Pela ligação que tem com os atletas, a CBF tem a oportunidade de manter uma comunicação perene, o ano todo, pelas redes sociais, em lançamentos de camisas e outras ações.
Além da próxima Copa, Franco acredita que dois eventos no futuro podem ser fundamentais para mudar o status atual da relação entre seleção e torcida. O primeiro, também em 2026, é a eleição. Segundo o especialista em marketing, a adoção da camisa amarela por eleitores de direita nos últimos anos alterou seu significado e afastaram dela todos os que não compartilhavam dos mesmos valores que este grupo. A CBF precisou atuar para tentar desfazer essa vinculação.
O outro é a Copa feminina de 2027. Por ser no Brasil, o evento tem potencial para conectar ainda mais as torcedoras da seleção. Na pesquisa, apenas 14,1% das entrevistadas se disseram fanáticas (contra 17,7% dos homens).
Thiago Soares não tem dúvidas de que a seleção ainda é capaz de fazer os olhos dos torcedores brilharem. Foi o que ele testemunhou quando levou os alunos do projeto para o jogo contra o Paraguai, em junho, em São Paulo:
A pesquisa foi realizada pela Ipsos-Ipec entre 5 e 9 de junho de 2025. Foram entrevistadas 2000 pessoas com 16 anos ou mais em 132 municípios brasileiros. Com nível de confiança de 95%, a margem de erro estimada para o total da amostra é de 2,2 pontos percentuais. Em alguns recortes, a soma pode ser maior que 100% porque foram considerados dois times como preferência.