Com planos de anunciar um suposto “fim da Cracolândia” em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) enfrentam um obstáculo: a recusa do Teatro de Contêiner Mungunzá em deixar o espaço que ocupa desde 2016 na região, no centro da capital paulista. A resistência fez a dupla de aliados políticos adiar tentativas de fazer anúncio, que atualmente não tem nova data para ocorrer.
Antes um dos principais pontos de concentração de usuários de drogas, a região do teatro foi escolhida pela prefeitura como peça-chave de um projeto de revitalização do centro, que prevê a construção de um conjunto habitacional e um parque. Após a desocupação das ruas do antigo “fluxo” de usuários, porém, os dependentes químicos se espalharam por outras áreas do centro.
Desde maio, quando a Cracolândia amanheceu vazia, Nunes tenta retirar o grupo teatral do endereço. O prefeito chegou a oferecer outros terrenos à companhia, que ocupa um área cedida pelo município, mas as propostas foram rejeitadas. Além de reclamarem da redução de espaço, os coordenadores defendem a arquitetura do teatro de contêiner — premiada internacionalmente — e sua relação intrínseca com a região da cracolândia.
A mobilização do grupo, que se recusou a deixar o espaço após um confronto com a GCM, em agosto, atraiu apoio de artistas e personalidades. A atriz Fernanda Montenegro, por exemplo, enviou uma carta ao prefeito em defesa da permanência do teatro.
A resistência já frustrou duas vezes os planos da prefeitura e do governo para anunciar uma suposta vitória na cracolândia. A primeira em 19 de agosto, quando, após prorrogações do prazo de despejo, a prefeitura enviou a Guarda Civil Metropolitana (GCM) para supostamente desocupar um prédio anexo ao teatro. Naquele dia, a prefeitura chegou a iniciar a montagem de um palco para o anúncio do “fim da cracolândia”, em evento que ocorreria no dia seguinte e teria a presença de Tarcísio, mas o equipamento acabou desmontado após a resistência do teatro.
Os coordenadores do grupo artístico entenderam a ação da GCM como pressão para uma saída antecipada — já que o prazo venceria apenas em 21 de agosto — e organizaram uma vigília contra a guarda, enquanto negociavam com o governo federal nova prorrogação.
Com o palco desmontado, o evento foi adiado em uma semana porque o governador estaria em Brasília em agenda oficial, disse o prefeito. Assim, o teatro ganhou alguns dias extras de negociação.
Pouco depois, um novo revés para os mandatários: uma decisão judicial autorizou a permanência do grupo teatral por mais 180 dias no local. Nunes classificou a decisão como “equivocada” e disse que será necessário “readequar” o projeto, sem anunciar novo prazo para o evento.
Coordenado por treze pessoas, o Teatro busca ocupar um terreno da União, também na região da Luz. As tratativas estão em andamento com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), que espera concluí-las até o fim do ano. A secretaria articula a cessão de um terreno entre o Brás e a Barra Funda, atendendo à demanda do grupo por permanecer no centro. A pasta, porém, ainda não definiu um espaço. Existe a possibilidade de ceder ao grupo um terreno federal da rede rodoviária, mas o governo aguarda a liberação de documentos e a definição de uso dos espaços para avaliar a área disponível.
Construído em 2016, após mapeamento de terrenos públicos ociosos na cidade, o teatro foi erguido com recursos juntados ao longo de nove anos. A escolha pelos contêineres, explica a companhia, ocorreu pela praticidade modular, o custo reduzido e a rapidez na montagem.
“Utilizando blocos de madeira como maquete e baseados em nosso conhecimento empírico sobre espaços cênicos, Lucas Beda e Marcos Felipe elaboraram a arquitetura do Teatro”, registra o grupo em seu site. Os contêineres foram comprados no litoral paulista.
O Teatro é formado por dez contêineres. Além do palco e da plateia para noventa e nove pessoas, abriga o coletivo Tem Sentimento — com ateliê de costura e área social, estruturados em dois contêineres — e o coletivo artístico Birico Arte, que mantém ateliê e escola gráfica em outro contêiner.