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EUA exigem afastamento político da China em troca de apoio econômico à Argentina

BRCOM by BRCOM
setembro 28, 2025
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O ministro da Economia, Luis Caputo (à esquerda), o presidente Javier Milei e o ministro da Defesa, Luis Petri, na Assembleia Geral da ONU para o discurso do Presidente na última quarta-feira, em Nova York — Foto: Divulgação/Presidência da Argentina
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Em Washington, espera-se, no âmbito interno, que o governo argentino reforce a busca por acordos políticos concretos com parte da oposição para avançar em reformas que tornem sustentável o rumo econômico. No plano geopolítico, pretendem que o país deixe de jogar dos dois lados: aspiram a um afastamento da influência da China, materializada — entre outros aspectos — no swap que o Banco Central (BCRA) mantém com o Banco Popular do gigante asiático.

Pessoas próximas a Milei asseguram que as equipes econômicas apenas começaram a discutir os próximos passos e que ainda falta definir uma “rota de trabalho”, embora esteja previsto que a ajuda americana chegue a tempo de enfrentar os vencimentos da dívida com os detentores de títulos em janeiro e julho de 2026, que somam US$ 8,5 bilhões.

“As equipes técnicas vão se sentar para conversar e ver qual será a forma de implementação”, disse um importante funcionário ao concluir a viagem em Nova York.

O ministro da Economia, Luis Caputo (à esquerda), o presidente Javier Milei e o ministro da Defesa, Luis Petri, na Assembleia Geral da ONU para o discurso do Presidente na última quarta-feira, em Nova York — Foto: Divulgação/Presidência da Argentina

Fontes oficiais da Casa Rosada recusam-se a falar em condições.

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“É falso que os Estados Unidos tenham pedido algo. Se há condicionalidades, elas ainda não foram colocadas sobre a mesa. A mensagem foi clara: o que precisarmos estará disponível”, afirmou ao jornal La Nacion um importante funcionário da Casa Rosada antes do retorno da comitiva argentina a Buenos Aires.

Após voltar de Nova York, no entanto, o ministro da Economia, Luis Caputo, reconheceu que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, pediu que o governo reconstruísse pontes políticas.

“Foi a única coisa que ele me disse: ‘Trabalhem na governabilidade, Toto’. Nós temos um conjunto de reformas — tributária, trabalhista [e previdenciária] — que vão ajudar enormemente a destravar a economia. Mas você precisa de maioria simples [no Congresso] para conseguir aprovar essas reformas. É preciso recompor a confiança”, afirmou.

Funcionários, colaboradores e intermediários que, nos últimos dez dias, estiveram em contato direto com as equipes do Tesouro americano e do Departamento de Estado admitiram que, em Washington, a maior preocupação é que Milei demonstre ser capaz de costurar acordos no Congresso. Querem, em última instância, que o governo garanta um rumo que ofereça previsibilidade aos investidores e o pagamento das dívidas do país.

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Diversas testemunhas das negociações apontam que, para os Estados Unidos, não importarão tanto os percentuais das eleições de 26 de outubro próximo, mas sim a composição posterior do Congresso e a capacidade do Poder Executivo de construir coalizões para consolidar o superávit fiscal e a redução das regulações comerciais.

— Não é uma questão de números. É que certos temas possamos entrar em consenso — resumiu um ministro.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e secretário do Tesouro, Scott Bessent, durante reunião com a delegação argentina em Nova York — Foto: Brendan Smialowski/AFP
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e secretário do Tesouro, Scott Bessent, durante reunião com a delegação argentina em Nova York — Foto: Brendan Smialowski/AFP

Segundo apurou o La Nacion, os interlocutores do governo Trump deixaram esse recado muito claro à comitiva argentina em Nova York. É evidente que, em Washington, acreditam que uma vitória do peronismo em 2027 significaria um afastamento do alinhamento incondicional que Milei firmou com os Estados Unidos. Para o governo dos EUA, a Argentina é um aliado-chave em sua estratégia para a América Latina.

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Embora o governo de Milei já tivesse adotado essa guinada política de diálogo após a dura derrota que seu partido, o Liberdade Avança (LLA), sofreu na província de Buenos Aires, com o prometido resgate de Trump o país passará a ter os olhos de Washington acompanhando de perto o cenário interno — uma tutela que se somará à do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A diretora-gerente do Fundo, Kristalina Georgieva, que se reuniu com Milei e Caputo em Nova York, celebrou o apoio dos Estados Unidos. Ao ser questionada pela CNN sobre se lhe preocupa que o acordo bilateral com a Casa Branca “não tenha as mesmas condições” que o organismo multilateral, ela afirmou:

—Temos estado em estreito contato com os Estados Unidos enquanto preparavam seu programa: os interesses deles e os nossos coincidem.

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E lembrou que “os Estados Unidos são o maior acionista” do FMI.

— O que queremos é ver a Argentina mantendo o rumo em direção à estabilização macroeconômica e sustentando boas políticas por tempo suficiente para que se tornem irreversíveis — acrescentou Kristalina Georgieva.

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Cenários de máxima e de mínima

Há uma semana, no domingo anterior à viagem de Milei, reuniram-se até de madrugada — em um Ministério da Economia deserto — as equipes de “Toto” Caputo — seu segundo, José Luis Daza; o presidente do BCRA, o banco central argentino, Santiago Bausili; e os funcionários e assessores do ministro, Felipe Núñez, Federico Furiase e Martín Vauthier —, juntamente com o assessor presidencial, Santiago Caputo, e seu círculo mais próximo de colaboradores e consultores.

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Na reunião, a pedido de Washington, os aliados de Milei prepararam relatórios em inglês com os cenários de máxima e de mínima sobre como ficará conformado o Congresso a partir de dezembro, além de perspectivas eleitorais baseadas em pesquisas.

O presidente argentino, Javier Milei, recebe o Prêmio Global do Conselho Atlântico das mãos do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, durante cerimônia de gala em Nova York. — Foto: Kena Betancur/AFP
O presidente argentino, Javier Milei, recebe o Prêmio Global do Conselho Atlântico das mãos do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, durante cerimônia de gala em Nova York. — Foto: Kena Betancur/AFP

O próprio Bessent deixou isso transparecer em entrevista à Fox Business na quarta-feira, após sua publicação no X detalhando os instrumentos para o resgate financeiro da Argentina.

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“Não acho que o mercado tenha perdido a confiança em Milei, acho que está olhando pelo retrovisor e vendo décadas, quase um século, de terrível má gestão argentina. Para ajudá-lo a chegar às eleições, não vamos permitir que um desequilíbrio no mercado provoque um retrocesso em suas substanciais reformas econômicas”, disse o secretário do Tesouro dos EUA, que em todas as oportunidades que teve nesta semana se mostrou muito elogioso a Milei.

De fato, um dos ministros da comitiva contou que, de toda a viagem, o que mais os surpreendeu foi o discurso de Bessent na cerimônia de gala do Atlantic Council, na qual Milei recebeu o prêmio Global Citizen Award das mãos do secretário do Tesouro.

“Nós o ouvíamos e não podíamos acreditar”, afirmou o funcionário.

A presença discreta em Nova York de Daza, secretário de Política Econômica que teve uma longa trajetória como executivo em Wall Street, não foi casual. Ele é o funcionário que manteve contatos frequentes com o subsecretário do Tesouro, Michael Kaplan, nas negociações com os Estados Unidos.

Concluída a viagem, no entanto, o governo exibe contradições em sua mensagem. Um setor da Casa Rosada minimiza a ideia de que a administração de Trump aspire a que Milei demonstre maior musculatura política.

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Na quinta-feira, antes de partir para Buenos Aires, um membro da comitiva afirmou:

— Nós vínhamos de uma semana muito ruim, de um velório. A sexta-feira foi um dia ruim até no aspecto anímico, e o que aconteceu depois em Nova York foi espetacular. O acordo não está sujeito ao resultado das eleições, isso é fake. Não viemos buscar dinheiro nem nada. Foi tudo inesperado e positivo — disse, acrescentando:

— A busca por consensos políticos é anterior ao que aconteceu nesta semana e nada tem a ver com os Estados Unidos.

Embora não tenha havido um condicionamento explícito, os interlocutores que trataram com os burocratas de Washington entenderam que o governo Trump aspira que a Argentina neutralize a influência comercial da China no país e que, eventualmente, cancele o swap com aquele país.

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Esse intercâmbio de moedas chega a cerca de US$ 18 bilhões. Para os americanos, o swap é uma das vias utilizadas pelo gigante asiático para fazer o yuan crescer como moeda de intercâmbio comercial, em detrimento do dólar.

Em maio passado, a embaixada da China em Buenos Aires havia rejeitado “a intromissão dos Estados Unidos” no swap com a Argentina, acusando o então enviado especial para a América Latina, Mauricio Claver-Carone, de usar “lugares-comuns, preconceitos e manipulações próprias da Doutrina Monroe”. Seria isso um prenúncio do que pode acontecer nas próximas semanas?

—É evidente que eles querem que o cancelemos, mas, por enquanto, a abordagem é informal. É preciso ver o que isso significa, em quais termos e o que pode ser implementado para desfazer esse caminho com a China — disse uma das testemunhas das trocas dos últimos dias.

Caputo destacou que, para Washington, o apoio ao Governo “é uma decisão geopolítica” e falou, sem dar detalhes, sobre “investimentos na economia real que beneficiem ambos os países”.

Luis Caputo, Karina Milei, Javier Milei, Donald Trump e Gerardo Werthein em Nova York — Foto: Divulgação/Presidência da Argentina
Luis Caputo, Karina Milei, Javier Milei, Donald Trump e Gerardo Werthein em Nova York — Foto: Divulgação/Presidência da Argentina

A menção do ministro à “geopolítica” aponta implicitamente para a China. Altos funcionários da administração Trump criticaram duramente o swap com o gigante asiático, e vários analistas de mercado nos Estados Unidos afirmam que sua finalização poderia ser uma das condições para selar a linha de swap com o Tesouro americano.

Em junho passado, a Argentina e a China renovaram a parte ativada do swap de moedas pelo equivalente a US$ 5 bilhões até julho de 2026. Os Estados Unidos poderiam pedir que ele seja cancelado ou que não seja renovado quando chegar o momento de renegociar.

Em abril, o próprio Bessent havia destacado que “à medida que esta administração [de Milei] mantenha sua política econômica inflexível, eles deveriam eventualmente ter entradas de divisas suficientes para poder pagar” o swap com a China. Também havia reconhecido que o que os Estados Unidos tentam fazer na América Latina é evitar o que aconteceu na África, onde a China teve uma grande expansão.

— Assinaram vários acordos predatórios que se apresentam como ajuda, apropriaram-se de direitos minerais e acrescentaram enormes quantidades de dívida aos balanços desses países — afirmou Bessent.

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Diante de versões que circularam de que o Governo estaria disposto a permitir que as forças americanas operem na base naval que está sendo construída em Ushuaia, uma alta fonte da comitiva desmentiu categoricamente e assegurou ao La Nacion que nenhuma condição ligada à defesa foi colocada em pauta.

Veremos, com o passar dos dias, se o presidente argentino está ciente dos ajustes políticos e comerciais que se esperam de sua gestão. No último dia de sua visita a Nova York, Milei cumpriu um ritual que costuma fazer sempre que viaja: visitou o túmulo do rabino Lubavitch, no cemitério Montefiore, em Queens, e se reuniu por pouco mais de meia hora com o rabino Simon Jacobson, com quem mantém uma conexão pessoal e espiritual.

Nesse encontro privado, soube o jornal, o presidente compartilhou alguns dos desafios de sua administração e “a força que lhe dá o apoio dos Estados Unidos”.

— Sente que parte de seu mandato, sua responsabilidade, é impulsionar e elevar a economia e o status político da Argentina — contou uma testemunha privilegiada do encontro, que acrescentou que também falaram sobre padrões morais. — Estava muito animado. Mostrou-se muito otimista e esperançoso —”acrescentou sobre o estado de ânimo do chefe de Estado, em uma semana crucial para seu mandato.

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