A relação entre música e oceano no Brasil é ancestral. Desde os primeiros registros da MPB, o mar aparece como protagonista de canções que abordam desde questões amorosas até temas como escapismo, evolução pessoal e espiritualidade. No documentário “Quando o Mar Vira Música”, que o jornal O Globo publica nesta sexta-feira (28) em seu site e plataformas digitais, artistas contemporâneos explicam como essa conexão com o mar pode estimular a consciência ambiental e despertar a cultura oceânica nas novas gerações.
Documentário revela como artistas brasileiros usam músicas para fortalecer a cultura oceânica no Brasil
Referência dessa relação até hoje, Dorival Caymmi não apenas cantava sobre o oceano; ele traduzia a cosmologia dos pescadores baianos, onde cada onda carregava histórias de fé, trabalho e sobrevivência. “O Mar”, “É Doce Morrer no Mar” e “Temporal” são retratos sensíveis de uma cultura profundamente ligada ao mar. Amante da natureza, Tom Jobim também dedicou sua vida ao oceano em obras mundialmente conhecidas. Não à toa, as estátuas dos dois estão fincadas na orla do Rio, em Copacabana e no Arpoador.
Nas décadas seguintes, o mar continuou presente na música brasileira. Djavan chegou a batizar um dos maiores sucessos de sua carreira justamente de “Oceano”, explorando o mar como metáfora para sentimentos profundos. Lulu Santos criou um dos maiores clássicos da MPB ao usar as ondas como metáfora para a impermanência da vida em ‘Como Uma Onda’. Paulinho da Viola poetizou sobre uma cidade engolida pelas águas em “Cidade Submersa”, misturando memória e imaginário carioca.
Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Tim Maia e uma lista extensa de tantos outros expoentes da música brasileira também usaram o mar como elemento central de suas obras, seja transformando orlas em trilhas sonoras, seja explorando dimensões pessoais e amorosas, seja reverenciando a religião e a espiritualidade principalmente através de Iemanjá, a rainha do mar. A presença do oceano na música brasileira é tão marcante que, segundo levantamento do Ecad feito a pedido do Globo, existem 1.460 canções em português com a palavra “oceano” no título e 261 com “mar”. Se ampliarmos para outros elementos aquáticos, os números saltam para mais de 40 mil canções com praia, água, rio ou chuva nos títulos das composições.
“O mar e a música estão de mãos dadas desde que a música popular se configurou. A música tem essa peculiaridade de as pessoas carregarem consigo e de semear mensagens importantes. Acho fundamental a gente como voz artística poder ajudar a chamar atenção a algo que nos compete e a fazer diferente”, disse Pedro Luís no documentário, que tem apoio do Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental, promovido pela Fundação Grupo Boticário em cooperação com a UNESCO e o Museu do Amanhã.
Na produção contemporânea, a estética oceânica ganhou novos contornos. Artistas como Marina Sena, Armandinho, Lagum e Gabi Melim exploram o oceano como território simbólico para falar de pertencimento, autoconhecimento e urgência ecológica. O “indie praia” também ganhou força como uma estética reconhecível na nova música brasileira, marcado por guitarras reverberadas e letras que evocam nostalgia, liberdade e melancolia – sentimentos que o mar sempre despertou.
“Escrevo minhas composições na sala da minha casa. Estou sempre olhando para a natureza e sempre trago esses elementos. Tudo o que tem a ver com água eu amo: mar, cachoeira, rio”, contou no documentário Gabi Melim, que estreou neste ano sua primeira turnê solo após fim da banda Melim, dona de hits de sucesso como “Ouvi Dizer” e “Meu Abrigo”.
O uso da música como atividade pedagógica também tem sido aproveitado pelas Escolas Azuis, instituições que inseriram o oceano no currículo escolar de forma transversal. O documentário mostra como exemplo a Escola Notre Dame, na Zona Sul do Rio, que incorpora canções em suas atividades sobre cultura oceânica. O estado do Rio tem hoje dez Escolas Azuis, enquanto o Brasil conta com 388 instituições do tipo em 24 estados, levando a mensagem da preservação do oceano para mais de 100 mil alunos do país.
“Através da arte a gente consegue comunicar muito mais do que de outras formas. A criança se identifica com o som, com a melodia e com aquela mensagem que está sendo ouvida. Acho isso muito importante”, defendeu Gabi Melim.

