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um ano e meio após queda do último andar, lojistas resistem e relembram histórias do centro comercial de Niterói

BRCOM by BRCOM
novembro 28, 2025
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Justiniano Conhasca exibe revistas antigas que registram sua passagem pelo futebol profissional antes de abrir o escritório no “Shopping das Galinhas” — Foto: Felipe Gelani

À primeira vista, o prédio da Rua Engenheiro Guilherme Greenhalgh não chama a atenção. Em meio ao rico comércio de rua de Icaraí, onde fachadas e vitrines mudam de um dia para o outro — como a alteração de nome de uma importante avenida do bairro —, ele parece seguir em outra velocidade. Mas basta subir a rampa e atravessar a porta de vidro para sentir um clima que os vizinhos moderninhos não conseguem reproduzir: o de um comércio sobrevivente, habitado por personagens que viram, décadas a fio, o bairro se transformar ao redor.

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É o caso de Justiniano Conhasca, dono de um escritório de contabilidade e conhecedor das histórias do lugar.

— Estou aqui há 54 anos, quando o prédio ainda tinha escada rolante e um boliche no terceiro andar — conta.

O apelido Shopping das Galinhas, ele explica, nasceu dos abatedouros que funcionavam ali: galinhas, cabritos e porcos eram abatidos na hora.

Justiniano Conhasca exibe revistas antigas que registram sua passagem pelo futebol profissional antes de abrir o escritório no “Shopping das Galinhas” — Foto: Felipe Gelani

Embora já fosse formado em Contabilidade, Conhasca foi jogador de futebol profissional: o Tininho, revelado no Canto do Rio, jogou lá a última temporada do clube no Cariocão, em 1964; treinou com Gérson no Botafogo; foi campeão pelo Náutico; e defendeu o Valencia, da Venezuela. Mas encerrou cedo a carreira.

— Queria me casar e estava em outro país. Voltei e abri o escritório. Na época, não tinha essa variedade de lojas na Moreira César (atual Avenida Paulo Gustavo), mas os aluguéis de loja de rua em Icaraí encareceram, chegando a R$ 20 mil. Aqui era R$ 1.500. Isso fomentou a chegada de serviços como salões de beleza — conta.

Em 2024, o prédio virou notícia por um motivo menos nostálgico: o desabamento de parte do último andar, após problemas numa obra. Atualmente o local está lacrado e aguarda uma definição judicial: há interessados, e o espaço de 1.300 metros quadrados pode ganhar uma clínica após um leilão.

A Defesa Civil garantiu que não houve dano estrutural, mas para quem vive do movimento diário, cada dia fechado significou prejuízo real. A sapateira Emanuele Bastos, herdeira de uma tradição que começou com o avô, lembra:

— Ficamos fechados por 20 dias. Foram R$ 6 mil de prejuízo. E quando reabrimos, muita gente ainda tinha medo de entrar.

Na Renovadora de Calçados São João, ela e o irmão, Jonathan, mantêm vivo um ofício cada vez mais raro.

— As pessoas não querem aprender. Costura então, ninguém quer fazer. Sem mão de obra, um serviço que eu entregaria em dez dias leva 30 — afirma Emanuele.

A poucos metros dali, outra loja nasceu depois do susto: o Arte em Barro, da ceramista Valéria Queiroz, inaugurado em março. Antes, ela dava aulas de cerâmica em casa, longe de Icaraí, e a loja foi crucial para o empreendimento.

— A experiência tem sido maravilhosa. O retorno dos alunos é fantástico. É um lugar escondido, mas que me permite ter um estabelecimento próximo aos meus estudantes — diz, com brilho nos olhos.

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