Bancos de Sydney a Londres estão em uma corrida para preencher o cargo sênior de diretor de inteligência artificial, uma função que praticamente não existia há um ano. Os profissionais que ocupam essa posição, no entanto, afirmam que ela pode não durar muito tempo.
Executivos do HSBC, do Commonwealth Bank of Australia e do Lloyds Banking assumiram cargos de liderança em inteligência artificial nos últimos três meses. Essas funções podem render salários de quase US$ 3,5 milhões por ano e exigem competências relativamente raras, o que leva as instituições a atrair profissionais dos concorrentes.
A movimentação de talentos de alto escalão e a amplitude das atribuições do cargo deram origem a um debate sobre sua possível vida útil limitada. A ideia é que, à medida que os banqueiros se tornem mais habilidosos no uso de agentes e softwares de IA em suas atividades diárias, a função de chefe de IA talvez deixe de ser necessária nos próximos anos.
“Qualquer diretor de IA deveria partir do princípio de que não terá um cargo no futuro”, afirmou David Hardoon, que deixou o Standard Chartered em março, após menos de um ano como chefe global de capacitação em IA. “Temos um diretor de Excel? Temos um diretor de e-mail? Não”, acrescentou.
A parcela de organizações que contam com um diretor de IA saltou para 76% neste ano, ante 26% em 2025, segundo o IBM Institute for Business Value, que ouviu 2.000 presidentes-executivos em 33 países e 21 setores da economia.
Em Cingapura, os cargos de liderança em IA estão entre as áreas de vagas que mais crescem, de acordo com dados do LinkedIn, mesmo com a demanda por profissionais especializados em tecnologia superando a oferta.
Essas movimentações refletem um grupo reduzido de executivos que recebe pacotes de remuneração com mediana de cerca de US$ 1,6 milhão, enquanto os mais bem pagos se aproximam de US$ 3,5 milhões, segundo a empresa de pesquisa de dados Equilar. Os salários exatos raramente são divulgados.
A corrida também reflete preocupações mais profundas dentro das organizações. Bancos que têm dificuldade para incorporar a IA correm o risco de perder clientes, participação de mercado e talentos para rivais. Ainda assim, nomear um diretor de IA não garante sucesso, e as instituições que agora se apressam para preencher a função frequentemente divergem sobre o que, de fato, ela envolve.
O cargo cumpre várias finalidades ao mesmo tempo, afirmou Pei Ying Chua, economista-chefe para a Ásia-Pacífico no LinkedIn.
“A primeira é ter alguém capaz de dar sentido à estratégia de IA da empresa”, disse ela em entrevista. A estratégia de cada companhia é diferente e, “às vezes, uma estratégia de IA envolve decidir o que fazer e o que não fazer”, afirmou.
Parte desse trabalho consiste em definir quem será responsável pelo treinamento em IA dentro de um banco e decidir se essa atribuição ficará com o departamento de recursos humanos, uma divisão digital ou o diretor de tecnologia, disse Chua. Programas amplos, implementados em toda a empresa, tendem a ficar sob responsabilidade do RH, enquanto iniciativas mais especializadas podem ser alocadas em outras áreas, acrescentou.
Alguns executivos seniores afirmam que a função acabará sendo absorvida pelas organizações. Peng Zhao, CEO da Citadel Securities, disse que cargos de diretor de IA não serão necessários no longo prazo porque a IA passará a integrar a infraestrutura tecnológica da mesma forma que os smartphones e os computadores pessoais.
“Não temos um chefe de dispositivos móveis”, afirmou durante o Global Financial Leaders’ Investment Summit, em Hong Kong, em novembro.
Por enquanto, faculdades de negócios comercializam cursos voltados para essa função. Entre eles está o programa para diretores de IA da Booth School of Business, da Universidade de Chicago, que custa cerca de US$ 28 mil por um curso de dez meses. A Duke University, a Cornell University e a University of Michigan lançaram programas semelhantes, geralmente direcionados a profissionais em meio de carreira que buscam reforçar suas competências.
“A taxa de crescimento dessa função é insana”, disse Matt Cohn, diretor sênior de inovação em estratégia de programas da Universidade de Chicago. “Muitos dos nossos alunos são fundadores, CEOs e diretores de estratégia, e dizem: preciso das habilidades de um diretor de IA.”
O veterano do setor Ranil Boteju, que deixou o Lloyds para se tornar o primeiro diretor de IA do Commonwealth Bank, o maior banco da Austrália, acredita que a IA se tornará “invisível”, incorporada a tudo o que um banco faz dentro de cerca de uma década — de forma muito semelhante à eletricidade.
O cargo de diretor de IA “será uma função muito pequena” mais adiante no futuro, afirmou em um vídeo publicado em maio no site da instituição. A IA “estará incorporada a tudo o que fazemos e nem perceberemos que ela está lá”.

