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setembro 24, 2026
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A conta fecha? Rio tem oito reboques para uma média de 550 denúncias de estacionamento irregular por dia

Por · setembro 24, 2026
A conta fecha? Rio tem oito reboques para uma média de 550 denúncias de estacionamento irregular por dia


Não é preciso circular muito pela cidade para ver carros parados sobre a calçada, na porta de garagens ou nas ruas fora de vagas demarcadas. O desrespeito às leis de trânsito se reflete na enxurrada de denúncias feitas ao 1746, serviço de teleatendimento da prefeitura. Este ano, de 1º de janeiro até a última terça-feira, o portal recebeu 144.794 queixas de estacionamento irregular, uma média de 548 por dia. O número representa um aumento de 8,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
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Frota de 3,6 milhões
Enquanto crescem as reclamações, a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) fechou um contrato para a operação de oito reboques. Os guinchos vão atender toda a cidade — de Santa Cruz, na Zona Oeste, ao Centro, passando por Barra, Recreio e pelos bairros das zonas Norte e Oeste. Um deles vai ser usado para ônibus e caminhões. Os outros vão ficar com os carros de passeio. A frota na capital é de 3,6 milhões de veículos, de acordo com dados do Detran-RJ. A prefeitura já teve 40 reboques.
— A Praia de Botafogo é uma das mais problemáticas do bairro. Motoristas de ônibus, caminhões e táxis ficam parados na pista interna apostando na impunidade. Há uma semana, o motorista de um caminhão-baú parou em cima dos jardins do canteiro central. Ele retirou de lá um sofá, se deitou e dormiu debaixo das árvores na hora do almoço. Nenhum guarda municipal apareceu para multar. Reboques, nem pensar — contou a presidente da Associação de Moradores de Botafogo (Amab), Regina Chiaradia.
Espremido. O carro é deixado na calçada atrás de um ponto de ônibus na Gávea
Agência O Globo
A nova operadora substituiu uma prestadora de serviços contratada emergencialmente pelo município que, segundo o previsto, deveria manter 33 reboques nas ruas, mas recebeu várias advertências e multas por não cumprir o combinado. Essa empresa mantinha um depósito no Andaraí, na Zona Norte. Para chegar até lá, o motorista via dezenas de carros parados sobre as calçadas.
Em dezembro do ano passado, o secretário de Ordem Pública, Marcus Belchior, chegou a prometer que faria uma nova licitação para alugar 40 reboques. Não foi o que aconteceu agora. Em nota, a Seop informou que dimensionou a nova frota com base em estudos para ter “uma melhor eficiência operacional relacionada ao tempo de resposta das demandas”.
Nessa avaliação, também foi levado em conta que os reboques só são deslocados depois que as equipes de fiscalização vão até o local e confirmam a veracidade da denúncia. Em alguns casos, os guardas municipais avaliam que não é necessário rebocar o veículo estacionado irregularmente, apenas aplicar a multa. Outra diferença, argumenta a Seop, é que agora a frota está disponível 24 horas por dia, com motoristas terceirizados se revezando em turnos de 12 horas cada um.
Acontece que as equipes de fiscalização para verificar as irregularidades nas ruas também são insuficientes. Fontes do GLOBO contaram, por exemplo, que a Guarda Municipal só conta com dois veículos para supervisionar infrações de trânsito na região que abrange oito bairros: Glória, Catete, Laranjeiras, Urca, Cosme Velho, Flamengo, Botafogo e Humaitá.
— Dois carros já não seriam suficientes para fiscalizar sequer a parada irregular em frente a mais de cem colégios particulares e cursinhos existentes em Botafogo — ironizou Regina Chiaradia.
40km até o depósito
Cada reboque padrão tem capacidade para levar até dois veículos por vez para um dos dois depósitos da prefeitura. Quem tiver o carro recolhido na Zona Sudoeste deverá buscá-lo em Guaratiba. Se o carro tiver sido levado da Praia do Pepê, por exemplo, o dono percorrerá 40 quilômetros até o posto na Rua dos Floricultores. Para o restante da cidade, a referência é o pátio na Rua Benedito Hipólito, na Cidade Nova.
— Isso só pode ser brincadeira. A Barra da Tijuca é o bairro mais motorizado da cidade. E os problemas de estacionamento irregular são frequentes — disse o presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, Delair Dumbrosck. — Mesmo que a metade da frota opere por aqui, imagine o tempo que os reboques gastam nos deslocamentos até o depósito. Para que o motorista tenha medo de ser rebocado e deixe de cometer irregularidades, seriam necessários uns 15 veículos para fiscalizar Barra e Recreio.
Todo errado. O motorista deixou o carro estacionado com duas rodas sobre a calçada em uma esquina no Leblon
Gabriel de Paiva
Morador do Bairro Peixoto, o engenheiro especializado em Transportes Licínio Machado Rogério diz que encontrar reboques e agentes de trânsito nas ruas do Rio virou lenda urbana:
— Antigamente, se havia irregularidade, rapidamente aparecia um reboque. Recentemente, um motorista parou em frente à entrada da principal garagem do meu prédio, apesar de o porteiro reclamar. Ele disse apenas: ‘‘vou ali rapidinho’’. O acesso de todo mundo ficou bloqueado por mais de meia hora.
Ontem pela manhã, uma equipe do GLOBO acompanhou a rotina do depósito na Cidade Nova. Em uma hora e meia, apenas um reboque entrou transportando um veículo.
R$ 29,7 milhões
O contrato da prefeitura com a empresa GKF Good Kick Serviços Ltda, escolhida por pregão eletrônico, prevê o pagamento de R$ 29,7 milhões por 36 meses de vigência, independentemente do número de veículos rebocados. A licitação foi marcada por questionamentos do Tribunal de Contas do Município (TCM). Os técnicos estranharam que, ao calcular os preços de referência da concorrência, a Seop excluiu das planilhas o orçamento de menor valor.
O valor original proposto pela prefeitura no edital (R$ 33 milhões) era quase R$ 2 milhões a menos do que o calculado pelos técnicos da corte. Mas, no fim, o entendimento foi de que a diferença não era tão significativa ao longo de 36 meses. Por isso, os conselheiros liberaram a licitação, com a recomendação de que, na próxima vez, todas as cotações fossem usadas. Em nota, a Seop informou que atendeu às orientações do TCM e destacou que, na concorrência, o valor do contrato ficou abaixo do que fora previsto no edital.
A operação de reboques na cidade é motivo de controvérsia desde março de 2022. Em meio a denúncias feitas pelo ex-vereador Gabriel Monteiro de uma suposta tentativa de suborno, a prefeitura revogou o contrato que mantinha desde 2018. Após o episódio, Monteiro perdeu o mandato sob a suspeita de quebra de decoro parlamentar por usar assessores para produzir vídeos, que eram monetizados nas redes sociais, além de gravar imagens em que mantinha relações com mulheres que seriam menores. Ele nega as acusações.
O antigo modelo de operação era diferente do atual. Em lugar de receber diretamente da prefeitura pelo serviço prestado, a empresa embolsava 80% da receita das multas e das diárias nos depósitos.
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