Considero minha amiga Joanna Savaglia uma super-heroína dos nossos tempos. Depois de mais de 20 anos de experiência na produção e captação de recursos para eventos culturais diversos — entre eles a Flup, a Festa Literária das Periferias, e a Flip, Festa Literária de Paraty —, ela se juntou ao autor Sairi Pataxó, trocou muitas ideias com Trudruá Makuxi e outras lideranças ancestrais e lançou o Caju Leitores (acrônimo de Caraíva Juvenil), um festival literário indígena que desde setembro de 2022 ocorre na Oca Tururim, na Aldeia Xandó, em Caraíva, na Bahia.
Fazia tempo que eu queria prestigiar o evento e este 2026 deu certo. Caju, para muitos povos ancestrais, é um fruto nativo ligado à contagem dos dias, à renovação dos ciclos. Durante os três dias de evento, o tempo passou de forma diferente por lá. Autores indígenas contaram histórias, professores descreveram como estão trabalhando o resgate da língua Patxôhã nas escolas da região, pesquisadores indicaram que animais foram avistados naquelas bandas — há, segundo o ICMBio, registros de uma harpia por lá —, e ao final da tarde havia danças sagradas e festejos animados.
Os bichos foram o tema central do encontro. E era lindo ver os participantes ocuparem as mesas com camisetas feitas especialmente para a data com o desenho de onça ou a kãmã, em língua Patxôhã. A onça é uma das guardiãs da mata e símbolo de força, agilidade e proteção. Toda arte do Caju Leitores é desenvolvida por Tucunã Pataxó a partir dos desenhos dos alunos do 7º ano da Escola Indígena do Xandó.
Participar do festival foi mergulhar em uma atmosfera onde o sagrado se revela nos detalhes mais simples. Ali, a literatura indígena e infantojuvenil vai além de páginas impressas; ela é sopro de vida, canto de rio, remédio para a alma e resgate de histórias que atravessam existências. Sorridente, o escritor e anfitrião Sairi Pataxó recebeu a todos como quem abre as portas de sua casa, mostrando que a partilha da palavra pode ser um ato de amor e de resistência. As crianças da região chegavam a pé ou de transporte todos os dias, sentavam-se no chão e participavam das atividades propostas nos dias do evento.
Sobrevivente do Fogo de 51, período de perseguição aos Pataxó, Maria Bernardina Pataxó, a Dona Maria Coruja, foi a homenageada nesta 5ª edição do Caju Leitores. Mestra das cantigas e brincadeiras ancestrais, professora da tradição oral e das brincadeiras antigas, ela é uma das mais respeitadas anciãs da aldeia e todos os dias repetia como estava feliz com aquele encontro.
Presente em todas as edições do Caju Leitores, a escritora e cordelista cearense Auritha Tabajara participou de mesas e contou histórias que aprendeu com sua avó Francisca sobre animais encantados, que percebem os sinais da terra muito antes dos humanos e protegem a vida sempre que preciso.
A história de Joanna com Caraíva começou nos anos 1990, quando ela passou um verão trabalhando em um restaurante da cidade. Naquela época, o vilarejo de chão de areia era um lugar de difícil acesso, com peixe fresco, forró e casinhas rústicas. Ela voltou tão empolgada, que sua mãe, Mariá, então professora do ensino fundamental II em São Bernardo do Campo, em São Paulo, largou tudo e foi ser professora lá. Ficou de 1995 a 2000 naquela cidade e até hoje há mulheres com esse nome em homenagem a tudo que ela ensinou. A professora Mariá nos deixou em 2021 e seu nome virou rua no bairro do Jambreiro, onde Joanna construiu um lar arejado e cheio de plantas e árvores medicinais, com a almesca, que tem uma resina que resolve todo tipo de mal, de gripe até queimaduras de sol, e era muito usada por Mariá. O legado de Mariá, neta de indígena, de sorriso cativante e olhos amorosos, esteve presente nos dias do Caju e seguiu encantado lá depois dele.
Caminhos de escuta e partilha ancestral
