De volta à seleção brasileira para a trinca de amistosos desta Data Fifa — o Brasil enfrenta a Austrália amanhã, às 7h (de Brasília) —, após a lesão sofrida na Copa do Mundo, Raphinha é o grande nome deste início de temporada na Europa. Com 12 gols pelo Barcelona nas sete primeiras rodadas do Campeonato Espanhol e dois na Champions League, com direito a dois hat-tricks consecutivos, ele superou até a marca de Messi, que marcou 11 vezes no mesmo recorte em 2017/18.
Em apenas oito partidas até aqui, o atacante já superou pelo clube o número de gols de toda a sua carreira na seleção (11 em 41 jogos). A fase artilheira impressiona, mas também reforça um questionamento: por que Raphinha não consegue repetir com a Amarelinha o desempenho que tem no Barça?
O faro de gol apurado do brasileiro coincide com uma mudança de posicionamento no time do Barcelona. Após as saídas de Lewandowski e Ferran Torres, e a tentativa frustrada de contratação de Julián Álvarez, coube a Raphinha assumir o papel de centroavante. O jogador já tinha atuado pelo clube como ponta-direita, esquerda e até com liberdade como um meia, mas nunca como camisa 9. E a estreia na função teve impacto imediato no número de gols.
Já na seleção, o camisa 11 atua mais pela direita no sistema de quatro atacantes de Carlo Ancelotti, e não consegue repetir o nível de atuação. Mesmo tendo disputado apenas um jogo inteiro na Copa do Mundo — a estreia contra Marrocos — e se machucado na segunda rodada, Raphinha foi um dos principais alvos de críticas da torcida. Agora, em um novo ciclo, o técnico italiano pode aproveitar a boa fase e testá-lo como centroavante também na seleção nesta data Fifa.
— No Barça, o ataque é mais uma peça de uma engrenagem perfeita, cujo motor principal vem do meio-campo, com Rodri e Pedri como eixos e Fermín López como elo de ligação com os atacantes. Agora adaptado como centroavante para aproveitar sua velocidade, Raphinha não precisa se preocupar com a criação das jogadas, podendo se movimentar com liberdade no último terço do campo — explicou Eduardo Burgos, jornalista do Diario AS, da Espanha.
— No Brasil, acontece o contrário. Com apenas Bruno Guimarães como grande referência no meio-campo, Raphinha precisava recuar durante a Copa e se distanciava da sua melhor posição, perto do gol — completou.
Movimentação do Raphinha no Barcelona
Mapa de calor das movimentações do Raphinha pelo Barcelona no Campeonato Espanhol
Reprodução / Sofascore
Movimentação do Raphinha pela seleção na Copa
Mapa de calor das ações do Raphinha pela seleção brasileira na Copa do Mundo
Reprodução / Sofascore
Diferenças das equipes
Apesar de deixar a desejar individualmente na seleção, a diferença entre as equipes também colabora para a existência dos dois “Raphinhas”. O Barcelona, com um estilo de jogo bem desenvolvido por Hansi Flick, tem impressionante média de 4,4 gols por partida no Campeonato Espanhol na temporada. É um time que cria e converte muitas chances. O cenário dos sonhos para um centroavante, como virou o caso de Raphinha.
Na seleção, por outro lado, o jogador encontrou diferentes cenários nos últimos anos com constante troca de treinadores, e agora a equipe ainda tenta encaixar suas engrenagens com Ancelotti, que fez sua estreia em junho do ano passado. Não que a seleção não tenha opções de qualidade, especialmente no ataque, mas ainda não funcionam em conjunto como no Barcelona.
— O problema no Brasil é a sintonia e as características dos jogadores que formam o trio de ataque com Raphinha. Com Lamine Yamal no Barcelona, por exemplo, já são três assistências do espanhol para o brasileiro, e duas no sentido inverso. Yamal e Rayan têm perfis diferentes, com o atacante do Bournemouth sendo mais físico, assim como Vini — acrescentou Eduardo Burgos.
Yamal e Raphinha fazem clássica comemoração pelo Barcelona
JORGE GUERRERO / AFP
Confiança
Outro ponto importante é a confiança. Enquanto vive sob críticas na seleção, o atacante goza de muito prestígio e respeito no Barcelona. Nesta temporada, por exemplo, ele se tornou o primeiro brasileiro a ser capitão na história do clube.
— Raphinha conquistou esse respeito tanto pela dedicação que mostra em campo quanto pela liderança que tem no vestiário, especialmente em um elenco com tantos jogadores jovens e já de muito destaque — comentou André Linares, correspondente dos canais ESPN em Barcelona.
— A torcida do Barcelona canta a cada jogo desta temporada: “Raphinha capitão, Raphinha capitão”, uma forma de apoiar e validar que o brasileiro tenha sido escolhido como o primeiro na hierarquia para levar a braçadeira. É claro que o número de participações em gols é o mais chamativo, mas essa identificação com o clube não é fácil de ser conquistada por um jogador de fora da Catalunha — continuou o repórter.
Raphinha faz primeiro discurso como capitão do Barcelona
Divulgação / Barcelona
Um nome determinante para essa construção do Raphinha como capitão foi Hansi Flick. Sob o comando de Xavi, ex-treinador do clube, o brasileiro era constantemente substituído nos jogos e cogitou sair do Barça por sentir que não tinha confiança da comissão técnica. A chegada do alemão, em 2024, foi fundamental para mudança de cenário.
— Se Hansi Flick não tivesse vindo, eu teria saído do Barça. Ele mudou tudo e me disse que eu seria importante. É disso que um jogador precisa: confiança — declarou Raphinha, em janeiro.
A dualidade de versões entre clube e seleção, no entanto, não é exclusividade de Raphinha. Vini Jr., por exemplo, um dos protagonistas do Real Madrid, chegou à última Copa do Mundo muito questionado, mas deslanchou no torneio. Até o Messi viveu anos difíceis na Argentina enquanto brilhava no Barcelona. Agora, o camisa 11 tem a chance de aproveitar a boa fase e começar a virar a chave com a amarelinha a partir dos amistosos com Austrália e Índia nesta data Fifa.
Por que existem 'dois Raphinhas'? Atacante tem mais gols pelo Barcelona nesta temporada do que pela seleção na carreira
