A frase é curta. E assustadora. Foi dita pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, durante uma visita ao Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, em maio de 2025. Uma funcionária comentava sobre uma mulher grávida que já teria muitos filhos. A governadora respondeu que deveriam colocá-la na fila da laqueadura. E completou: “Faz sem ela saber.” O vídeo veio a público agora. Raquel reconheceu o erro e pediu desculpas.
Não há notícia de que a laqueadura tenha sido realizada. Não sabemos se houve outros casos semelhantes. Mas a frase merece atenção porque toca numa história antiga e sombria: a ideia de que alguém — o Estado, um médico, uma autoridade — pode decidir quem deve ou não deve ter filhos.
Laqueadura é esterilização. É uma intervenção destinada a impedir definitivamente novas gestações e só pode ser realizada por decisão da própria mulher. A legislação brasileira exige manifestação expressa da vontade, por escrito, depois de informação sobre riscos, possibilidades de reversão e alternativas contraceptivas. Realizar esterilização cirúrgica fora dessas condições é crime.
E há algo especialmente perturbador no contexto da frase. Falava-se sobre o corpo de uma mulher, sua gravidez e sua fertilidade sem que ela sequer soubesse que era o objeto desse “planejamento”. Muito menos, um sujeito de direitos.
Mulheres pobres e com muitos filhos são frequentemente julgadas por suas escolhas reprodutivas. Ora, e se perguntássemos: essa mulher teve acesso a informação e contraceptivos? Teve oportunidade de planejar suas gestações? Conseguiu atendimento de saúde quando precisou? O pai dessas crianças participa da contracepção e da criação dos filhos?
Planejamento familiar é política pública. Esterilização sem consentimento é violação da autonomia e de direitos básicos. Aliás, a lei brasileira avançou recentemente no sentido oposto: desde 2023, uma mulher que preencha os critérios legais não precisa mais da autorização do marido ou companheiro para fazer uma laqueadura. A decisão sobre sua fertilidade pertence apenas a ela.
Raquel Lyra pediu desculpas e classificou sua própria fala como equivocada. Fez bem, era mais que necessário admitir o erro. Mas a frase dita no impulso pode muitas vezes expressar com mais verdade aquilo que alguém pensa – bem mais que uma retratação. No mínimo preocupante.
'Faz sem ela saber': métodos arcaicos e violentos ainda prevalecem no Brasil quando se trata do corpo da mulher
