Qual será o impacto da política americana na economia nacional e global e como isso mudará o comércio internacional? O embaixador José Alfredo Graça Lima, vice-presidente do Cebri, negociador experiente, acha que o tarifaço contra tantos países vai atingir a economia americana, mas não há garantias de redução do déficit comercial dos EUA. O economista Márcio Garcia, professor da PUC-Rio, concorda que o principal impacto acontecerá nos próprios Estados Unidos, mas acha que o mundo inteiro vai ter o crescimento encolhido pela política protecionista de Trump, pelo que ele define como “o maior choque tarifário que já vimos”.
Confira a entrevista que fiz com os dois:
Míriam Leitão: O ambiente econômico já mudou completamente no mundo e na diplomacia, na discussão comercial, a partir do momento que o presidente Donald Trump iniciou esse tarifaço geral generalizado. Qual é o impacto que já se pode ver dessa política no mundo?
José Alfredo Graça Lima: Do meu ponto de vista, o impacto é diferente dependendo do setor. Você tem casos extremos e outros produtos em não terá impacto algum. Então, é preciso ver caso a caso, mas eu não vejo como tendo, além dos próprios Estados Unidos, o impacto para a economia global. A economia dos Estados Unidos, sim, pode ser muito negativamente afetada em alguns setores específicos pela imposição de uma tarifa, que só vai beneficiar, digamos, o próprio Estado, o Tesouro, mas não uma indústria.
Duvido um pouco que essa medida vá reduzir, por exemplo, o déficit comercial dos Estados Unidos. Porque ao longo desses anos, a China se tornou mais competitiva, os Estados Unidos perderam competitividade. Então, mesmo que você tenha um mercado totalmente aberto, digamos, na Indonésia ou nas Filipinas, os produtos americanos, os americanos podem não estar capacitados para atender essa demanda.
Márcio, na economia como um todo, não só a economia brasileira, mas o mundo vivendo essa incerteza, que é a palavra que os economistas mais detestam, porque na incerteza ninguém toma decisão econômica, o emprego não é gerado, o investimento não é feito, o imposto não é recolhido. Enfim, as coisas não acontecem na incerteza. Você acha que já se pode falar de uma mudança no mundo com essa que já aconteceu até agora?
Márcio Garcia: Bom, estamos em meio a um choque tarifário que eu acho que nós não vivemos. A coisa mais próxima, você vai para Smoot–Hawley lá na década de 1930.
Para nós (economistas), pensamos assim: como eu ponho um choque dessa dimensão no modelo? Isso é muito complicado, porque é um choque muito grande e provavelmente ainda vai mudar muitas coisas. A gente sabe que deve ter mais inflação ou, pelo menos, um aumento de preço por conta das tarifas. A única possibilidade de isso não ocorrer é se toda a tarifa fosse absorvida pelos vendedores, o que provavelmente não vai acontecer. Então, isso vai ter um impacto inflacionário para o consumidor americano.
Provavelmente, vai ter também um impacto recessivo ou, ao menos, diminuir o nível de atividade na economia americana. Como o PIB dos Estados Unidos ainda é bastante grande, cerca de um quarto do PIB mundial, além de todos os outros impactos, deve ter efeito no crescimento mundial. O FMI divulgou as suas projeções esta semana, mas ainda não incorporando as tarifas totalmente, porque, segundo disse o economista-chefe, a gente não sabe quais vão ser. Não se sabe o que vai ser de fato implementado por Trump. Isso nos afeta particularmente, mas afeta diversos outros países.
Então, como você falou, a incerteza é muito grande e já está paralisando a economia. Se você se coloca na pele de um empresário, ele certamente não vai fazer investimento agora, porque não tem ideia quais são as condições de contorno. Ele não sabe se vai ter tarifa retaliatória sobre o produto que ele vai vender, não sabe com quem ele vai competir, quais são as tarifas dos competidores, enfim…
Há exportadores que ainda não sabem se conseguirão continuar a vender para os EUA.
Garcia: Estou pensando exatamente naqueles que vão fazer investimentos físicos nos Estados Unidos. A menos que já tenha uma demanda muito certa para vender, como esses investimentos todos em inteligência artificial que estão elevando o investimento nos Estados Unidos recentemente, o empresário vai parar, e dizer: não vou fazer essa fábrica agora, vou esperar um pouco para ver quais serão as condições que vão se colocar.
Isso não tem um efeito imediato, mas certamente tem um efeito muito mais para frente e isso já está contratado, porque não se pode sair fazendo um investimento que não foi planejado. Essa incerteza é muito ruim, mas ela vai demorar para aparecer.
A gente vai ter inflação que não está ainda aparecendo muito, mas vai aparecer. Vai ter queda no nível de atividade e investimento ainda num horizonte mais amplo. Acho que isso pode ter, sim, um impacto ruim no crescimento não só dos Estados Unidos, mas também do mundo. Afinal, a gente está trabalhando num mundo mais fechado, e quanto mais fechado o mundo, pior para o crescimento. O comércio é o sangue que está nas veias e artérias da produção.
“O que está acontecendo agora, além de ser uma violência, é um convite para abrir o seu mercado em troca de uma tarifa de 10% a 19%”
— Embaixador José Alfredo Graça Lima
Queria voltar ao Graça Lima, você é um negociador, passou a vida inteira especializado nisso, no Itamaraty e na área de comércio, essa foi sempre a sua grande trilha. No dia 9, sai uma carta, publicada em uma rede social, endereçada ao presidente Lula, falando dos 50%. O que o Brasil podia ter feito nesse período?
Graça Lima: Em primeiro lugar, nós nunca estivemos diante de um quadro negociador clássico e institucional. Ao longo de 60 anos, as negociações comerciais foram feitas sob a égide do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), até a criação da OMC (Organização Mundial do Comércio), em 1995. As negociações tinham regras, naturalmente. Negociações sobre acesso ao mercado, pedido de oferta, fórmulas, enfim, tudo muito bem organizado, de uma maneira perfeitamente técnica. É claro que toda negociação tem um ingrediente político, tem proteção para a indústria, enfim, o que vai acabar determinando níveis tarifários diferentes. Mas níveis tarifários que vão espelhar uma determinada realidade de preços para cada setor, para cada produto.
O que está acontecendo agora, além de ser uma violência, é um convite para abrir o seu mercado em troca de uma tarifa de 10% a 19%, 19% para a Indonésia, Filipinas, Vietnã, acho também, 15% para a União Europeia e Japão, 10% para o Reino Unido, com cota de automóvel para o Reino Unido. Então, é a montagem de um comércio administrado. Isso é o contrário do que se negocia, porque o que se negocia é o aumento de comércio por queda de barreiras.
Tendo a achar que o mundo não vai estar fechado pelo fato de os países que estão obtendo acesso, ainda que mais custoso, ao mercado americano, estarem abrindo o seu mercado de maneira absoluta para os produtos americanos. Se eles aplicarem na ação mais favorecida, ou seja, se eles também zerarem para os demais parceiros, você vai ter no final das contas, hipoteticamente, um aumento de comércio, uma curiosidade, uma ironia.
Acho que é importante, para quem não é economista, entender como o comércio, na verdade, acaba sendo a alavanca do crescimento geral. Todo mundo se beneficia, é o ganha-ganha. Você explica isso?
Garcia: Basicamente, crescimento econômico é crescimento de produtividade. E a produtividade que interessa é a produtividade total dos fatores. Ou seja, é a produtividade usando todo o seu capital, todo o seu trabalho, quando você consegue produzir mais. E isso depende de eficiência na sua produção, de tecnologia, de inovação. E o comércio é exatamente o que permite que isso seja feito, que você produza exatamente nos lugares onde se tem as melhores condições de produção e transfira isso pelo menor preço possível para os mercados que vão, então, consumir.
Então, teoricamente, o ideal seria ter livre comércio, não ter tarifa. Mas, obviamente, isso não existe. Nós temos vários casos aqui. Os Estados Unidos eram o país, salvo engano, com a menor tarifa na faixa de 2,5%, 3%. Mas eles têm vários picos tarifários que nos afetam, como suco de laranja, aço, vários outros, que nos afetam diretamente e isso tem a ver com a política interna e provavelmente nunca iria mudar. Agora foi elevado tudo. Isso é muito ruim e o efeito, como eu disse, vai ser um efeito de mais longo prazo.
Eu gostaria muito de compartilhar do otimismo do José Alfredo de que isso pode acabar em uma coisa boa. Assim como no nosso caso aqui, nós somos um país muito protecionista, com elevadas tarifas, a gente poderia, no bojo dessa negociação, baixar nossas tarifas. Isso seria muito bom para a nossa economia. Mas será que isso vai acontecer?
O que a gente faz como negociador, se o outro lado da mesa te faz um pedido inatingível, que não pode ser atendido? O que o Trump colocou naquela carta pública ao Lula foi uma interferência no Judiciário. Diante disso, se faz ouvidos moucos, eu não vou ouvir essa proposta porque ela não dá nem para conversar, e vou tratar de comércio?
Graça Lima: A carta tem duas partes, aliás, tem várias. Os primeiros parágrafos são os que contêm esse ingrediente político que, tratado por si só, não tem o que considerar. Então, se tem que concentrar na parte final da carta, que é, como eu estava dizendo há pouco, um convite para apresentar uma oferta. Inclusive, não sei se jamais foi apresentada, pois quando eu leio as notícias, eu só vejo pedidos, mas não vejo oferta.
Eles até falaram que apresentaram uma proposta, só que a gente desconhece a proposta que foi. Nunca foi dada à opinião pública a informação sobre o que o Brasil está propondo.
Graça Lima: Então, o que a gente sabe é que outros países, esses que eu já mencionei, os asiáticos, fizeram uma oferta ambiciosíssima que é zerar tarifas para todos os produtos importados dos Estados Unidos. Essa oferta foi aceita e, em troca, estão tendo tarifa de 19%. Nessas bases, a negociação, entre aspas, foi encerrada.
O caso do Brasil é inédito, é inusitado, ele não se compara com nenhum outro, porque o que está sendo tarifado em 50%, com exceções.
Mas a pergunta que eu me faço é: terá havido em algum momento uma oferta tão ambiciosa quanto os asiáticos fizeram? Nesse caso, a oferta foi ignorada ou ela foi respondida por canais informais que não são conhecidos? Tudo o que se sabe deixa o futuro muito incerto com relação ao Brasil. Com relação aos demais países, pelo que eu vejo, é negociação de novo encerrada nessas bases que foram consertadas.
Do ponto de vista comercial, você fazer uma concessão é uma coisa normal, sabe?
Claro, mas me pede o etanol, me pede o STF.
Graça Lima: Mesmo que não haja reciprocidade absoluta, há ganhos dos dois lados. O que acontece, sempre aconteceu em economias mais protegidas, é que o ingrediente político é muito forte. Então, o termo “concessão tarifária” por si só, já acende luzes amarelas. A gente está cedendo, sem receber nada em troca, é uma espécie de armadilha negocial, em que a gente caiu, inclusive, durante muitos anos, nas épocas mais difíceis, em que se tinha que fechar balanços de pagamentos, em que dependia de balança comercial para poder fazer face a ameaças de desequilíbrio no balanço de pagamentos.
Isso tudo foi superado, isso tudo ficou para trás. Hoje o Brasil tem reservas de US$ 370 bilhões. O comércio tem que começar a contribuir para o desenvolvimento do país. As indústrias precisam de mais produtividade. É assim que você cresce. Então, tem um dever de casa para se fazer, independentemente de todo esse rebuliço.
“A ajuda emergencial de crédito para as empresas tem que ser feita, mas não pode ser exagerada e é sempre muito difícil se executar, mas nós temos muitas formas de fazer isso, como já fizemos recentemente no Rio Grande do Sul.”
— Márcio Garcia, professor da PUC-Rio
Como o governo pode agir para amparar empresas que foram atingidas por aumento de tarifa inesperado, num momento em que os juros estão muito altos, que é o déficit elevado?
Garcia: A gente até tem bastante experiência com as crises até 2003, depois com a crise de 2008, mais recentemente com a pandemia. Uma reportagem que vi recentemente tinha lá aqueles contêineres cheios de manga que não tinham para onde ir. Então, você imagina, o dono daquelas empresas, o que ele vai fazer? O banco vai executar imediatamente, não vai conseguir receber, vai falência. Isso se tem que evitar, é bastante razoável. Acho que para isso o governo tem bastante munição, vai ter que ir lá botar como crédito extraordinário, tal como fez durante a pandemia.
Mas na pandemia produziu um déficit gigante, mas a pandemia era uma coisa mais generalizada.
Garcia: Sim, sim. São gastos outros, não se está falando em aumentar o Bolsa Família por causa disso, etc. Mas essa ajuda emergencial de crédito para as empresas tem que ser feita, mas não pode ser exagerada e é sempre muito difícil se executar, mas nós temos muitas formas de fazer isso, como já fizemos recentemente no Rio Grande do Sul.
O ministro Fernando Haddad disse que vai mirar no que ele fez no Rio Grande do Sul, que foi um evento inesperado, no qual o governo ajudou as empresas com o custo fiscal mais baixo.
Garcia: Eu acho que é isso mesmo que se tem que fazer, prover crédito em condições melhores do que faria normalmente, porque é uma emergência, para evitar que se tenha falência de empresa e que depois, então, um desemprego grande. E é plenamente justificável diante do que está acontecendo. Novamente, isso não pode ser exagerado.
Ele tem que fazer com ajuste fino, evitando o aumento muito grande do déficit, é isso?
Garcia: Isso, porque quando um programa desses começa, às vezes, tende a ir muito além. Um exemplo é o programa que protegia espetáculos, teatro, etc. (o Perse), a pandemia acabou faz quanto tempo e os desembolsos continuavam. A gente tem que sempre tomar cuidado para isso, mas que é razoável você fazer isso agora, sem dúvida é.
Graça Lima, vimos o mundo sendo construído num edifício em cada rodada. A rodada Kennedy, que a gente não cobriu, mas a rodada Tóquio, depois rodada Uruguai, rodada Doha. Então, cada rodada de negociação, entravam mais produtos e áreas para serem negociadas para permitir regras comuns, princípios comuns e aberturas de mercado, acesso a mercado, como você disse aqui. Esse edifício foi bombardeado completamente. É possível reconstruir?
Graça Lima: Entendo que a OMC é como se fosse um Estado, e o GATT é a constituição desse Estado. Ele vai continuar existindo. Ele está sob ataque de um determinado parceiro que inclusive continua fazendo parte da OMC. E, que esta semana, indicou uma diretora para integrar o staff do OMC. Então, a OMC está viva. Ela está sem um órgão de apelação, que foi a joia da coroa da rodada Uruguai, e que permitiu que as decisões tomadas por panel fossem cumpridas em consonância com os compromissos assumidos. Então, isso se perdeu.
Mas o grande fato novo de 2001 para cá foi a ascensão da China, a competição da China com o que era então a potência hegemônica, o principal parceiro, e que, ao mesmo tempo, perdeu competitividade ao longo desses anos.
Tendo a achar que esta situação atual é provisória. É claro que talvez a OMC não se reconstitua como órgão de apelação que tenha garras, que tenha capacidade para que as decisões sejam cumpridas. Mas você tem que também separar o que é o comércio do que é a instituição. O comércio, como eu dizia há pouco, não é que eu esteja sendo otimista, Márcio, mas eu acho que se os países parceiros tivessem reagido ao tarifaço americano com mais tarifaço, aí sim você teria uma situação semelhante à dos anos 1930, mas eles estão abrindo o mercado. E, de novo, se aplicarem a cláusula da nação mais favorecida, é bem provável que o comércio aumente. Com isso, a OMC vai continuar sendo aquele foro de debates, aquele foro de discussões, diminuído claramente pelo fato de não ter órgão de apelação, mas continuando sendo o Estado, e o GATT e os acordos negociados da rodada do Uruguai, a sua Constituição.