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setembro 24, 2026
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'A gente ainda pode se ouvir': Emílio de Mello e Marjorie Estiano discutem os dilemas de um Brasil polarizado em 'Precisamos falar'

Por · setembro 24, 2026
'A gente ainda pode se ouvir': Emílio de Mello e Marjorie Estiano discutem os dilemas de um Brasil polarizado em 'Precisamos falar'


Até onde um pai ou uma mãe iria para proteger um filho que cometeu um crime? Em “Precisamos falar”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (24), essa pergunta está no centro de um jantar de família que sai do controle. Mas o conflito vivido pelos personagens de Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Emílio de Mello e Hermila Guedes não fica restrito às relações entre pais e filhos. Ao transportar para o cenário brasileiro o romance holandês “O jantar”, de Herman Koch, o filme dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz incorpora à trama questões de desigualdade social, justiça e política próprias da nossa sociedade.
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Na trama, duas famílias descobrem que os filhos adolescentes cometeram um crime brutal: agrediram e mataram uma mulher em situação de rua. Diante da possibilidade de denunciar os jovens, os pais precisam decidir até onde estão dispostos a ir para protegê-los.
Na adaptação brasileira, Marjorie interpreta Sandra, mãe de um dos adolescentes envolvidos no crime, enquanto Emílio vive Celso, pai de outro dos jovens. Em entrevista ao GLOBO, os dois atores dizem que um dos cuidados durante as filmagens foi não transformar os personagens em figuras caricatas, heróis ou vilões.
— Como artistas, tentamos sempre compreender a complexidade dos personagens para poder realizá-los. Era importante compreender não só o nosso papel, mas também os outros personagens — afirma Emílio. — É uma orquestração: cada um toca um instrumento diferente e a junção deles dá o filme. A ideia não é pensar no certo ou no errado, mas sim ouvir e entender as situações.
Marjorie conta que esse equilíbrio foi construído a partir de muita discussão entre os atores e a equipe. A personagem que ela interpreta, Sandra, tenta proteger o filho das consequências do crime. Já Anna (Hermila), por outro lado, defende que os adolescentes sejam responsabilizados. Entre os pais, Celso (Emílio) fica dividido diante da decisão, e Paulo (Nero) reage de forma mais radical.
— Foi tudo muito debatido. As nuances, o tom e os argumentos foram discutidos à exaustão durante as filmagens. É um tema muito delicado. A maioria dos criadores e artistas envolvidos compartilha de uma visão de mundo semelhante, então para a gente era importante não desequilibrar a balança, e conseguir argumentar com igual honestidade dos dois lados.
Publicado originalmente em 2012 na Holanda, “O jantar” já ganhou adaptações para o cinema em outros países, incluindo Coreia do Sul, Itália e Estados Unidos, com um longa estrelado por Richard Gere. Na versão brasileira, a história se passa às vésperas de uma eleição, com o Rio de Janeiro como plano de fundo e duas famílias da elite como personagens.
— Vemos uma casa com um visual do Rio de Janeiro de cima, onde tudo é lindo, mas, quando descemos, a coisa não é tão bonita assim. Mostra essa beleza, mas expõe uma sociedade com muitas mazelas, descascando essas camadas ao longo da narrativa — conta Emílio.
No filme, o problema ganha uma camada a mais: seu personagem, Celso, é candidato a governador do Rio, favorito nas pesquisas, e o crime acontece às vésperas da eleição.
— Falar de um escândalo nessa época nos coloca no momento certo para lançar o filme [que estreia 11 dias antes das disputas presidenciais], pois todo brasileiro vive isso de alguma forma. E colocar isso em uma situação específica da família brasileira facilita: a gente vê a humanidade dos personagens, o jeito como eles argumentam.
Para Marjorie, o filme parte de questões universais, como a desigualdade social, a concentração de renda e a pobreza, para tratar de situações brasileiras.
— O filme traz os humores, a argumentação típica e os impulsos brasileiros, visíveis no próprio “jeitinho” da personagem do Emílio com o filho [um dos filhos foi adotado por vias “alternativas”]. E a questão do Estado falho em relação à justiça, por exemplo, faz com que a gente compreenda bem a vulnerabilidade da decisão de entregar um filho.
No filme, os ânimos se exaltam, os casais perdem a calma e o caos se instaura. E na vida real, ainda dá para conversar com quem pensa diferente? Para Marjorie, sim.
— Talvez eu me sinta mais próxima de compreender essa visão de mundo diferente da minha. Entendo melhor a lógica a partir do estudo da personagem; tem um sentido, embora eu não concorde. Eu acho que é uma maneira de simplificar a sociedade, que cria mais complicadores do que soluções.
Emílio concorda:
— Eu tenho uma coisa meio otimista. Eu acredito muito que a gente ainda pode se ouvir, realmente acredito. Pessoas com ideologias diferentes, pontos de vistas diferentes… o debate é fundamental, seja em um sentido progressista ou conservador. Uma sociedade sem debate está estagnada e fadada ao fracasso. A diversidade, que é característica da sociedade brasileira, precisa ser discutida. Sem esse diálogo, vivemos em bolhas, e isso é uma ilusão, não realidade.

'A gente ainda pode se ouvir': Emílio de Mello e Marjorie Estiano discutem os dilemas de um Brasil polarizado em 'Precisamos falar'