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a história de um retrato inesperado

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julho 29, 2025
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Em foto feita pelo cangaceiro Juriti, Benjamin Abrahão (com bolsa da ABA Film à mostra) cumprimenta Lampião, ladeado por Maria Bonita e cercado por seu bando — Foto: Reprodução

Não se sabe o local exato que foi tirada a foto acima, que cangaceiro não era de ter endereço fixo nem agenda oficial. Mas cruzando registros e pistas, dá para afirmar que foi em Sergipe, perto das margens do Rio São Francisco, em meados de 1936, que surgiu este retrato de Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938) — ele mesmo, Lampião, o Rei do Cangaço. As folhas nos galhos mostram que a estação de seca ainda não tinha chegado. O traje completo de couro todo trabalhado, cheio de enfeites metálicos, deixa claro: ele e seu bando viviam uma fase próspera. A mão esquerda apoia seu rifle, e o jornal que ele segura com a mão direita… o que aquele exemplar do GLOBO está fazendo ali?

A resposta para esta pergunta começa com a entrada na história de outro personagem fascinante: o autor da foto, Benjamin Abrahão (1890-1938), sírio que chegou ao Nordeste como mascate e se tornou secretário particular do Padre Cícero. Abrahão também era fotógrafo e, com a morte do “messias do Crato”, decidiu retomar um antigo projeto: capturar — em sua lente — o mais poderoso e bem-sucedido bandoleiro da História do Brasil.

Bancado pela ABA Film, de Fortaleza, Abrahão vagou meses na caatinga até topar com o temido cangaceiro e, na lábia, convenceu ele, Maria Bonita e o bando a serem filmados e fotografados. Registrou cenas cotidianas: Lampião passeando, rezando, brincando com cachorro, segurando jornal. E não qualquer jornal.

— Abrahão já havia colaborado com o GLOBO, começou cobrindo a passagem da Coluna Prestes pelo Ceará. Era um correspondente extraoficial do jornal em Juazeiro. Na hora de registrar Lampião, ele foi fiel ao vínculo desenvolvido com o GLOBO — conta Frederico Pernambucano de Mello, considerado a maior autoridade em cangaço do Brasil, autor de livros como “Guerreiros do Sol”, que inspirou a novela do Globoplay.

Como lembra Frederico, o encontro que rendeu a foto ao lado não foi o primeiro entre Lampião e Abrahão. Eles tinham se conhecido dez anos antes, em Juazeiro do Norte (CE), quando o sírio já havia caído nas graças de Padre Cícero (1844-1934), e Lampião estava ali em missão oficial: devoto de Padim Ciço, tinha sido convocado pelo líder religioso para combater a Coluna Prestes, iniciada por tenentes revoltosos que cruzavam o país pregando reformas sociais — pois é, o fantasma do comunismo assustava mais que o do cangaço.

Lampião saiu de Juazeiro abençoado, armado e com patente honorária de capitão (que adotaria dali em diante). Mas nunca encontrou a Coluna. Já Benjamin não somente a encontrou como fez uma série de reportagens sobre sobre o grupo de Luís Carlos Prestes para o GLOBO, tornando-se correspondente eventual do jornal. Em 1929, ele uniu profissão e hobby numa mesma imagem: tirou retrato com a mão direita no ombro do Padre Cícero e a mão esquerda segurando um GLOBO (vide a página seguinte).

Em foto feita pelo cangaceiro Juriti, Benjamin Abrahão (com bolsa da ABA Film à mostra) cumprimenta Lampião, ladeado por Maria Bonita e cercado por seu bando — Foto: Reprodução

Os anos passaram. Com a morte de Padre Cícero, em 1934, Abrahão perdeu prestígio e deixou Juazeiro. Foi então a Fortaleza encontrar Adhemar Bezerra de Albuquerque, pioneiro do cinema cearense e dono da Aba Film, apresentar seu projeto de fotografar e filmar Lampião. Imaginando o possível sucesso que fariam imagens do homem mais procurado do Brasil, Adhemar lhe deu equipamento fotográfico e cinematográfico. Ao longo de muitos meses, Abrahão vagou por Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, encontrando Lampião provavelmente em março de 1936. Quebrou o gelo lembrando de Padre Cícero e, ao longo daquele ano, esteve duas vezes com os cangaceiros.

Vale notar: não é incomum encontrar fotos de Lampião e seu bando posando com jornais e revistas. Mas não era, como muitos pensam, uma espécie de “prova de vida”. No caso desta foto, inclusive, seria pouco eficaz. Uma pesquisa de Robério Santos, do canal Cangaço na Literatura (corroborada em pesquisa paralela deste repórter no Acervo do GLOBO), descobriu que o exemplar na mão de Lampião é de 10 de setembro de 1935 — no mínimo, sete meses antes da foto desta página.

— Além de não ser prova de vida, pelo grande intervalo entre a publicação e a foto, não há, como alguns dizem, conteúdo sobre Lampião naquela edição — diz Robério, também consultor da novela “Guerreiros do Sol”. — Aquele exemplar que está ali provavelmente já estava na bagagem quando Abrahão se embrenhou no sertão.

Lampião posta com O GLOBO de 10 de setembro de 1935 — Foto: Benjamin Abrahão
Lampião posta com O GLOBO de 10 de setembro de 1935 — Foto: Benjamin Abrahão

A questão nesta foto não é prática, mas simbólica, de “construção de marca”.

— Lampião teve uma compreensão surpreendente do poder que a imagem começava a ter no Brasil dos anos 1920 e 1930 — diz a historiadora francesa Élise Jasmin, autora de “Lampião, Senhor do Sertão” (2006). — Ele entendeu que a fotografia podia ser muito mais que um mero registro: ela podia construir uma narrativa. Por isso, fazia questão de ser fotografado com livros e jornais: mostrar que sabia ler e escrever, mesmo de forma rudimentar, era uma forma de se afirmar. Para alguém que escrevia cartas diariamente, que dialogava com políticos e autoridades, essa imagem de leitor servia como contraponto à figura do bandido ignorante e brutal que a imprensa explorava.

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  • Benjamin Abrahão, de mascate a repórter
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Benjamin Abrahão, de mascate a repórter

Padre Cícero, Benjamin Abrahão e o jornal que ele tem na mão, de 26 de julho de 1929 — Foto: Reprodução
Padre Cícero, Benjamin Abrahão e o jornal que ele tem na mão, de 26 de julho de 1929 — Foto: Reprodução

Anos antes, em 1929, quando era secretário particular do Padre Cícero, Benjamin Abrahão fez questão de fazer uma foto com o líder religioso e um exemplar do GLOBO, jornal para o qual já havia colaborado escrevendo sobre a Coluna Prestes.

Carta de Edmar Morel a Roberto Marinho oferecendo fotografia de Lampião para O Globo, 31/12/1936 — Foto: Acervo Roberto Marinho
Carta de Edmar Morel a Roberto Marinho oferecendo fotografia de Lampião para O Globo, 31/12/1936 — Foto: Acervo Roberto Marinho

Com as fotos e os filmes de Lampião na mão, a ABA Film buscou compradores para o material. No telegrama acima, de 31 de dezembro de 1936, o jornalista Edmar Morel escreveu para Roberto Marinho querendo negociar “cinco photogtafias, ou melhor seis” de “Lampeão com um exemplar do O GLOBO”. A negociação não foi à frente.

Entre o fim de 1936 e o início de 1937, as fotos de Lampião foram publicadas em algumas revistas e os filmes, exibidos em sessões fechadas do Nordeste. A repercussão das imagens foi considerada uma afronta para as autoridades. Em abril de 1937, enviados do governo Vargas apreenderam todo o material de Lampião da ABA Film, que recebeu uma pequena indenização.

Na sequência, a captura de Lampião virou uma questão de honra. O Rei do Cangaço seria morto no ano seguinte, notícia que mobilizou veículos de todo o Brasil (abaixo, a manchete do GLOBO com o suposto assassino) e até o New York Times.

Edição do GLOBO de 1º de agosto de 1938, logo após a morte de Lampião, destaca uma entrevista com suposto matador do cangaceiro — Foto: Reprodução
Edição do GLOBO de 1º de agosto de 1938, logo após a morte de Lampião, destaca uma entrevista com suposto matador do cangaceiro — Foto: Reprodução

‘Lampião, o Rei do Cangaço’ (1937). Apreendidos pelo Governo Vargas em 1937, os filmes realizados por Benjamin Abrahão entre Lampião e seu bando reapareceram nos anos 1950 e foram reunidos com o título acima. Mudo e em preto e branco, é um registro histórico precioso que está disponível no YouTube em vários perfis.

‘Baile perfumado’ (1996). O filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira reconstrói (com algumas liberdades) os encontros de Benjamin Abrahão (encarnado por Duda Mamberti) com Lampião (Luiz Carlos Vasconcelos). O nome do longa vem do hábito de Lampião de dar festas e usar perfumes. Na trilha, o melhor do mangue beat.

‘Guerreiros do Sol’ (2025). Apesar de ser uma trama de ficção, a novela do Globoplay se inspira no livro de mesmo nome do historiador Frederico Pernambucano de Mello, baseando-se em alguns aspectos das vidas de Lampião e Maria Bonita e sendo fiel à reconstituição de época e à maneira como os cangaceiros exerciam domínio e fascínio.

‘Zé Baiano’ (2019). A biografia de Robério Santos, do canal Cangaço na Literatura, joga luz sobre um dos mais cruéis cangaceiros do grupo de Lampião. Com várias fotos e mapas, o livro esmiúça os seis anos que o bandoleiro passou ao lado do Rei do Cangaço, tornando-se seu braço direito e chefe de um dos subgrupos que ele utilizava para ampliar sua atuação e despistar as autoridades.

‘Benjamin Abrahão: entre Padre Cícero e Lampião’ (2025). Com nova edição, revista e ampliada, pela Cepe, o livro de Frederico Pernambucano de Mello narra a trajetória do sírio que chegou ao Nordeste como mascate, virou secretário do Padre Cícero, fotografou e filmou o grupo de Lampião e morreu esfaqueado em 1938, meses antes do cangaceiro, incidente não totalmente esclarecido.

‘Lampião — Senhor do Sertão’ (2006). Neste livro, a historiadora francesa Élise Jasmin propõe uma biografia de Lampião que dialoga com a semiótica e a análise do discurso. Repercute vozes envolvidas na construção de sua imagem e, ao mesmo tempo, faz um exame crítico, revelando como as narrativas dos contemporâneos do cangaceiro são influenciadas por contradições e ambiguidades.

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