Para Laufey, 2024 foi um ano turbulento — e 2025 pode ser ainda mais “selvagem”. No ano passado, a cantora e compositora indie, que não pode ser descrita sem uma enxurrada de aspectos híbridos — islandês-chinês, jazz-pop-clássico, TikTok-trad —, tornou-se uma estrela em ascensão com um estilo pop peculiar que se inspira tanto em Taylor Swift quanto no capricho romântico dos musicais de meados do século. Ela ganhou um Grammy e compareceu ao Met Gala com um vestido de princesa cor-de-rosa e um véu bordado com uma fuga de Bach.
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Em uma entrevista há alguns meses, enquanto se preparava para lançar seu terceiro álbum de estúdio, “A matter of time”, Laufey, de 26 anos, ainda estava radiante com essas conquistas. Mas, sentada no Electric Lady Studios, em Nova York, onde gravou três das 14 músicas do álbum, ela também falou sobre o nervosismo e a ansiedade que sentiu ao ser empurrada para a máquina da fama.
— Queria que 2025 fosse o ano em que eu estivesse menos ansiosa e, em vez de caminhar docilmente pelos tapetes vermelhos ou em relacionamentos, queria caminhar com confiança. E escrever uma música country — disse, corrigindo-se em seguida. — Countryish.
Na sequência, aperta um botão para tocar “Clean air”, balada vibrante que, segundo ela, foi parcialmente inspirada pelos álbuns “Trio”, de Dolly Parton, Linda Ronstadt e Emmylou Harris, dos anos 1980 e 1990.
Em poucos anos, Laufey virou um fenômeno quase sem comparação no pop contemporâneo. Mesmo em uma era de gêneros embaralhados, ela se destaca como uma mestra com inspiração que vai de Sergei Prokofiev a Chet Baker, mas já acumulou mais de cinco bilhões de streams com suas mensagens concisas e espirituosas que pintam um mundo de maravilhas glamouroso, sombreado pelas dúvidas de um escritor de diários da geração Z. Apesar de irritar alguns conservadores do jazz, ela conquistou uma vasta base de fãs on-line e em breve embarcará em sua primeira turnê em arenas, incluindo duas noites no Madison Square Garden, em Nova York.
Barbra Streisand, que convidou Laufey — juntamente com Paul McCartney, Mariah Carey e Ariana Grande — para um dueto em seu último álbum, “The secret of life: partners, volume two”, vê semelhanças na forma como ela e Laufey começaram suas carreiras.
“Eu queria ser atriz”, disse Streisand por e-mail, “então o material que eu procurava vinha principalmente de espetáculos da Broadway, onde as músicas eram focadas nos personagens e tinham letras que eu pudesse interpretar. Laufey está fazendo a mesma coisa, de certa forma, para sua geração. Isso permite que ela compartilhe suas paixões musicais com os ouvintes mais jovens de hoje. E isso é bom!”
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“A matter of time”, que será lançado em 22 de agosto, às vezes soa como o musical “Tortured poets”, de 1961 — uma máquina do tempo lúdica e ricamente texturizada da Broadway com um herói atormentado. A faixa de abertura do álbum, “Clockwork”, sobre um primeiro encontro com uma amiga, começa com uma guitarra despreocupada e um refrão “ding-dong” que poderia ser das Andrews Sisters.
Laufey descreveu o álbum como uma exploração do romance e do tempo, com músicas que retratam relacionamentos florescendo ou se desintegrando. Suas músicas são inspiradas em episódios de sua própria vida e da irmã gêmea idêntica, Junia Lin, sua diretora criativa, violinista ocasional e correspondente constante. Com “A matter of time”, Laufey disse que expandiu seus próprios limites musicais, criando músicas “um pouco mais estranhas e mais surreais”, e que confrontou seu próprio apego à busca pela beleza acima de tudo.
— Acho que é isso que aprendemos como mulheres — disse Laufey. — Eu sempre escolhia a foto em que achava que estava mais bonita, o vocal em que soava mais bonita. Pela primeira vez, vejo que estava cansada de perseguir a beleza.
Essas mudanças podem ser sutis: falhas vocais não corrigidas em “Branca de Neve” ou alguma instabilidade harmônica em “Carrossel”, uma valsa levemente grogue que retrata a vida amorosa de Laufey como um passeio de circo cansativo e turbulento. “Você se inscreveu para um espetáculo desses”, ela canta para um pretendente.
Em “Branca de Neve”, Laufey canta sobre não atingir o ideal de beleza de pele clara. Sua mãe é chinesa e seu pai é islandês, e ela e a irmã cresceram isoladas da maioria étnica islandesa:
— Lembro-me de ser pequena e assistir a “Branca de Neve”. Sempre me lembro de pensar: “Sou quase ela, tenho o cabelo escuro, mas não sou tão bonita e nem tão branca.”
Para gravar o álbum, Laufey, que toca violoncelo, violão e piano, trabalhou com Spencer Stewart, seu produtor de longa data, e Aaron Dessner, do The National. Ambos os produtores notaram a afinação perfeita de Laufey e sua habilidade em sobrepor múltiplas linhas de violoncelo — às vezes duas ou três dúzias de uma vez — para criar a ilusão de um conjunto completo de cordas.
O álbum, disse Laufey, se desenrola em cenas que vão de flertes efervescentes (“Silver lining” e a bossa nova “Lover girl”) a despedidas amargas (“Tough luck”, “Mr. Eclectic”).
A sensação de caos do álbum é mais palpável em “Sabotage”, a faixa final, na qual Laufey avisa um amante para “se preparar para o impacto” antes que a música termine com quase um minuto de uma barulhenta tempestade instrumental — incluindo seu violoncelo em um tom “gritante” — que lembra “A day in the life”, dos Beatles.
Laufey Lin Bing Jonsdottir nasceu em Reykjavik, capital da Islândia, em 1999, e cresceu em um lar repleto de música. Sua mãe é violinista da Orquestra Sinfônica da Islândia, e seu pai, um executivo financeiro, incutiu em Laufey uma afeição duradoura pela voz de Ella Fitzgerald e pelos filmes de Alfred Hitchcock. Laufey cresceu sob rigorosa disciplina musical, praticando violoncelo enquanto outras crianças praticavam esportes; a única música pop que sua família ouvia em casa eram os Beatles.
Na adolescência, porém, Laufey participava de competições de canto.
— Participei de uma competição de canto e os jurados deram seu feedback na hora — disse Laufey. — Um deles disse: “Você parece uma mulher de 40 anos que se divorciou duas vezes.”
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Ela ganhou uma bolsa de estudos para o Berklee College of Music, em Boston, conhecido por seu programa de jazz, e começou a compor e gravar suas próprias músicas. Quando lançou sua primeira música, “Street by street”, ficou perplexa quando pediram que ela classificasse a música em um único gênero; ela escolheu “cantora e compositora”.
— Nunca consegui me encaixar em uma categoria — lembrou Laufey. — Sempre fui uma islandesa sino-americana. Sempre toquei dois ou três instrumentos. Sempre falei duas ou três línguas. Literalmente, já fui duas pessoas.
Ela também começou a chamar a atenção no TikTok e, em 2021, assinou um contrato com a Awal, gravadora que faz parcerias com artistas para distribuir suas músicas amplamente, mas, ao contrário de um contrato tradicional com uma gravadora, permite que eles retenham integralmente sua propriedade intelectual. (A Sony Music comprou a Awal em 2021, embora ela continue sendo uma divisão independente, e Laufey se tornou uma de suas principais artistas.)
À medida que Laufey alcançava crescente sucesso com seus dois primeiros álbuns — “Everything I know about love” (2022) e “Bewitched” (2023), vencedor do Grammy de melhor álbum de pop vocal tradicional —, ela construiu seu negócio e sua marca, que inclui um clube do livro e uma rede de vendas diretas de mercadorias. Um item popular recentemente foi Mei Mei the Bunny, um coelho de pelúcia com um cardigã azul-marinho que, segundo o site, toca violino e tem uma abelha de estimação chamada Beethoven; a primeira tiragem esgotou rapidamente.
Com o sucesso, Laufey também se tornou alvo de críticos e aficionados de jazz que se irritavam com a ideia de que ela poderia “salvar” o jazz — uma afirmação que Laufey nunca fez, embora há muito tempo tivesse deixado clara a ambição de trazer música clássica e jazz para sua geração. Músicos e jornalistas debateram se a música de Laufey se qualifica como jazz.
— Claro que eu esperava por isso. Eu só tinha que acreditar em mim mesma e saber que sei o que estou fazendo. Não importa a música que eu componha e lance, sempre serei uma cantora de jazz. Não toquei um lick de violoncelo clássico neste álbum, mas serei para sempre uma violoncelista clássica, porque estudei, e é isso que eu sou — disse.
Ela reconhece que, por mais que seu trabalho seja permeado por sons clássicos, o pop é sua natureza fundamental:
Perguntei o quão profunda é sua fixação retrô — se ela realmente preferiria viver na era de meados do século, com musicais brilhantes e bossa nova tocando na jukebox.
— Eu não gostaria de ser mulher em nenhuma outra época — respondeu ela rapidamente. — Eu não conseguiria escrever sobre como me sinto péssima comigo mesma, que estava decepcionando o mundo e que nunca vencerei.