O governo do Equador anunciou na quarta-feira a captura de José Adolfo Macías Villamar, mais conhecido como Fito, o narcotraficante mais procurado do país. Líder da violenta facção Los Choneros e aliado do cartel mexicano de Sinaloa, Fito foi localizado pela polícia e pelo Exército escondido em um bunker subterrâneo sob uma casa de luxo na cidade costeira de Manta, no Oeste do país.
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A operação que levou à sua prisão durou cerca de dez horas e envolveu forças especiais do chamado “Bloco de Segurança” criado pelo presidente Daniel Noboa para combater o narcotráfico, publicou a rede britânica BBC. Segundo a Polícia Nacional, o esconderijo do criminoso estava camuflado sob o piso de pedra da casa de três andares no bairro nobre de Monterrey. Por uma escotilha disfarçada, os agentes encontraram uma escada metálica que levava a um bunker equipado com cama, ar-condicionado, ventilador e geladeira.
A casa onde Fito estava escondido contava ainda com academia, saco de pancadas e uma sala de jogos com mesa de bilhar e pebolim. Ele, que não ofereceu resistência, foi transferido sob forte escolta aérea para Guayaquil, onde voltou à prisão de segurança máxima La Roca — a mesma de onde fugiu em janeiro de 2024 com ajuda de ao menos dois agentes penitenciários. Na época, ele cumpria 34 anos de prisão.
Após sua prisão na quarta-feira, Noboa declarou nas redes sociais: “Para aqueles que se opuseram e duvidaram da necessidade das leis de Solidariedade e Inteligência: graças a essas leis, Fito foi capturado. Mais cairão, e recuperaremos o país. Sem trégua”.
A prisão de Fito representa um marco simbólico para o governo Noboa, que assumiu em novembro de 2023 e viu sua agenda de segurança ser dominada pela caçada ao líder dos Choneros. A fuga do narcotraficante da prisão La Regional no ano passado desencadeou uma onda de violência no país, com registros de rebeliões em presídios, ataques com explosivos, sequestros de jornalistas e a invasão de um estúdio de televisão ao vivo por homens armados.
A gravidade da situação levou o governo a declarar estado de exceção e, em seguida, a decretar um “conflito armado interno”, medida que autorizou o uso das Forças Armadas nas ruas e fez com que ao menos 22 facções criminosas fossem classificadas como organizações terroristas. Entidades de direitos humanos, no entanto, denunciaram abusos cometidos sob o novo arcabouço legal, incluindo desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias.
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O Ministério da Defesa chegou a oferecer uma recompensa de US$ 1 milhão por informações que levassem à captura de Fito.
Natural de Manta, cidade estratégica para o tráfico na província de Manabí, Fito, de 45 anos, acumula pelo menos 14 processos judiciais por crimes como homicídio, roubo, organização criminosa e posse ilegal de armas. Em 2013, ele também escapou da prisão com outros 15 detentos. Na época, o narcotraficante ficou foragido por dez meses.
Sua ascensão ao topo dos Choneros se deu em 2020, após o assassinato de Jorge Luis Zambrano, o Rasquiña, então líder da facção. O vácuo de poder provocou massacres em presídios e deixou quase 300 mortos em 2021. Foi nesse cenário que Fito assumiu o controle do grupo, que hoje conta com cerca de 8 mil integrantes e é considerado o braço logístico do cartel de Sinaloa no país.
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Mesmo preso, ele comandava a facção com mão de ferro e desfrutava de privilégios. Em 2023, após um massacre em uma penitenciária, apareceu em um vídeo anunciando um “acordo de paz” com outras gangues para acabar com a extorsão e sequestros. Em vídeo, Fito aparecia sentado com cinco homens atrás dele: quatro presos armados e um policial da inteligência penitenciária. Na época, o governo descreveu o caso como um “incidente” e “impertinência policial”.
Fito foi visto em público pela última vez em setembro de 2023, quando foi enviado a outra prisão de segurança máxima após o assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio. O político de 59 anos havia relatado, uma semana antes, que o chefe da gangue o havia ameaçado de morte. Para a transferência de Fito, uma megaoperação foi montada: ao todo, 4 mil policiais foram mobilizados.
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A mudança, porém, durou pouco. Menos de um mês depois, ele retornou à sua “prisão favorita” e desafiou o sistema ao lançar um clipe musical de dentro da cadeia. O vídeo “El Corrido del León” é interpretado pela dupla Mariachi Bravo e Queen Michelle, filha de Fito, e foi gravado em três ambientes: num bar, um campo com cavalos e a prisão regional onde o detento cumpria a pena.
“Ele é o patrão, e o patrão, senhores, é Adolfo Macías Villamar”, diz um trecho do clipe. Após o vídeo, o órgão responsável pelo sistema prisional do Equador afirmou que “não foi autorizada a entrada de equipamentos de gravação ou produtoras audiovisuais no estabelecimento prisional”, razão pela qual reconheceu que as imagens “poderiam ter sido obtidas a partir de alguns equipamentos introduzidos ilegalmente”.
A facção Los Choneros, liderada por Fito, é considerada uma das 22 organizações criminosas ligadas ao narcotráfico internacional e classificadas por Noboa como “terroristas”.
No ano passado, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções econômicas contra a facção e afirmou que o grupo “está envolvido no narcotráfico no Equador desde os anos 1990 e é um fator-chave na escalada de violência que assola o país desde 2020”.
Noboa informou que já iniciou tratativas com os EUA para extraditar Fito. Ele é réu em um processo federal em Nova York desde abril de 2024, acusado pelo Departamento de Justiça por conspiração para distribuição internacional de cocaína, contrabando de armas de fogo e uso de armamento em atividades de narcotráfico. Caso seja condenado, pode pegar até prisão perpétua.