A professora Sônia Cristina Gracine tinha se separado do marido, o vendedor Sérgio Caetano, mas ele não aceitava a decisão e insistia pedindo mais uma chance. Sônia estava resolvida, saiu de casa e foi morar com uma prima em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Pouco depois, no dia 15 de dezembro de 1985, há 40 anos, o ex-marido apareceu contando uma mentira para convencer a professora a ir com ele e o irmão de criação dele, de carro, até Saquarema, na Região dos Lagos.
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Chegando lá, os dois homens esfaquearam a professora no pescoço dentro do carro, jogaram álcool e riscaram palitos de fósforo em cima da vítima, que se fingiu de morta e foi deixada num terreno baldio. Mesmo depois de perder muito sangue e com o corpo queimado, Sônia conseguiu se levantar e achar ajuda. Ela foi levada ao Hospital Antônio Pedro, em Niterói, onde ficou internada. Sem poder falar, a professora reuniu energia para escrever uma carta contando tudo, mas morreu 25 dias após o crime.
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Nas últimas semanas, diferentes casos de mulheres assassinadas em razão da sua condição de mulher vêm causando revolta em um país que tem um longo histórico de violência de gênero. Há dez anos, os crimes com essas circunstâncias passaram a ser tipificados como feminicídios justamente para dar visibilidade ao problema e aumentar a punição de quem comete essas atrocidades. Mas, até então, muitas mulheres já tinham sido mortas de formas chocantes por puro machismo.
Alguns casos geraram tamanha comoção que ficaram tatuados na história da crônica policial e da luta das mulheres por igualdade. As mortes de Aida Curi, em 1958, Claudia Lessin, em 1977, e Mônica Granuzzo, em 1985, são exemplos disso e já foram relembradas, em diferentes momentos, aqui no Blog do Acervo. Mas, com uma pesquisa no site do Acervo O GLOBO, pode-se encontrar reportagens sobre diversos crimes de gêneros brutais que caíram no esquecimento.
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No dia 9 de outubro de 1928, por exemplo, uma reportagem relatou o caso de um italiano morador de São Paulo que, depois de estrangular a mulher, colocou o corpo em uma mala e despachou como bagagem em um navio pra Europa. Quando o corpo de Maria Fea Pistoni foi descoberto, ainda no porto de Santos, o assassino, José Pistoni, foi preso e confessou o crime, aos prantos, dizendo que perdeu a cabeça quando chegou em casa e viu outro homem saindo de lá.
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As reportagens expõem a forma primitiva como certos homens lidam com ciúme ou rejeição. Em fevereiro de 1948, o jornal contou a história de Maria Amélia da Silveira. Aos 17 anos, ela se casou com Antenor Rodrigues, que, assim como ela, morava em Ramos, na Zona Norte do Rio. Dois anos depois, a relação acabou, e eles passaram a se falar de forma amistosa, quando se encontravam na vizinhança. Um dia, o rapaz soube que Amélia tinha passado uma noite fora de casa e foi tirar satisfação, mas ela se negou a dizer com quem estava. Antenor, então, cravou uma faca nas costas da moça.
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No dia 29 de março de 1974, O GLOBO noticiou a morte da dançarina Maria das Graças Pavão. Mais conhecida como Gracinha, ela se apresentava com frequência no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, no Centro do Rio. Aos 42 anos, Gracinha foi atirada da janela do quarto 42 do Hotel Paris pelo namorado, Valmir Ferreira, de 33 anos, em meio a uma crise de ciúmes. Ele se jogou logo em seguida, e os dois ficaram estirados na Avenida Passos. Mas só a dançarina morreu.
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Um dos casos mais relembrados até hoje foi a morte da socialite Angela Diniz, no dia 30 de dezembro, quando o empresário Doca Street, namorado dela, disparou três tiros no rosto e um na nuca da vítima depois de uma discussão por ciúmes, na Armação de Búzios. O assassinato de Ângela e a impunidade do atirador no primeiro julgamento, em 1979, impulsionaram um movimento de mulheres que ganhou as ruas e deu visibilidade às causas feministas no Brasil com o slogan “Quem Ama não Mata”.
As ativistas exigiam, por exemplo, que o argumento da “defesa da honra”, usado pelos advogados de Doca Street, não fosse mais aceito como justificativa pra morte de mulheres.
Em 1981, Doca Street foi julgado pela segunda vez e condenado a 15 anos de prisão. Foi, sem dúvida, uma vitória para o movimento feminista, mas a ampla divulgação do caso e a crescente mobilização contra a violência de gênero não estacaram o problema. Crimes com aquelas mesmas características continuaram ocorrendo aos montes.
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No dia 18 de janeiro de 1986, O GLOBO contou a história de Sonia Gracine. No dia 15 de dezembro do ano anterior, o vendedor Sérgio Caetano abordou a ex-mulher dizendo que uma amiga dela que morava em Saquarema tinha sofrido um acidente de carro. Preocupada, a professora entrou no carro com Sérgio e o irmão de criação dele, chamado Haroldo. Chegando lá, ex-marido e o cúmplice atacaram a professora, que foi deixada pra morrer, mas, por milagre, levantou-se e buscou ajuda.
No hospital, muito debilitada devido ao ferimento no pescoço e a queimaduras de terceiro grau em várias partes do corpo, sem conseguir usar a voz, Sônia escreveu a carta contando como ela lutou muito contra os dois assassinos, antes de decidir se fingir de morta. De acordo com as matérias da época, a professora morreu no dia 10 de janeiro de 1986, e os dois criminosos foram presos. Sérgio se negou a confessar o crime, mas seu cúmplice confirmou todo o relato da vítima.
“Quarta-feira eu estava em casa e o ex foi lá, dizendo que a minha amiga Graça, que é policial e tem uma casa em Saquarema, tinha batido com o carro e queria falar comigo. Eu saí correndo com ele e o irmão de criação, Haroldo, foi junto.”
Eles chegaram a Saquarema e começaram a rodar pela região, já que Sérgio dizia que não estava conseguindo encontrar o hospital. Seguiram para um morro perto da Lagoa de Saquarema, onde Sérgio passou para o banco de trás e tentou enforcar Sônia com uma flanela. Na carta, ela contou que ainda conseguiu desgovernar o carro, chutando o volante, e pediu ajuda a Haroldo, de 28 anos.
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“Me agarrei com o Haroldo, chorando, mas ele só me pedia calma. Dizia que eu-estava nervosa. Tentei ir embora, eles me seguraram: meu marido Sérgio Caetano Pereira e o irmão Haroldo.”
Ainda segundo a carta, a professora foi tirada do carro e jogada no chão. Sérgio se deitou sobre ela para tentar estrangular a mulher, enquanto o cúmplice segurava as pernas dela. Em meio à luta, Sônia mordeu o rosto
“Rasgaram minha blusa com a f aca; apertaram meu pescoço e pernas; fingi que tinha morrido. Aí eles deram uma facada no meu pescoço e mais outra. Fiquei quieta. Eles jogaram álcool no pescoço, rosto e costas e jogaram fósforos, Não dei um pio; o Sérgio ainda queria dar mais uma facada mas o outro não deixou”.
Em seu texto, Sandra conta que os criminosos fugiram com medo que alguém aparecesse. “Esperei o fogo apagar e o carro ir embora. Levantei, tirei a calça comprída, desci da ribanceira, passei por três cercas de arame e fui para a estrada.”
Na estrada, três funcionários da antiga companhia telefônica Telerj viram a professora e chamaram uma ambulância. No Hospital Antônio Pedro, ela passou os primeiros dias na UTI, entre a vida e a morte. As queimaduras tornavam difícil o tratamento dos ferimentos a faca e, ao mesmo tempo, agravavam o quadro de saúde. Quando teve uma leve melhora, mas ainda sem poder falar, Sônia pediu papel e caneta e mando chamar uma prima advogada.
“Poderia estar morta como eles realmente queriam. Graças a Deus, não estou. Mostre isso aos meus pais e mostre para a Polícia. Pelo amor de Deus, façam justiça. Eles são dois monstros. Me ajude, minha prima, pois talvez fique deformada pro resto da vida. Pelo amor de Deus, Marilene”.

