Quarta-feira de uma tarde ensolarada na Fortaleza de Santa Cruz. Nada de visitantes ou turistas. O grupo sobre as pedras seculares não está ali para conhecer os encantos do lugar. Atores caracterizados são cercados por uma equipe com microfones e câmeras. É mais um dia de filmagem de “Emmanuel”, novo longa-metragem de Wagner de Assis, diretor da trilogia “Nosso lar”.
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O filme vai narrar as vidas do mentor espiritual de Chico Xavier ao longo de dois mil anos, passando pela Roma antiga, a Galileia de Jesus e a Itália de Francisco de Assis, até chegar ao Brasil, em Uberaba, cidade mineira onde o médium brasileiro viveu. Na quarta-feira, quem estava na fortaleza na verdade estava na Itália do século I.
Para dar vida a cenários da época de Cristo, foram escolhidos dois dos principais monumentos históricos de Niterói: a Fortaleza de Santa Cruz e o Forte São Luiz, ambos em Jurujuba. As gravações revelam o potencial dos dois espaços como locações cinematográficas. Assis explica como foi a escolha de Niterói para servir de cenário em parte das gravações:
— Nosso filme retrata muitos anos de História, então tínhamos uma necessidade absurda de procurar pontos históricos ao redor do Rio. E um dos lugares encontrados foi a fortaleza, um sítio do século XVI muito interessante.
O local já foi locação das filmagens de duas outras produções do diretor, “Kardec”, em que o local é transformado em um pedacinho de Barcelona; e “Nosso lar”, longa baseado no livro de mesmo nome do médium Chico Xavier. Assis comenta sobre a importância de ter esse tipo de estrutura disponível para filmagens:
— Cada história demanda um tipo de locação, um tipo de direção de arte. É muito bom ter isso à nossa disposição tão perto da cidade onde trabalhamos. No caso da fortaleza, se tivermos histórias que se passam em séculos passados, nem precisamos de efeito visual para ajudar.
Clara Rocha, diretora de arte do filme, explica que retratar um período de dois mil anos atrás, como acontece em “Emmanuel”, exige ambientes historicamente preservados.
— A gente buscou essas construções que têm uma verdade, que têm essa história dentro das paredes e que trazem essa memória que não é possível produzir dentro de um estúdio — explica.
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Segundo Clara, embora a Fortaleza de Santa Cruz date de 1500, sua arquitetura de pedra permite a adaptação para a Roma do século I, onde o filme se inicia.
— A gente precisa dessa materialidade, desse chão, dessa pedra, dessa textura que o tempo trouxe para os espaços. A pesquisa feita para a escolha desses cenários é totalmente focada nessa materialidade — frisa.
A fortaleza é patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e por isso, durante as gravações, nenhuma parte do cenário poderia ser alterada ou danificada. Clara conta que esse foi um dos maiores desafios para ela e toda a equipe:
— Trabalhar em um patrimônio tombado exige uma alta dose de criatividade. O maior desafio é adaptar o cenário sem poder mexer em nada na estrutura. A solução é usar montagens que se encaixam perfeitamente no cenário.
Em suas diferentes encarnações, o personagem principal ganha vida por meio de diversos intérpretes, entre eles Edson Celulari, Marcelo Serrado, Leonardo Medeiros, Rafael Infante, Guilherme Magon e Mouhamed Harfouch. Também integram o elenco Juliana Paiva, Natallia Rodrigues e Emílio Orciollo Netto.
Em entrevista ao GLOBO-Niterói, Juliana Paiva revela como gravar num cenário histórico facilita a imersão na personagem:
— Você chega num lugar desses e não precisa de muito para se sentir naquela época. A energia, a beleza, o peso da História, nós bebemos dessa fonte. Então fica muito mais fácil entregar o nosso trabalho.
Juliana, que tem família em Niterói, admitiu que nunca havia visitado o local e aproveitou para explorar o lugar.
— É muito lindo aqui, né? Entre uma cena e outra eu saio fotografando, conhecendo, andando. É um privilégio trabalhar em um lugar histórico como este — afirma.
O ator Rafael Infante concorda que atuar num ambiente externo, em vez de em um estúdio fechado, contribui para trazer mais vida à interpretação.
— Os materiais do ator são a imaginação e a fantasia. Então, com certeza o externo contribui para trazer emoções à cena. O local tem uma energia diferente, é impressionante — diz.
Infante, que tem raízes na cidade, já que seus pais moraram no Ingá, fez questão de ressaltar o sentimento de trabalhar em Niterói.
— Eu tenho a sensação de casa, na verdade, me sinto realmente bem aqui — comenta o ator.
Clara destaca a importância de usar esses espaços:
— Acho que o mais importante é esse trabalho de você valorizar o que é antigo, o que tem uma história. Então, quando gravamos filmes nesses ambientes, também estamos trazendo visibilidade para eles e preservando uma parte da nossa História.

