São 6h30, e o canto de pássaros — sincronizado ao pio de quatis e macacos — é o único som que perfura o silêncio. Eis um dia útil no Rio de Janeiro, lá no alto do Corcovado. Funcionário mais antigo do local, Wilson Antônio Bernardo “abre” as portas do ponto turístico e, diante do Cristo Redentor, em meio ao vazio total no cartão-postal, agradece “por mais uma manhã” antes de rezar um Pai-Nosso. Todo dia, ele faz tudo sempre igual.
Cinco anos após morte: Marília Mendonça é tema de série que recupera material inédito de seu acervo
Há meio século: ‘Escrava Isaura’, ‘Anjo mau’, ‘Saramandaia’ e mais — por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil?
Sim, há quem ganhe o pão subindo, diariamente, a famosa montanha carioca. Para que o senhorzão de 95 anos continue, incansável, com os braços abertos sobre a Guanabara, uma turma de mais de cem funcionários corta um baita dobrado no santuário. A começar por Wilson. Assistente administrativo e sacristão, ele logo destranca a pequena capela e ajeita o espaço — na base do monumento, com entrada pelas “costas” do Cristo, e onde acontecem missas a partir das 7h30. Ao longo do dia, estará ali para o que der e vier.
— As pessoas me perguntam: “Dá para se acostumar com um trabalho no Cristo?”. Não, não dá. A cada dia vejo coisas diferentes. E fico pensando: “Como o Homem foi capaz de criar isso!?” — deslumbra-se Wilson, de 64 anos e mais de duas décadas batendo ponto no alto do morro. — Todo mundo reflete muito aqui. Em cima é tudo maravilhoso. Mas quando descemos tem a desigualdade, a violência… Não poderia ser esta paz em todo e qualquer lugar?
Galerias Relacionadas
Testemunhas do tempo
Não à toa, minutos antes da abertura do ponto turístico — e do início do expediente —, alguns trabalhadores aproveitam a tranquilidade para tirar uma casquinha da paisagem.
— Toda hora é uma beleza nova. Às vezes é um arco-íris que surge de repente, às vezes é um tapetão de nuvens… — indica Álvaro Silva, funcionário do trenzinho que conecta o bairro do Cosme Velho ao topo da formação rochosa.
Funcionário do Cristo Redentor, Wilson Antônio Bernardo abre a capela que fica no monumento
Márcia Foletto/Agência O Globo
Minutos depois, os olhos se voltam para o frenético vaivém de turistas — no ano passado, o local atraiu uma média de quase oito mil pessoas por dia. Invisíveis no meio da multidão, os funcionários se transmutam, então, em valiosas testemunhas do tempo. Do fotógrafo que revelava retratos instantâneos à febre dos “paus de selfie”, Wilson (e tantos outros trabalhadores) acompanham boa parte das mudanças nos comportamentos. Hoje, não tem jeito, quase todo mundo chega com o celular em mãos. E dá-lhe cliques. Há guias turísticos que levam até tapetinhos para deitar e rolar, com conforto, em busca do ângulo que garanta mais curtidas.
Initial plugin text
Houve época, porém, em que subir o Corcovado era apenas sinônimo de tirar a melhor roupa do armário. O colecionador Fernando da França Leite — que, pasmem, desde os 14 anos (e lá se vão seis décadas) reúne milhares de fotografias, medalhas e uma miríade de objetos relacionada ao monumento — guarda registros de famílias inteiras que faziam o passeio de terno e gravata. Parte do raríssimo material está exposta na mostra recém-inaugurada no Centro de Visitantes Paineiras. É a chance de ver também pérolas como maquetes e modelos originais que guiaram a execução da escultura. Uma sala contempla imagens históricas produzidas pelo GLOBO.
Manutenção é complexa
Mudam as roupas, as câmeras e os costumes, e o fascínio geral permanece firme. Que o diga Jaqueline de Melo, gerente operacional e de receptivo do Trem do Corcovado. A relação da carioca, de 41 anos, com a ferrovia vem praticamente do berço: a família assumiu a concessão do serviço em outubro de 1984, um mês antes de seu nascimento. Advogada criminalista, ela trocou os tribunais pelos trilhos em 2013, quando foi convocada pela mãe para reforçar a equipe durante a Jornada Mundial da Juventude, que pôs as três composições para funcionar 24 horas por dia. O trabalho seria temporário. Mas Jaqueline se encantou — e se encontrou no ofício.
— Recebíamos pessoas de todos os lugares do mundo. Todos cantando. Tantos jovens… Eu olhei e falei: “Gente, é isso que eu quero para a vida”. E nunca mais saí — recorda.
aqueline de Melo, gerente operacional e de receptivo do Trenzinho do Corcovado
Márcia Foletto/Agência O Globo
O expediente começa às 6h15 e só termina às 19h. Nesse intervalo, Jaqueline confere desde as condições dos trens e da bilheteria até o uniforme dos funcionários. E há quem chegue mais cedo: às 4h, operários conferem se há galhos sobre os trilhos e a rede elétrica da ferrovia, que atravessa a Floresta da Tijuca. E mais.
Initial plugin text
Há labuta até quando não se vê, aparentemente, vivalma. Ao longo das madrugadas, uma equipe de aproximadamente 12 profissionais se dedica especificamente à conservação do Cristo, a estátua. Arquiteta, escultora e mestre em patrimônio, Cristina Ventura acompanha os cuidados com o monumento desde 2015. Lá em cima, não faltam adversários: vento, chuva, raios e mudanças bruscas de temperatura são vilões implacáveis.
Guia turístico usa tapetinho para garantir melhor ângulo em foto de turista no Cristo Redentor
Márcia Foletto/Agência O Globo
Por meio de levantamentos fotográficos, os técnicos mapeiam fissuras e outros sinais de desgaste no revestimento. Detalhe: para identificar problemas, é preciso que o Cristo esteja molhado — mas que já tenha parado de chover, de maneira que os equipamentos não pifem em contato com a água. Em outras ocasiões, uma vez por mês, alpinistas percorrem a superfície da escultura, suspensos por cordas, batendo em pontos específicos à procura de sons ocos, que podem indicar danos ocultos.
O sistema de para-raios, por sua vez, é inspecionado semanalmente. Em 2021, diante do significativo aumento da frequência e da intensidade das descargas elétricas, a equipe ampliou de 80 centímetros para 1,8 metro a coroa de proteção instalada na cabeça do Cristo. Sinal dos tempos. Após temporais, os profissionais sempre estão lá, a postos. Não custa lembrar: a obra fica exposta a mais de 700 metros de altitude e enfrenta rajadas de vento que chegam, uau, a 120 quilômetros por hora. Tudo isso sobre uma estrutura de concreto, ferro e pedra-sabão, materiais que reagem de maneiras diversas às intempéries.
— Quanto mais a gente previne, menos elementos originais se perdem — explica Cristina. — Esse trabalho invisível é fundamental para que ainda tenhamos as pedras e os materiais do início do século XX.
A rotina invisível no Cristo Redentor: do sacristão que 'abre' o cartão-postal aos alpinistas que cuidam da estátua
