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outubro 18, 2026
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Aval popular guia propostas para reduzir maioridade penal

Por · outubro 18, 2026
Mudança na maioridade sugerida por Lula atingiria 10% dos internos entre 16 e 18 anos; proposta de Flávio abarcaria 57%


De volta ao debate político na reta final da eleição presidencial, a ideia de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos é um tema que aparece com frequência em propostas de parlamentares no Congresso Nacional, sempre embalado pelo elevado percentual de aprovação à medida nas pesquisas de opinião. Foram mais de 50 projetos nessa linha desde a Constituição de 1988, geralmente defendidos pela direita. O primeiro foi apresentado apenas cinco anos depois da promulgação da Carta Magna.
Entenda: Mudança na maioridade sugerida por Lula atingiria 10% dos internos entre 16 e 18 anos; proposta de Flávio abarcaria 57%
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O Datafolha, cuja última pesquisa sobre o assunto saiu em junho, registrou neste ano o menor patamar de apoio à iniciativa em toda a série iniciada em 2003, mas ainda assim com esmagadora maioria de aprovação: 79% concordam, e só 17% discordam. O percentual mais alto foi visto em 2015, com 87% dos brasileiros a favor.

Chama atenção, nos levantamentos do instituto, uma segunda pergunta. Dentro do universo dos que defendem a redução da maioridade, é crescente a parcela que a deseja apenas para determinados crimes. Na entrevista à TV Globo, na última quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcou uma inflexão histórica na posição dele e do partido e se inseriu nesse grupo ao se dizer favorável à diminuição no caso de “todo e qualquer crime hediondo”.
Na sondagem recente, 61% ainda gostariam de ver a mudança aplicada a qualquer tipo de crime, mas o percentual de 39% que citam apenas infrações específicas é o maior da série histórica, que reúne seis levantamentos em anos espaçados. A diferença entre uma resposta e outra, de 22 pontos, representa a mais modesta já registrada pelo Datafolha. Em 2015, chegou a ser de 48 pontos.

Debates no Congresso
Pegando carona nesse pensamento majoritário na sociedade brasileira, parlamentares fizeram mais de 50 tentativas de estabelecer a maioridade em 16 anos desde 1988, na Câmara e no Senado. O caminho, depois de longas tramitações, costuma ser o arquivamento. A primeira proposta, de 1993, foi escrita pelo então deputado Benedito Domingos (PP-DF) e citava as transformações na sociedade desde 1940, ano em que havia sido fixada a maioridade em 18 anos, para justificar a alteração. Acabou arquivada apenas em 2022.

“Resta evidente que a idade cronológica não corresponde à idade mental. O menor de dezoito anos, considerado irresponsável e, consequentemente, inimputável, sob o prisma do ordenamento penal brasileiro vigente desde 1940, quando foi editado o Estatuto Criminal, possuía um desenvolvimento mental inferior aos jovens de hoje da mesma idade”, dizia.
A análise do deputado alegava ainda que o acesso dos jovens à informação naquele ano era “infinitamente superior” ao de 1940, e o fazia em texto carregado de descrições das mudanças sociais do país: “A liberdade de imprensa, a ausência de censura prévia, a liberação sexual, a emancipação e independência dos filhos cada vez mais prematura, a consciência política que impregna a cabeça dos adolescentes, a televisão como o maior veículo de informação jamais visto ao alcance da quase totalidade dos brasileiros, enfim, a própria dinâmica da vida, imposta pelos tortuosos caminhos do destino, desvencilhando-se ao avanço do tempo veloz, que não para, jamais.”
PT embarca na causa
Na semana passada, a discussão sobre a medida voltou ao Congresso, dessa vez no Senado. Durante a tramitação da PEC da Segurança, bandeira do governo Lula, o líder do PT na Casa, senador Camilo Santana (CE), apresentou uma emenda para reduzir a idade penal para crimes como estupro e latrocínio. Apesar de defender modelo parecido, o presidente Lula disse na entrevista à Globo que discordou do movimento do senador petista porque o tema não deveria ser discutido no âmbito dessa PEC, e sim de forma separada.
Já o PL, do presidenciável Flávio Bolsonaro, sustentou no Senado que a idade caia para 16 na maioria dos crimes e para 14 no caso dos hediondos. Quem encabeçou a pauta foi o senador Rogério Marinho (RN), coordenador da campanha de Flávio à Presidência da República. O líder do partido, senador Carlos Portinho (RJ), seguiu a mesma linha.
O próprio Flávio, em 2019, no primeiro ano do mandato como senador, apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com esse objetivo. O texto, no entanto, não avançou.
“A proposta visa alterar a Constituição Federal para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Além disso, propõe que adolescentes a partir de 14 anos possam ser responsabilizados penalmente em casos de crimes hediondos (crimes considerados extremamente graves, como homicídio e estupro), tortura, tráfico de drogas, terrorismo, e participação em organizações criminosas”, diz a explicação do projeto no Senado.
Impacto na campanha
Do ponto de vista de estratégia eleitoral, avalia o cientista político Josué Medeiros, Lula fez uma boa jogada ao encampar a medida, o que ajuda a neutralizar a centralidade do tema na narrativa de Flávio.
— Ele tinha conseguido produzir uma agenda positiva, a da escala 6×1, que fez Flávio mudar de posição, e a extrema direita preparou esse contra-ataque da maioridade penal. Pretendia que tivesse uma posição contrária do governo para trazer a segurança para o centro do segundo turno — diz o professor da UFRJ. — Quando Lula apoia com a especificidade dos crimes hediondos, esvazia esse movimento. Mesmo que Flávio martele que Lula também mudou de posição, já perdeu o sentido colocar essa pauta no centro, dado que Lula está a favor.
O movimento do presidente, no entanto, divide a própria esquerda, historicamente contrária à redução da maioridade. Se novos quadros do partido, como governadores e ex-governadores do Nordeste, são favoráveis a gestos nesse sentido, petistas que já votaram contra a proposta, como o líder da sigla na Câmara, Pedro Uczai (SC), e o candidato da sigla ao governo de Minas este ano, Patrus Ananias, silenciaram.
Já a União Nacional dos Estudantes (UNE), que vem organizando manifestações para impulsionar a reeleição de Lula, divulgou nota criticando a redução da maioridade, mas evitou associá-la ao presidente. Atribuiu a ideia ao PL, partido de Flávio Bolsonaro.
Em paralelo às disputas no Senado que marcaram o embate narrativo entre PT e PL, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a redução no último dia 10. A PEC teve 44 votos favoráveis e 18 contrários. Ela ainda precisa ser analisada por uma comissão especial antes de seguir para o plenário.

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