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outubro 18, 2026
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Conselhos sobre bem-estar ganham espaço nos consultórios médicos

Por · outubro 18, 2026
Conselhos sobre bem-estar ganham espaço nos consultórios médicos


Os pacientes têm chegado cada vez mais cedo na clínica do ortopedista Guilherme Porceban, especialista em cirurgia da coluna vertebral de São Paulo. Se antes, homens e mulheres esperavam dores muito agudas para aparecer em seu consultório, agora casos mais iniciais já são motivo para que muitos agendem consultas para saber o que está havendo. O movimento, ele ressalta, é muito positivo para o prognóstico.
— Vejo que agora acontece a procura de atendimento mais cedo. Justamente para evitar que chegue a um caso difícil de tratar, os casos aparecem mais iniciais, com mais chance de resolução, chegando aos 90% — conta. — Hoje médicos e pacientes sabem que é importante observar os sinais que vão além da dor. Cresceu o interesse de falar sobre a rotina do paciente, todos os fatores que podem impactar seu bem estar.
O comportamento dos pacientes de Porceban tem a ver com uma mudança de paradigma vivida pela medicina nos últimos tempos. A prática deixa de se dedicar só aos problemas sérios já instalados no corpo e mente de pacientes e começa a priorizar a qualidade de vida, e a preservação de funções de quem está plenamente saudável. Um dos pontos que ressalta esse movimento, por exemplo, foi a criação da primeira declaração global da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre controle de doenças não-transmissíveis e saúde mental, no ano passado. No material, a entidade mira práticas absolutamente cotidianas que podem estar relacionadas a problemas mais graves de saúde. São eles: dietas pouco saudáveis, tabagismo, consumo nocivo de álcool e sedentarismo. Além disso, o documento ainda aborda a necessidade de reduzir longos períodos de exposição às redes sociais.
Na época desse anúncio, o diretor da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ressaltou o aspecto fundamental da prevenção para o controle de males que chegam a matar 43 milhões de pessoas por ano em todo o mundo:
“Devemos lembrar que a saúde não começa em clínicas e hospitais. Ela começa nos lares, nas escolas, nas ruas e nos locais de trabalho, na alimentação das pessoas, nos produtos que consomem, na água que bebem, no ar que respiram e nas condições em que vivem e trabalham”, afirmou.
Orientação
Nesse sentido, os médicos podem tornar-se conselheiros, promotores da saúde, e profissionais que orientam a tomada de boas decisões na rotina. Para que isso aconteça de forma efetiva, conta o cirurgião cardiovascular Edmo Atique Gabriel, é preciso que a consulta seja longa e toque em diversos detalhes do modo de viver de quem busca um especialista. Em seu consultório, as conversas com os pacientes têm que durar no mínimo meia hora. Alguns , inclusive, chegam a estranhar o longo bate-papo. Nesse caso, Edmo diz que faz perguntas amplas e generalistas, para criar um vínculo.
— A abordagem tem de ser multidisciplinar e multifatorial. Dentro da cardiologia, eu consigo trabalhar a questão do sono, alimentação, trabalho que a pessoa tem, relações familiares e como está o seu estado emocional — diz ele que orienta visitas anuais ao cardiologista, mesmo sem sintomas. — É possível mudar hábitos e até influenciar em tendências genéticas que a pessoa nem percebe. Consigo agir de maneira mais preventiva do que dar, apenas, o remédio. O paciente prefere porque vê que estamos trabalhando fragilidades que podem mudar seu paradigma de saúde.
Esse tipo de abordagem, que orienta o bem estar também como um tipo de meta permanente, age diretamente em males “silenciosos” capazes de causar danos sérios à saúde no longo prazo. É isso que explica a neurologista Sheila Martins, que fundou a Rede Brasil AVC e presidiu a World Stroke Organization.
— As pessoas podem conviver anos com condições sem apresentar sintomas, até que aconteça um AVC ou um infarto. Por isso, é preciso mudar o modelo de cuidado: em vez de esperar que a doença apareça, devemos identificar precocemente quem está em risco e agir antes — afirma ela, ressaltando a importância da Atenção Primária. — E isso envolve os hábitos saudáveis, além de identificar e controlar a pressão arterial, o colesterol, o diabetes e a fibrilação atrial.
O diretor científico da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), Ricardo Turenko, lembra que dar atenção às condições ligadas à ocupação profissional deve ser alvo de preocupação do médico. Desse modo, jornadas excessivas e exposição a agentes nocivos precisam ser assunto nas consultas.
— A medicina tem que estar presente na vida da pessoa além do momento em que surge uma doença. É uma ferramenta para viver mais e melhor.

Conselhos sobre bem-estar ganham espaço nos consultórios médicos