Palco de experimentação artística, resistência política e formação de gerações de atores, o Teatro Leopoldo Fróes, que fica na Praça da República, no Centro, será restaurado e reaberto. Fechado desde 1991, o espaço, que pertence à Mitra Diocesana, deverá ser desapropriado pela prefeitura esta semana, quando o prefeito Rodrigo Neves assinará o decreto que dará início ao processo de recuperação do imóvel. A iniciativa é recebida com entusiasmo por artistas, que veem no retorno do teatro a possibilidade de recuperar um espaço importante para a produção cultural da cidade.
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— Niterói é uma das cidades que mais investem em cultura no Brasil. Acreditamos na cultura como elemento fundamental do nosso pacto de bem-estar social e prosperidade. Meu desejo de recuperar o Teatro Leopoldo Fróes, fechado há mais de três décadas, é um projeto que estamos tratando com carinho e planejamento — diz o prefeito.
Rodrigo afirma que a reabertura pretende devolver o espaço à produção artística local e que a ideia é também integrar a recuperação do patrimônio às ações de revitalização do Centro:
— Ele faz parte da memória afetiva da cidade e é um desejo antigo da classe artística. A história do teatro é forte, simbólica, e desejamos que ele abrace os grupos e coletivos teatrais e culturais niteroienses com seu fazer artístico desbravador. A cultura é um ponto-chave da economia criativa. Acreditamos que o Leopoldo Fróes, ao lado da biblioteca que reabrimos na Praça da República, será um dos pilares que se somam ao nosso plano de revitalização completa do Centro de Niterói.
Artistas comemoram
Atriz niteroiense, Natália Lage comemorou a decisão e destacou o papel dos equipamentos culturais na formação da população e na promoção do debate público.
— Acho importantíssima essa decisão de restaurar o Leopoldo Fróes, que conta um pouco da história da cultura de Niterói. Foi um teatro fechado pela ditadura, reaberto e que, recentemente, pegou fogo. Tenho visto na prefeitura diversas iniciativas de cuidado com as políticas culturais, que são fundamentais para a educação da nossa cidade e do nosso povo. A cultura tem esse papel de levantar questões e trazer reflexões. Quanto mais aparelhos culturais estiverem funcionando, melhor para a gente. Como cidadã de Niterói e artista, fico muito feliz com essa iniciativa — elogia.
Fabio Fortes, diretor teatral e um dos responsáveis pelo festival internacional Niterói em Cena, diz que o Leopoldo Fróes sempre foi uma referência para os profissionais da cidade. Segundo ele, a recuperação do espaço poderá devolver à classe artística um lugar de pesquisa e desenvolvimento da linguagem teatral.
— O Leopoldo Fróes sempre foi a casa dos artistas de teatro de Niterói. Ali pudemos ter um teatro de grande importância para desenvolver estudos sobre a nossa linguagem. O Leopoldo Fróes faz parte da nossa memória afetiva, de quem trabalhava com teatro nos anos 1980, 1990 e 2000. Vai ser um grande feito da prefeitura restaurar esse patrimônio para a classe teatral — diz.
História de resistência
Inaugurado em 1973, o teatro surgiu em um período conturbado da história brasileira. O espaço, que antes abrigava o Teatro Alvorada, foi alugado pelo Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural (INDC), durante as obras de reforma do Theatro Municipal de Niterói. Naquele mesmo ano, a casa de espetáculos havia sido fechada por determinação do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), após a apresentação de “Arena conta Zumbi” pelo grupo Ceia, ligado ao Instituto Abel. Considerado subversivo pela ditadura militar, o musical abordava a resistência dos quilombolas de Palmares.
Depois de dez meses fechado, o teatro foi reaberto com o nome de Leopoldo Fróes, em homenagem ao ator e comediante nascido em Niterói que marcou a história do teatro brasileiro. O espaço se tornou um dos principais pontos de encontro da produção cultural da cidade, especialmente em um período de transformações provocadas pela fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, em 1975.
Na década de 1980, o Leopoldo Fróes ampliou a programação
Raimundo Neto/23-6-1989
Movimentos como Niterói vai Sumir, Niterói vai Assumir e Araribroadway, além de grupos como Grito e Papel Crepon, encontraram no palco um lugar para experimentação e resistência cultural. A casa também contribuiu para a formação de profissionais e para a consolidação de uma identidade própria da cena teatral niteroiense.
Na década de 1980, o Leopoldo Fróes ampliou sua programação, recebendo espetáculos profissionais do Rio e projetos musicais como “Fim de tarde”, “Sete em ponto”, “Pixinguinha” e “Seis e meia”. O teatro também foi palco de apresentações de artistas como Sidney Magal, Elza Soares, Leci Brandão, Zizi Possi, Elba Ramalho e Pepeu Gomes. Entre os músicos de Niterói que passaram pelo espaço estão Zélia Duncan, Arthur Maia, Dalto, Byafra, Marvio Ciribelli, Sergio Chiavazzoli e Marcos Sabino.
O encerramento das atividades, em 1991, provocou reação de artistas e produtores culturais, que organizaram o movimento SOS Leopoldo Fróes. A mobilização promoveu um abraço simbólico, um show na Praça da República e um abaixo-assinado, mas não conseguiu impedir o fechamento. Em 2021, durante a pandemia de Covid-19, o imóvel foi atingido por um incêndio, agravando a situação.
A restauração está inserida no processo de revitalização do Centro de Niterói, que reúne intervenções urbanísticas e a recuperação de espaços de convivência, lazer e cultura. Entre os equipamentos e projetos que integram esse movimento estão o Mercado Municipal, a Arena Niterói, o Complexo de Atletismo Aida dos Santos, o Solar Notre Rêve e o Museu do Cinema.
Segundo a prefeitura, a proposta é que o Leopoldo Fróes volte a receber produções teatrais e outras manifestações artísticas, com atenção especial aos grupos e coletivos da cidade. O cronograma das obras e a previsão de reabertura, porém, ainda não foram informados.
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Fechado há 35 anos, teatro histórico de Niterói será desapropriado e reaberto
