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outubro 18, 2026
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IA já é realidade na prática médica, mas exige cautela

Por · outubro 18, 2026
IA já é realidade na prática médica, mas exige cautela


A pergunta não é mais se a Inteligência Artificial (IA) irá influenciar nos rumos da medicina ou se será capaz de desembarcar nos consultórios médicos, mas de que maneira isso acontecerá. Neste momento, especialistas das mais diferentes áreas e pacientes já têm apostado nesse tipo de funcionalidade para os mais diversos usos.
É o que mostra um levantamento realizado pela healthtech, especialista em softwares médicos, MV. Segundo a pesquisa, publicada há poucas semanas, 66,1% dos especialistas ouvidos usam IA regularmente ou ocasionalmente. Desse total, 56,6% afirmam que aplicam a IA como ferramenta para apoio à decisão clínica, como interpretação de sintomas e de informações relacionadas a diagnósticos. A pesquisa contou com 112 médicos de todo o Brasil e indica como esse recurso tornou-se uma realidade na saúde brasileira.
Os dados, diz Paulo Magnus, CEO da MV, indicam que o uso dessas ferramentas criou um tipo de acompanhante dos profissionais, sem substituir as etapas da avaliação olho no olho — fundamentais para a boa prática da medicina.
— A inteligência artificial atua hoje como um copiloto do médico, um assistente silencioso capaz de cruzar uma vasta quantidade de informações em segundos, mas jamais como um substituto do raciocínio clínico ou outras formas de pesquisa — afirma. — Embora 56,6% dos usuários ativos apliquem a IA no apoio diagnóstico (como sugestão de CID e interpretação de exames), ela serve para ampliar a capacidade analítica e antecipar cenários. Vale ressaltar que a decisão final será sempre do médico. Como o levantamento aponta, o cuidado humano continua sendo o protagonista.
Organização
Especialistas dizem, ainda, que usar a funcionalidade para organizar-se é um bom caminho. A ideia, explica Sávio Chami, ortopedista da Casa de Saúde São José, é usar a IA para encerrar a etapa de atendimento e documentar informações que possam ser úteis.
— O trabalho do médico não termina na consulta. Existe toda uma parte de documentação, solicitações, relatórios e orientações que também precisa ser feita. Na minha rotina, utilizo bastante a IA para ajudar a organizar esse trabalho. Um exemplo é a elaboração de documentos. Eu avalio o paciente, defino a conduta e explico o que preciso, muitas vezes por voz. A partir dessas informações, a ferramenta me ajuda a estruturar um relatório, uma solicitação de exame ou as orientações de um pós-operatório — conta. — Não estou pedindo que ela decida o tratamento. Uso a tecnologia para organizar e comunicar aquilo que eu já determinei. O conteúdo precisa passar pela minha revisão, e a responsabilidade continua sendo minha.
Nesse sentido, a IA pode ser aliada para resumir orientações para cuidar de um curativo, e, no caso da ortopedia, ilustrar restrições de apoio de membros sob cuidados médicos e até indicar movimentos que são permitidos. A IA resume e, no caso de Sávio, tudo é revisado antes de chegar ao paciente.
A opinião de Sávio vai na mesma direção do que diz Lara Salvador Geo, vice-presidente de inovação e experiência do paciente da Rede Mater Dei de Saúde. Por lá, um sistema com IA levou ao aumento de 308% no número de consultas e 212% de exames.
— A inteligência artificial pode ser útil de diversas formas, tanto para trazer mais agilidade, quanto para facilitar um agendamento, exame, consulta ou antes de uma ida ao pronto-socorro — comenta. — Para os médicos, a principal vantagem é a redução da burocracia e a devolutiva para estar mais tempo com o paciente.
Regras
Em agosto deste ano, as regras para o uso desse tipo de tecnologia, determinadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), entraram em vigor. A série de determinações não bane a inteligência artificial dos consultórios, mas dá a ela papel coadjuvante na relação entre especialista e médico. Em resumo, a orientação é que a IA pode até ajudar o especialista num diagnóstico, mas a determinação final deve ser tomada pelo profissional. Além disso, os pacientes devem ser informados de forma “clara e acessível” quando a IA fizer parte da dinâmica da consulta.
A entidade ainda enumera que as informações oferecidas pela plataforma devem zelar pela “integridade, confidencialidade e segurança garantida ao paciente”. Os hospitais que optarem pelo uso dessas ferramentas, por sua vez, devem criar um sistema de regras interno para garantir o uso correto.
Em comunicado publicado pela entidade, o relator da resolução, Jeancarlo Cavalcante, afirmou que “fica vedado delegar à inteligência artificial a comunicação de diagnósticos, prognósticos ou decisões terapêuticas sem a devida mediação humana. A utilização da ferramenta também não pode comprometer a escuta qualificada, a empatia, a confidencialidade ou a relação entre médico e paciente”.
A proteção de dados, explica Guilherme Rodrigues, médico oftalmologista com formação executiva focada em IA e editor do Afya News, é um ponto absolutamente sensível nessa dinâmica e merece atenção redobrada por parte dos especialistas.
— Não se pode tratar informações de pacientes como se fossem textos comuns enviados a qualquer plataforma. Antes de utilizar qualquer mecanismo do tipo é necessário saber onde esses dados serão processados e quem terá acesso a essas informações. Em sistemas pagos e intermediários das diferentes IAs disponíveis no mercado é possível desativar o uso de suas informações pessoais para o treinamento de ferramentas futuras — inicia. — Mas não acho que isso seja suficientemente seguro. O ideal, ao usar as ferramentas, é tirar dados sensíveis do paciente. Nomes, documentos, qualquer coisa que o identifique.
Pacientes
Não é só nas mãos dos médicos, porém, que esse tipo de ferramenta ganhou tração. Do outro lado da mesa, entre os pacientes, não faltam relatos de quem tira dúvidas sobre sintomas e tratamentos antes de procurar um especialista. Essa percepção é comprovada em uma pesquisa que ouviu 511 brasileiros, realizada pela Afya em parceria com o Conexa Research Center. Do total 49% das pessoas ouvidas já tinham buscado IA para obter dados sobre saúde.
A pesquisa ocorre com diversas finalidades, desde tirar dúvidas sobre sintomas, doenças ou diagnósticos (66% do total), interpretação ou explicação de exames e laudos (55%) ou busca de informações sobre medicamentos (49%).
Embora seja prático e rápido para quem busca, é preciso cautela ao apostar nesse tipo de ferramenta. Isso porque a máquina pode sugerir uma série de possibilidades que pouco tem a ver com o quadro real de saúde daquela pessoa. O diagnóstico médico, explicam os especialistas, mira em muito além do relato falado de sensações e sintomas. Inclui, por exemplo, a forma do paciente organizar suas ideias, a maneira que fala, caminha e até se está orientado ao chegar no consultório.
— Esses modelos que fazem parte dos desenvolvimentos das big techs não foram desenvolvidos, criados, para comportar-se de forma segura ao paciente. Eles têm algumas proteções, mas essas tecnologias são feitas para serem chats conversacionais. E, portanto, a resposta é desenhada para que a conversa não se encerre. Nesse sentido, ela pode reforçar vieses mentais que a pessoa já pode ter — explica Fabio Lario, Gerente Médico de Informática, do Hospital Sírio-Libanês. — Existe o risco de o modelo reforçar um medo que a pessoa tem e, por vezes, não era nem necessário que esse temor existisse. O ideal é não propor resolver seus problemas de saúde na IA, porque ela não foi treinada para isso. É importante checar a todo tempo se as informações vêm de fontes e informações idôneas.
O Sírio-Libanês, por sua vez, não abre mão dos desenvolvimentos próprios para aprimorar a prática médica. Lario conta que dentro da instituição são cerca de 60 algoritmos em uso (e mapeados) para colaborar com a prática diária. Esses desenvolvimentos, explica o especialista, não necessariamente estão envolvidos em modelos de linguagem. Eles podem, por exemplo, organizar dados internos e, além disso, identificar nos exames algumas alterações que inspiram preocupação e também trazem a necessidade de voltar ao médico em pouco tempo.
— Às vezes o paciente tem um retorno marcado, mas esquece. E, ao visitar o médico (depois de algum tempo), tem um caso avançado. Então, a ferramenta pode ser usada para resgatar essa pessoa que pode ter se esquecido da consulta quando o caso era inicial— diz o especialista.

IA já é realidade na prática médica, mas exige cautela