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‘A última coisa que desaparece no homem é o erótico’, disse Carlos Drummond de Andrade, em 1984

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julho 27, 2025
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"Sou um funcionário público aposentado e um jornalista em atividade. Nas horas vagas, como dizia Camilo Castelo Branco, sou um literato" — Foto: Alberto Jacob / Agência O Globo

Esta entrevista, publicada originalmente em 1984, foi reeditada em 2025, para a edição especial dos 100 anos do jornal O GLOBO. Carlos Drummond de Andrade foi colunista do jornal entre os anos de 1977 e 1987.

Sendo o poeta Carlos Drummond de Andrade pessoa sabidamente reservada e pouco propensa a prestar depoimentos em público, é natural que eu me surpreendesse quando, provocando-o mais uma vez pelo telefone a respeito de uma possível entrevista comigo, ele respondeu inesperadamente, com o seu jeito apressado: “Se você quiser mesmo, eu topo.”

Antes que o meu futuro entrevistado mudasse de ideia, mandei-me, gravador em punho, para o apartamento do Posto 6. Com certa cerimônia, sentamo-nos diante da mesa de madeira não envernizada, porque o poeta tem o hábito de raspá-la cuidadosamente com gilete sempre que identifica qualquer mancha de tinta. Esses pequenos trabalhos manuais lhe serviram, na mocidade, para canalizar a agressão que represava em si mesmo: “Eu precisava disso para não assassinar ninguém e dar vazão aos meus impulsos agressivos. Acho legítimo.”

Sobre o próximo livro de poemas, Drummond encontrou o título que andava buscando: “Corpo”. Pergunto-lhe se essa palavra não estaria antecipando a publicação de seus poemas eróticos, há tanto escondidos na gaveta. Ele concorda:

Pretendo, sim, reuni-los algum dia em edição ilustrada. O assunto é precisamente o corpo, as operações amorosas, contadas com simplicidade e pureza, numa tentativa de magnificação do amor carnal, que, com raras exceções, tem sido muito sufocada na nossa tradição literária.

Mais de uma vez você já me disse não acreditar no amor. Agora você me pôs numa enrascada. Não acredito no amor como fatalidade biológica, através da qual duas pessoas se entreguem uma à outra irremediavelmente. Mas acredito no sentimento amoroso, que vai de uma criatura a outra, envolvendo o universo, a natureza, da qual me sinto muito próximo. O amor é frágil, condicionado às limitações humanas, já que dentro de nós não temos apenas quatro estações, mas inúmeras, que não são sucessivas e sim imbricadas umas nas outras.

E como é o amor na velhice?

Minha experiência demonstra que a última coisa que desaparece no homem é o sentimento amoroso erótico. Faltando os meios físicos para a sua realização completa, a parte ideal prevalece sobre a outra. Mas se somos capazes de cultivar esse sentimento, mesmo sob uma forma moderada, estamos em dia com o amor.

“Sou um funcionário público aposentado e um jornalista em atividade. Nas horas vagas, como dizia Camilo Castelo Branco, sou um literato” — Foto: Alberto Jacob / Agência O Globo

Nenhum velho ousaria afirmar o contrário.

  • Leia mais: A Primeira Página do GLOBO: registros históricos, leveza e impacto
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Mas você realmente não pode ser considerado velho, no sentido estrito da palavra. Sai todas as tardes, de tênis e jeans…

Não é o tênis que caracteriza a juventude. Por outro lado, nunca tive coragem de usar bermuda na rua, porque minhas pernas não se parecem com as de Luiza Brunet. O terrível na velhice é a própria velhice. Como já assinalou Pedro Nava, vão se perdendo as coisas essenciais dos sentidos, que passam a não responder mais aos nossos chamados e impulsos.

A velhice lhe ensinou muitas coisas?

Poucas. Teria me ensinado mais, se eu tivesse tido uma militância política, militar ou literária. E digo bem porque não me considero um literato profissional.

Sou um funcionário público aposentado e um jornalista em atividade. Nas horas vagas, como dizia Camilo Castelo Branco, sou um literato.

O que é para você um literato?

Um homem cuja vida consiste em fazer livros.

Mas você não fez cerca de 40?

Até hoje não fiz nenhum. Vou juntando textos, crônicas e versos esparsos, mas nunca me sentei para fazer um livro, na expressão rigorosa do termo.

Discordo do poeta: ele não é um romancista ou um ensaísta, mas dará tão pouco valor à poesia, a ponto de julgar seus livros de poemas apenas colagens? Drummond não se dá por vencido:

Dou tanta importância, que me considero um mau cultor da poesia, pois nunca me dediquei a ela como a um valor superior. Nos primeiros tempos, fiz uma poesia de que necessitava para me expurgar e exorcizar, expulsando os meus demônios. Fiz isso instintivamente, valendo-me do verso livre, e obtive dela esse benefício. A que faço hoje, embora amarga, como é o fundo do meu espírito, é bem menos grave e agressiva.

Observo-lhe que Deus ocupa um espaço importante, atualmente, em seus versos, e ele concorda:

É verdade, mas você não imagina como Deus me chateia. Não creio nele, numa organização superior que tenha esse nome. O argumento de que não existe nada sem um poder gerador não me satisfaz, porque fico matutando que, se Deus gerou o mundo, quem gerou Deus? Ele é, para mim, uma incógnita, que me preocupa no sentido poético.

Lembro-me de que um dia você me disse que se considerava um homem feliz. Isso continua sendo verdade?

Não fui feliz, nem infeliz, porque a felicidade é um estado transitório e os momentos de plenitude são seguidos de uma dor de barriga, uma dor de dente, a conta por pagar. Não fiz força para viver, minha vida se construiu ao sabor do acaso, quase à minha revelia, sem um projeto arquitetônico, sem estudo. Mas tive a sorte de rodear-me de amigos excelentes, que me ajudaram, incentivaram e me salvaram do desânimo. Nesse sentido, posso dizer que sou um homem feliz.

Quero saber o que pensa Drummond sobre sua filha.

Sendo única, é natural que ela me interesse concentradamente, mas sinto entre nós, sobretudo, uma grande camaradagem de espírito, uma enorme liberdade, que me permite manter com ela conversas que eu não teria com outro amigo.

E como vê os defeitos e fraquezas que ela tem?

Não julgo minha filha, como ela também não me julga. Somos amigos, e os amigos não se julgam.

O poeta Carlos Drummond de Andrade era tímido e não costumava dar entrevistas. Recusou inúmeros pedidos da própria filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, jornalista e colunista do GLOBO entre 1977 e 1987. Quando ela quase já tinha perdido as esperanças de um tête-à-tête em família para o jornal, eis que o poeta a surpreende. A conversa entre pai e filha se deu em 1984, apenas três anos antes da morte de Drummond. Eles conversam sobre literatura, mas adentram assuntos que só mesmo a intimidade coloca na mesa. Assim ficamos sabendo que Drummond cultivou formas de controlar sua agressividade, não acreditava no amor, tinha poemas eróticos na gaveta e dúvidas existenciais em relação a Deus. Ah, sim, ele se orgulhava da filha, a quem considerava sua herdeira natural.

‘A última coisa que desaparece no homem é o erótico’, disse Carlos Drummond de Andrade, em 1984

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