Esta entrevista, publicada originalmente em 2023, foi reeditada em 2025, para a edição especial dos 100 anos do jornal O GLOBO. Quando conversou com a repórter Renata Izaal, Malala tinha 25 anos, acabara de se formar em Oxford e de se casar.
Malala Yousafzai tinha 15 anos quando um homem armado entrou no ônibus escolar, chamou-a pelo nome e atirou três vezes. Era outubro de 2012, e sua história todos nós conhecemos: a cirurgia de emergência em Peshawar, em seu Paquistão natal, a recuperação em Birmingham, no Reino Unido, o discurso na ONU um ano após o atentado, a pessoa mais jovem a ganhar o Nobel da Paz, em 2014. Mas a Malala que está no Brasil pela segunda vez não é mais uma menina. Ela é formada em Filosofia, Política e Economia pela Universidade de Oxford e dá nome a um fundo que apoia e financia projetos de educação em nove países, incluindo o Brasil. Tem um livro publicado (“Eu sou Malala”, editado pela Companhia das Letras, vendeu mais de 350 mil exemplares no Brasil), um documentário que concorreu ao Oscar, casou-se.
Malala agora é uma mulher, mas mantém aceso o sonho da garota que fez o planeta inteiro torcer por sua plena recuperação: deseja que todas as meninas tenham acesso à educação de qualidade. É por isso que veio ao Rio, onde abrirá o Ler — Salão Carioca do Livro. Com mediação da jornalista Maju Coutinho, falará para 8 mil pessoas no Maracanãzinho.
Em entrevista ao GLOBO, a ativista fala sobre educação, extremismo religioso e misoginia. Diz que é urgente uma ação internacional pelos direitos de meninas e mulheres no Afeganistão, mais uma vez reféns do Talibã, e que, mesmo dez anos após o ataque que quase lhe custou a vida, não parou de sonhar com um futuro diferente para garotas que, como ela, querem estudar.
Em 2013, você e seu pai criaram o Fundo Malala, que apoia projetos educacionais para meninas e mulheres em nove países. Por que colocou o Brasil entre eles?
Não olhamos apenas o aspecto macro. Se olharmos só para isso, o Brasil tem um panorama melhor do que outros países. O que me chamou atenção aqui é a alta evasão escolar. É de partir o coração que em comunidades indígenas e quilombolas apenas 30% das meninas completem o ciclo escolar. Isso é um enorme desafio para vocês. Eu aprendi na região de onde eu venho (Malala nasceu em Mingora, no Vale do Swat, norte do Paquistão) que muitas vezes não é dada a devida importância a certos grupos, especialmente os de baixa renda. Por isso escolhi o Brasil.
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Seu fundo apoia 11 projetos no Brasil. Em que áreas atuam?
Chamamos esses 11 projetos de campeões da educação. Eles trabalham em áreas como pesquisa sobre discriminação racial e de gênero nas escolas, treinamento para educação contextualizada em quilombos e aldeias indígenas, proteção do direito à educação de meninas negras e o monitoramento de políticas públicas, orçamentos e do processo democrático nas esferas federal e estadual. O que todos eles têm em comum é o fato de colocarem meninas e mulheres para tomarem decisões. Não são inspirados nelas nem têm o foco nelas. Eles são liderados por elas. São as meninas e as mulheres que escrevem manifestos, organizam protestos, pesquisam e discutem seus futuros com as lideranças políticas do Brasil.
Essa liderança feminina faz falta nas discussões sobre extremismo religioso, já que os nossos direitos são os primeiros a serem banidos?
Certamente. Na maioria das religiões, os homens controlam a narrativa e usam a religião como uma desculpa para a sua misoginia. Se tirarmos deles o livro sagrado, facilmente encontrarão um outro para usar como desculpa. Então acho que é importante darmos às mulheres a chance de dividir com a sociedade as suas interpretações desses livros. Mas acredito que é ainda mais importante nos certificarmos de que todos tenham acesso a uma educação de qualidade que estimule o pensamento crítico. Só o pensamento crítico nos faz questionar as informações que recebemos.
As mulheres questionam o Talibã desde a saída das forças americanas, em 2021, mas parecem fazer isso sozinhas. Elas foram abandonadas pela comunidade internacional?
Sempre esperamos que alguma coisa vai ser feita no mês que vem, ou no outro, mas quando vemos já passou um ano e meio desde que os EUA saíram e o Talibã proibiu que meninas e mulheres estudem. A História nos mostra que eles já fizeram isso, então os líderes globais precisam acordar. Eles têm que ter a mesma urgência que as afegãs têm.
Você tem esperança de mudanças no Afeganistão?
Há uma coisa que está diferente agora. As meninas e mulheres do Afeganistão estão despertas. Elas ainda protestam, em Cabul e outras cidades, pelo seu direito à educação. Muitas foram presas, machucadas e torturadas. Essas mulheres têm colocado suas vidas em risco porque não veem um futuro sem educação. Elas organizam aulas online e criam escolas secretas, por exemplo. Por isso, acho que ainda há esperança.
Imaginar é importante. Eu acredito nesse meu sonho e que podemos criar um mundo que seja mais justo e onde cada criança tenha acesso ao conhecimento, educação e informação necessários para construir um futuro para ela, sua comunidade e seu país.
Soube que você é fã de “O Alquimista”, do Paulo Coelho.
Quando ainda vivia no Paquistão, este foi um dos primeiros livros que li. Na escola, éramos limitados aos livros acadêmicos, então foi muita sorte encontrar “O Alquimista”. A história do menino que vai em busca de seus sonhos me deu a certeza da minha missão. Mas, hoje, tenho gostado particularmente de ler livros escritos por mulheres jovens, sobretudo os primeiros livros delas.
Por que os primeiros livros?
Porque todos temos receio de compartilhar nossas histórias. Eu vivo dizendo para as meninas contarem suas histórias, seja ficção ou não, porque isso é importante. Elas hesitam, e eu entendo que é preciso encorajá-las. Acho que, no fundo, o que eu gosto é de ver a perspectiva feminina desabrochando nos livros.
Em sua segunda vinda ao Brasil, em 2023, Malala Yousafzai conversou com o GLOBO antes de falar para milhares no Rio de Janeiro. Ela tinha 25 anos, acabara de se formar em Oxford e de se casar. Além de acompanhar de perto os projetos financiados pelo fundo que ainda hoje leva seu nome, a paquistanesa usava sua voz para chamar atenção da comunidade internacional para os direitos de meninas e mulheres no Afeganistão. Na ocasião da entrevista, os EUA tinham se retirado do país, após 20 anos de presença militar, abrindo espaço para o retorno do Talibã ao poder. Imediatamente, o grupo extremista proibiu o acesso de meninas e mulheres às escolas. Hoje, a situação é ainda mais grave: elas estão proibidas de cantar, circular em público e até mesmo irem às janelas de suas casas. Malala, a mais jovem ganhadora do Nobel da Paz, em 2014, tem feito campanha em todo o mundo para o que acontece no Afeganistão seja chamado de apartheid de gênero.