Por mais de duas décadas, Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, foi um dos nomes mais temidos do tráfico carioca. Fundador da facção Amigos dos Amigos (ADA), ele passou 25 anos na prisão, de onde fugiu duas vezes e sobreviveu a uma das mais sangrentas rebeliões em Bangu 1, em 2002, quando aliados seus foram mortos por ordem de Fernandinho Beira-Mar. Solto em outubro de 2022, aos 61 anos, Celsinho afirmava estar decidido a não voltar para o crime. Fora das grades, virou empresário do ramo de carne suína e passou a frequentar com destaque a quadra da Unidos de Padre Miguel (UPM), escola de samba da Vila Vintém, comunidade da Zona Oeste do Rio onde cresceu e comandou o tráfico.
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Dois anos depois, no entanto, ele voltou à prisão. Aos 63, Celsinho foi preso nesta quinta-feira, durante operação da Polícia Civil na Vila Vintém, Zona Oeste do Rio. As investigações apontam que ele vinha se articulando com lideranças do Comando Vermelho (CV), grupo rival ao que fundou, para retomar territórios dominados por milicianos na Zona Oeste, especialmente em Santa Cruz. A prisão ocorreu no âmbito da Operação Contenção, que busca frear o avanço do CV na região. Desde o início da ofensiva, a Justiça já autorizou o bloqueio de mais de R$ 6 bilhões em bens ligados à facção.
Celsinho da Vila Vintém mostra riqueza com cordão ostentação
Antes da nova prisão, a tentativa de mudança de vida de Celsinho foi registrada nas redes sociais. Em vídeos publicados no Instagram da empresa “Pork Vintém”, o ex-traficante aparece de botas e camiseta verde, acariciando porcos de até 270 quilos num chiqueiro montado na própria favela onde nasceu. A iniciativa empresarial contrastava com outras imagens: sem camisa, ostentando um cordão de ouro, ele também era visto circulando pela quadra da Unidos de Padre Miguel cercado de seguranças igualmente adornados com joias. Os vídeos lembravam cenas da série documental “Vale o Escrito”, do Globoplay, sobre os bastidores do jogo do bicho e do submundo carioca.
Em 2023, Celsinho apareceu numa fotografia ao lado dos ex-chefes do tráfico Alexander Mendes, o Polegar, ex-chefe na Mangueira, e Amabilio Gomes, o MB, e Nei da Conceição, o Facão, ex-chefes do Complexo do Alemão. Eles participavam de um evento de encerramento das gravações da série TV “Veronika”.
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Celsinho não exercia cargo formal na escola, mas era considerado patrono informal ao lado da esposa, Deise Mara de Sousa Rodrigues, presença constante nos bastidores da agremiação. Foi ela quem apareceu na entrega do troféu da Série Ouro em 2024, após a vitória da UPM com o enredo sobre Padre Cícero. A neta do casal, Lara Mara Rodrigues da Costa, de 19 anos, era diretora de carnaval da escola e assumiu a presidência após o desfile desse ano. Ela tatuou na perna o símbolo do boi vermelho, que representa a UPM, junto da frase: “O samba é o remédio da alma”.
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Lara foi uma das netas que mais visitou Celsinho enquanto ele cumpria pena no Complexo de Gericinó. Com histórico de bom comportamento, ele chegou a convencer rivais a pouparem sua vida durante a rebelião de 2002, embora nunca tenha ficado claro se, naquele episódio, mudou de facção para sobreviver.
Pouco antes do carnaval deste ano, em entrevista ao GLOBO, Lara falou sobre a relação com o avô:
— Eu sei das coisas que ele fez, não sou hipócrita. Mas, graças a Deus, minha relação com ele sempre foi de avô e neta. Ele é super carinhoso e atencioso comigo. Até se preocupa com minha exposição no carnaval. Sempre fala: “Minha filha, você quer ser advogada e tal”. Mas ele nunca interferiu nas minhas decisões — comentou a jovem, quando Celsinho estava em liberdade condicional.
Com origens em um terreno do Exército ocupado na década de 1920, a Vila Vintém também é berço de duas escolas de samba históricas — a Mocidade Independente de Padre Miguel e a própria UPM, fundada em 1957. Nos anos 1990, a comunidade ganhou notoriedade nacional ao se tornar associada ao nome do então bandido mais procurado do Rio: Celsinho da Vila Vintém.
