O Papa Francisco abriu novos caminhos para a Igreja e seu sucessor não poderá voltar atrás. Quem afirma é Raffaele Luise, um dos vaticanistas mais conhecidos na Itália. Autor de diversos livros sobre o catolicismo, o jornalista da RAI afirma que o Vaticano vive “um clima novo” e que a nacionalidade do novo Papa será apenas um detalhe. “Francisco foi um profeta, e nenhum Papa poderá retroceder no que ele fez”.
- Sucessão de Francisco: Veja a cobertura completa do conclave
- Passo a passo: Como funciona a eleição do novo Papa? veja em infográficos
Apesar dos elogios, ele diz que o Pontífice argentino falhou ao permitir o aumento das divisões na Igreja. Por isso, acredita que o próximo Papa terá um perfil mais conciliador. Em 40 anos cobrindo o Vaticano, Luise já fez 120 viagens internacionais com três Papas: João Paulo II, Bento XVI e Francisco. No Brasil, é amigo de expoentes do catolicismo progressista, como Frei Betto e Leonardo Boff. Veja os principais trechos da entrevista:
Qual a sua previsão para o conclave?
Não me preocupo com quem será o novo Papa. Hoje há um clima novo em relação a 20 anos atrás. Não há mais aquela contraposição, aquela polêmica feroz entre tradicionalistas e progressistas. O grande Papa Francisco abriu o caminho que a Igreja deve seguir, o da pastoralidade. De uma Igreja aberta a todo o mundo, das periferias ao centro.
Os 133 cardeais eleitores são de 71 países. Isso é um símbolo dessa Igreja em saída, pastoral, que se confronta com o mundo. Não só com o mundo geopolítico, mas com o mundo da natureza, com a Mãe Terra. Nesse sentido, a Laudato Si é a Magna Carta do terceiro milênio. O Papa Francisco foi um profeta, e nenhum outro Papa poderá cancelar ou voltar atrás nisso.
- ‘No Habemus Papam’: Pela segunda vez, fumaça preta no Vaticano indica que novo Papa ainda não foi escolhido
Que perfil espera do novo Papa?
O novo Papa deve ser um pastor e, acima de tudo, ter coragem. O mundo está dividido, polarizado. E cada vez mais difícil de governar por causa da tecnocracia, que é a nova forma de poder. Há o problema da crise ambiental e da pobreza, que continuam a crescer. As guerras em curso estão mudando a ordem política internacional.
Antes do conclave, as congregações se moveram na direção de um Papa pastor. Isso se traduz num clima novo, mais ameno, mais gentil, que entende que a controvérsia e a polêmica não valem a pena.
Fumaça preta sai da chaminé da Capela Sistina do Vaticano pelo segundo dia consecutivo
Francisco foi um Papa popular, mas encontrou muita resistência interna na Igreja. Por quê?
Francisco era popular, mas não populista. Ele era o Papa das pessoas simples e dos descartados, que vivem no Sul do mundo. Isso não poderia agradar ao Ocidente, que se viu privado de um grande poder e por isso se opôs tanto ao Papa.
Veja o que aconteceu na Europa, na África, nos Estados Unidos. O fato de o Papa abrir a Igreja para a China foi visto como uma provocação pelos americanos.
- Entenda: Como o novo Papa escolhe seu nome? Veja o que está por trás da decisão
Que reformas e polêmicas esperam o novo Papa?
Há uma questão que enfrenta muita resistência na África, na Polônia e nos Estados Unidos: o diaconato feminino, a ideia de dar um papel maior para a mulher na Igreja. Esse é um desafio para o próximo Papa.
O Sínodo da Amazônia levantou a questão dos homens casados poderem se tornar padres. Na região, existem comunidades que só veem um pároco uma ou duas vezes por ano. Isso é um grande problema.
- Maioria entre os católicos: Mulheres ainda ocupam papel secundário na Igreja e ficam de fora dos espaços de decisão
Bento XVI avançou na ordenação de homens casados quando aceitou na Igreja bispos anglicanos que já eram casados e se converteram ao catolicismo. Mudar a regra atual exigiria uma pequena modificação do Código Canônico.
Mas a Igreja não está totalmente preparada para lidar com esses problemas, por isso o Papa precisará ser corajoso. E por isso o Papa precisará ter uma verdadeira equipe, que funcione como correia de transmissão para transmitir suas decisões à Igreja em todo o mundo.
- Pedofilia, diplomacia, mulheres, finanças, divisões internas: Saiba quais serão os desafios do próximo Papa
Nos debates pré-conclave, muitos cardeais disseram que a Igreja precisa se unir. Quais são as divisões mais importantes hoje?
Existe uma Igreja do sul do mundo, onde Cristo está em movimento, e uma Igreja europeia e norte-americana, mais tradicionalista. O Sul privilegia os valores da igualdade, do amor, da caridade, dos direitos sociais. O Norte ainda é muito sexofóbico. Trata a questão do sexo, da ética sexual, como algo mais importante que a questão social.
O novo Papa precisará ter o olhar de Francisco para as periferias, mas também deve buscar a conciliação. As diferenças são perigosas. Nisso o Papa Francisco falhou. Ele nem sempre soube manter a unidade da Igreja, que se fragmentou.
- Campanha on-line: Conclave atrai torcida de fãs de K-pop com filipino, brasileiros com cardeal vascaíno e mais
Francisco modernizou o discurso, mas não mexeu nos dogmas da Igreja. O próximo Papa conseguirá fazer isso?
Houve um santo jesuíta que dizia que os dogmas não são absolutos, são relativos. Vão mudando ao longo da História. Uma coisa é o depositum fidei, o centro da doutrina: Trindade, encarnação, ressurreição. Isso não se muda.
Os dogmas sexuais e o dogma de que só o homem pode ser padre são puro clericalismo. Foram introduzidos no primeiro milênio, por volta do ano 1100.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/9/U/nVb8VoQ7GURMW6g4eiYA/110836469-a-nun-reacts-during-late-pope-francis-funeral-ceremony-in-central-rome-on-april-26-20.jpg)
Mais que mudar dogmas, é preciso mudar o Código de Direito Canônico. Por exemplo, para permitir que as mulheres sejam diaconisas. Essa proibição foi estabelecida no século XI. É uma lei humana, não uma lei divina.
Os dogmas que são leis humanas podem ser mudados. Mas é preciso um trabalho preparatório para isso: conferências episcopais, diálogo entre centro e periferia. Se você coloca a questão dizendo “temos que mudar os dogmas”, você cai na armadilha dos conservadores, porque isso assusta as pessoas.
- Gráficos interativos: Conheça a Capela Sistina, local onde cardeais se reúnem para escolher o novo Papa
Como vê a expectativa por um Papa italiano depois de 47 anos?
Sou italiano e não vejo a necessidade de os cardeais elegerem um Papa italiano. Os franceses não têm um Papa há 650 anos! A nacionalidade do novo Papa não é importante. Talvez a única exceção seja os Estados Unidos. Os americanos já são os donos do mundo e não podem ter também o poder espiritual e temporal de um Papa.
O importante é que o novo Papa atenda a esse perfil: seja um pastor que conhece o mundo, tenha coragem e seja auxiliado por uma boa equipe. E ele deve ser relativamente jovem, porque o mundo ficou muito difícil de administrar e a Igreja está em crise.
- Quem são os favoritos para suceder ao Papa? Conheça os cardeais mais cotados
A Ásia também pode sonhar com um Papa?
Pode, mesmo tendo só 2% ou 3% de católicos. É um continente de grandes tradições religiosas e culturais e que não pode ficar preso à ditadura chinesa ou à ditadura russa. A Igreja pode fazer isso por meio do diálogo. Com acolhimento, participação e libertação.
A Ásia tem bons nomes, como o filipino Luis Tagle. Ele é uma figura digna, embora não tenha ido bem no comando do Dicastério para a Evangelização. Além dele, há o cardeal coreano Lazaro You Heung-sik, que trabalhou muito bem como prefeito da Congregação para o Clero. Ele é um personagem que, mesmo que não seja eleito, poderá integrar o círculo que auxiliará o novo Papa na gestão da Igreja.

