Uma partida de futebol estúpida, apavorante e vergonhosa. Foi com essas palavras que o locutor David Coleman, da emissora britânica BBC, descreveu o jogo entre Chile e Itália durante a Copa do Mundo de 1962, no Chile. Válido pela fase de grupos daquele mundial, que terminaria com o Brasil se sagrando bicampeão, o confronto foi marcado pela violência dentro de campo. Coleman não estava falando só de faltas duras em lances de jogo. Os jogadores trocaram socos e até voadoras entre eles.
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Foi tanta pancadaria ao longo de 90 minutos que a partida, realizada no Estádio Nacional, diante de mais de 66 mil pessoas, entrou para a história das Copas como a Batalha de Santiago. E, não por menos, o árbitro do jogo, o veterano Ken Aston, inventaria, anos mais tarde, o uso dos cartões amarelo e vermelho dentro de campo. Muita gente acha que esses símbolos de punição existem desde o início da popularização do futebol, mas, na verdade, eles foram adotados na Copa de 1970, no México.
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Vídeos com faltas duras no futebol de antigamente são fáceis de encontrar circulando nas redes sociais. Imagens de confrontos entre Brasil e Argentina ou entre Flamengo e Vasco nos anos 80 e 90 impressionam quem não acompanhava as competições naquela época e deixam evidente que o esporte da bola era bem mais violento do que atualmente.
Hoje, um atleta como o zagueiro Júnior Baiano, ídolo do Flamengo nos anos 1990, mas famoso pelo estilo bastante agressivo, não ia durar muito tempo em campo antes de ser expulso. Da mesma forma, um atacante como Neymar Jr., que sempre reclama da violência dos marcadores, não conseguiria dar dois passos com a bola no pé sem cair no gramado, se fosse naquela época.
Parece que, quanto mais a gente volta no tempo, mais violento era o futebol, até pela falta de regras mesmo. Pelé e companhia sofreram isso na carne na primeira rodada da Copa de 1966, na Inglaterra, quando o rei do futebol foi caçado durante o jogo contra a Bulgária. O nosso camisa 10 apanhou muito e nem pôde entrar em campo na segunda partida, contra a Hungria, que acabou vencendo a seleção por 3 a 1. Esse aliás foi um dos motivos pra eliminação precoce do Brasil naquele Mundial.
Mas ninguém nunca viu nada como a Batalha de Santiago. Antes mesmo da partida, já havia muita rivalidade entre as equipes. Os jornais italianos La Nazione e Corriere de la Sierra tinham publicado artigos detonando a miséria social e a infraestrutura precária do país sede. O Chile, naquela Copa, ainda estava se recuperando de um terremoto devastador ocorrido dois anos antes, em Valdivia.
Jornalistas da época relataram que os jogadores chilenos ficaram mordidos com as críticas feitas pelos estrangeiros e entraram em campo contra a Itália com sangue nos olhos, mas os adversários não deixaram barato. Em uma das agressões mais comentadas, o italiano Mauro David atingiu Leonel Sánchez com uma voadora absurda, minutos depois de receber um soco de Sanches no rosto.
Dois italianos foram expulsos ao longo da partida, entre eles, o meio-campista Giorgio Ferrini, que se recusou a sair e só deixou o campo sob escolta policial. Com dois jogadores a mais, os donos da casa venceram por 2 a 0. Os jornais italianos reagiram com manchetes repudiando o árbitro. Em entrevistas anos mais tarde, Aston disse que pensou em terminar o jogo antes do tempo regulamentar, mas não o fez por entender que não conseguiria garantir a segurança dos italianos para deixar o estádio.
Dois anos depois, Aston se aposentou dos gramados, mas, na Copa de 1966, na Inglaterra, ele era o responsável pelos juízes do torneio. Depois de um jogo muito confuso entre Argentina e Inglaterra, o inglês entendeu que os árbitros precisavam de recursos visuais para se comunicar com atletas em campo, independentemente do idioma. Ele, então, se inspirou nos sinais de trânsito para criar os cartões amarelo e vermelho, que apareceram pela primeira vez na Copa de 1970.

