Por trás da ação policial que deixou sete pessoas no último domingo em Macapá, está uma disputa entre as duas maiores facções criminosas do país: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O delegado-geral do Amapá, Cezar Augusto Vieira, afirmou ao GLOBO que a inteligência da Polícia Civil do estado já vinha monitorando a atuação desses grupos rivais na região. “Alguns dos mortos já tinham envolvimento com o tráfico e pertenciam ao Comando Vermelho. A ocorrência está inserida nesse contexto de disputa entre facções pelo controle territorial no Amapá”, explicou.
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A ação ocorreu no bairro Pantanal, Zona Norte de Macapá. As vítimas estavam dentro de um carro modelo Onix Plus branco quando foram alvejadas por agentes do Patrulhamento Tático Motorizado (Patamo). Segundo a Polícia Militar do estado, os ocupantes reagiram à abordagem com disparos, o que teria motivado o revide.
Entre os mortos estão Erick Marlon Pimentel Ferreira, conhecido como Billy e apontado como responsável pela logística do PCC na região; o jogador de futebol Wendel Cristian; e o adolescente Max Dias Toloza, de 14 anos. Os demais eram Thiago Cardoso da Fonseca, Emanuel Brayan Pimentel Ferreira, Wesley Jhonata Monteiro Ribeiro e Cleiton Ramon da Silva Pereira.
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De acordo com a Polícia Civil do Amapá, que investiga o caso, com exceção do jogador de futebol (Wendel), todos os mortos pertenciam à facção local Família Terror do Amapá (FTA), aliada ao PCC. “O Wendel tinha vínculo por afinidade”, disse o delegado-geral. Já os nove policiais envolvidos foram afastados das funções por determinação do governador Clécio Luís (Solidariedade).
Outro morto, Erick Pimentel, de 28 anos, já havia sido preso em flagrante em 25 de setembro de 2024, conforme atesta o inquérito da Delegacia Especializada em Tóxicos e Entorpecentes (Dete). Ele foi autuado por tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo e associação para o tráfico, após ser flagrado em um hotel da Zona Norte de Macapá com porções de entorpecentes, uma balança de precisão, dinheiro em espécie, dois celulares e um revólver calibre .32. Relatórios da inteligência apontam que ele atuava no fornecimento e distribuição de drogas do PCC na capital e no interior do estado.
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Durante o velório de Erick e de seu irmão Emanuel — que também morreu na ação e era soldado do Exército —, a mãe deles, Amanda Camila Pimentel, de 49 anos, fez um desabafo. Ela é apontada pela Polícia Civil como uma das mais antigas e influentes traficantes da FTA, com diversas prisões por tráfico. “Se eu soubesse que os meus filhos iam pagar pelo meu erro, eu jamais teria envolvido eles nisso”, admitiu. Amanda afirmou ter abandonado a vida criminosa e contou que os dois filhos foram criados na igreja. “Lamento que, mesmo afastada do tráfico, meu passado tenha contaminado o destino deles”, desabafou aos prantos.
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De acordo com relatório da inteligência da Polícia Civil, o PCC foi a primeira facção nacional a se estabelecer no estado, por volta de 2017. Dentro das galerias do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen) — única unidade prisional do estado —, a organização selou aliança com a facção local FTA. O CV chegou no ano seguinte, em 2018, e se fundiu com outras duas facções regionais: a Amigos para Sempre (APS) e a União Criminosa do Amapá (UCA), formando um bloco rival ao PCC e à FTA.
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De janeiro de 2023 a abril de 2025, 638 pessoas morreram no estado em decorrência direta de confrontos entre facções, segundo dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Amapá (Sejusp).
Pelo levantamento da inteligência, as principais lideranças do crime organizado no estado são: Tiago Pantoja Borges, o “Espeta” (FTA); Paulo Brandão da Silva, o “Maestro” (APS); Domingos Ferreira Gomes, o “Domingão” (UCA); Maick Wesley da Costa Martins, o “Guina” (PCC); e Antonio Marcos Santos Borges, o “Marquinhos CV” (CV), preso recentemente.
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No Amapá, o tráfico de drogas se aproveita da geografia amazônica e da fragilidade das fronteiras com o Suriname e a Guiana Francesa. “O estado virou uma rota estratégica do tráfico por causa dos rios, da proximidade com fronteiras internacionais e da vulnerabilidade logística. A droga entra por barco, por terra, por via aérea e até por submarino”, disse o delegado-geral.
Um dos casos mais emblemáticos desse tipo de tráfico ocorreu em março de 2025, quando a Marinha de Portugal interceptou no oceano Atlântico, a 550 milhas náuticas das Ilhas dos Açores, um submarino artesanal carregado com 6,6 toneladas de cocaína. A embarcação havia zarpado da foz do rio Amazonas, em Macapá, com destino ao porto de Sines, em Portugal. As investigações apontam que o submarino foi construído clandestinamente no Amapá com apoio de colombianos e financiamento de um braço do PCC.
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Três brasileiros, um colombiano e um espanhol foram presos na operação internacional batizada de Nautilus, que contou com apoio da Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos (DEA), da Agência Nacional contra o Crime do Reino Unido (NCA), da Polícia Judiciária de Portugal e da Força Aérea Portuguesa. No Brasil, a Polícia Civil do Amapá instaurou inquérito e identificou vínculos entre os construtores da embarcação e integrantes do crime organizado local, revelando o grau de sofisticação e internacionalização das facções que atuam no estado.
