A profusão de cursos de baixa qualificação para a formação de supostos terapeutas no país tem se tornado uma preocupação para os profissionais da psicologia brasileira. Disponíveis on-line e oferecidos em redes sociais, esses cursos muitas vezes têm pouco tempo de duração, não exigem curso superior do interessado e chegam a sugerir que o profissional já está preparado para o atendimento depois da conclusão. Esse mercado tem se formado em um momento em que o Brasil bate recorde de pessoas com doenças mentais, como ansiedade e depressão, e, ao mesmo tempo, vê explodir o número de alunos em cursos superiores de Psicologia.
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— Há uma grande preocupação sobre esses cursos porque eles enganam a maior parte das pessoas que buscam um atendimento qualificado e recebem muitas vezes aconselhamento religioso ou opiniões pessoais, não baseadas em evidências. Isso tem um potencial de promover culpa, mais sofrimento e aumentar sintomas de ansiedade e depressão. Há até programas de “cura gay” disfarçados de psicoterapia qualificada — afirma Héder Bello, psicólogo clínico que pesquisa danos em psicoterapia.
Um dos cursos localizados pelo GLOBO cobra apenas R$ 50 pelo diploma depois de 12 aulas gratuitas que, juntas, possuem dez horas de conteúdo e anuncia que, ao final, “pode ser que” o estudante “já se sinta preparado para oferecer os primeiros atendimentos”. O material didático, além de ensinar “o que cura o paciente” e “para onde” conduzi-lo, também inclui aulas de marketing. Uma das poucas referências teóricas citadas é de Viktor Frankl, principal autor de uma abordagem específica conhecida como Logoterapia. A grafia de seu nome surge de forma incorreta em todas as menções, como “Victor”.
“Percebeu que não me aprofundei em técnicas (de atendimento) específicas? A razão é simples: as técnicas podem ser descobertas e aprendidas ao longo do tempo”, afirma o conteúdo de uma das últimas aulas. “Ao utilizar essas bases, você conquistará resultados palpáveis com seus pacientes, contribuindo para a redução das estatísticas preocupantes de depressão, ansiedade, suicídio e problemas conjugais. Meu intuito é proporcionar a você um solo firme e fértil para que plante as sementes das técnicas apropriadas”.
Entre os ensinamentos do curso, há o que diz que uma boa forma de começar a dar os primeiros passos na profissão é “oferecer atendimentos gratuitos, não apenas para amigos, mas para pessoas em sua comunidade” ou tornar-se o “terapeuta da roda”. Um conselho da formação é “observe as conversas das pessoas como se estivesse ouvindo dentro de um consultório”.
— O papel de um psicoterapeuta exige imparcialidade sobre questões no grupo, técnica e ética, além de um certo distanciamento. Coisas incompatíveis com vínculos afetivos próximos, como os da amizade — diferencia Bello, que coordena o grupo de Psicologia e Laicidade do Conselho Regional de Psicologia no Rio.
O Brasil vive uma crise de saúde mental, cenário similar ao que tem sido visto ao redor do mundo. Em 2024, o país registrou o maior número de afastamentos do trabalho por ansiedade e depressão em dez anos. Levantamento do Ministério da Saúde mostra que os atendimentos relacionados a transtornos de ansiedade no SUS aumentaram 2.500% entre crianças de 10 a 15 anos.
Em paralelo, cresce o número de matrículas nos cursos de Psicologia. Dados do Censo do Ensino Superior, realizado pelo Ministério da Educação, mostram que o total de alunos de graduação na área acelerou cerca de 90% nos últimos dez anos. Além disso, houve um incremento de ingressantes depois da pandemia da Covid-19: em 2022 e 2023, o número de novos estudantes por ano passou pela primeira vez da casa dos 120 mil. Ao contrário do que acontece na área de Medicina, por exemplo, essa explosão de procura não preocupa o Conselho Federal de Psicologia (CFP).
— Há uma ampliação na percepção da população com a saúde mental. Depois da pandemia, houve um crescimento de 208% na procura por terapia. Além disso, novas frentes de trabalho foram abertas para o psicólogo. Há um crescimento da demanda que justifica a formação de mais profissionais — defende Pedro Paulo Bicalho, presidente do CFP e professor da UFRJ.
Como no Brasil não há regulamentação para a psicoterapia, esses profissionais sem curso superior podem oferecer terapia, mas caso não se apresentem como psicólogos ou psiquiatras nem utilizem termos como “psicoterapias” ou “terapia clínica”. Há atualmente no Senado uma sugestão legislativa para determinar que apenas psicólogos e psiquiatras possam oferecer esse tipo de serviço.
— A graduação em Psicologia ou Psiquiatria garante uma formação mínima teórica, técnica, ética e supervisão obrigatória. A existência de cursos livres que formam “terapeutas” é extremamente preocupante, pois promove uma banalização de práticas complexas que exigem preparo, conhecimento clínico e profundo compromisso ético com o cuidado à saúde mental — opina Bello.
A possibilidade de regulamentação gera reações, uma vez que algumas terapias — que possuem diversos escopos de tratamentos, como a holística, a arteterapia e outras — poderiam ser afetadas com as novas regras. Na avaliação de Artur Costa, professor da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica (ABPC), a psicoterapia não pertence exclusivamente a uma formação acadêmica específica, “mas à ética, ao domínio técnico e à capacidade de transformar sofrimento em sentido”.
— Reduzir sua prática a títulos é ignorar a complexidade da alma humana e o poder transformador de abordagens diversas, como a psicanálise, a logoterapia e o coaching psicológico, que muitas vezes vêm de formações livres, porém sérias e comprometidas — diz.
Sem ‘lógica universitária’
A psicanálise não requer que seus profissionais tenham qualquer curso superior — ainda que boa parte de quem atua na área seja formado em Psicologia ou Filosofia. De acordo com Costa, há, de fato, uma profusão preocupante de cursos livres sem base aprofundada e compromisso sólido. Ele defende, no entanto, que a seriedade de um curso não está, necessariamente, atrelada à regulamentação pelo Ministério da Educação.
— A psicanálise, desde suas origens, é um campo de saber que se desenvolve de forma autônoma, fora da lógica universitária tradicional. O próprio Freud (Sigmund Freud, fundador da psicanálise) defendia a formação livre, baseada em três pilares: teoria, análise pessoal e supervisão. O que precisamos não é de regulação estatal, mas de rigor ético e responsabilidade institucional. Há cursos livres excelentes, com professores experientes, base teórica sólida e compromisso com a prática clínica responsável — frisa.
Em março, a senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) foi designada relatora da matéria na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Ela afirmou que o próximo passo é ouvir profissionais, conselhos e todos os interessados para o colegiado decidir se a sugestão será transformada em um projeto de lei.
— Trabalho muito com a construção, ouvindo a sociedade, inclusive as pessoas que já se manifestaram de modo contrário à sugestão. Como psicóloga e parlamentar, vejo que nunca foi tão importante falarmos sobre a saúde mental, a boa formação dos profissionais e a segurança dos pacientes — sustenta a parlamentar.
Entenda as diferentes terapias
- Psicoterapia: De acordo com o Conselho Federal de Psicologia, é o método de tratamento para problemas de natureza emocional, em que uma pessoa treinada estabelece uma relação profissional com uma pessoa que busca ajuda. Para isso, há diversas abordagens ou técnicas, como a terapia cognitivo-comportamental ou a terapia analítico-comportamental.
- Psicanálise: É entendida por uma corrente de analistas como uma abordagem possível para a psicoterapia. No entanto, isso ainda é debatido entre as associações da área. Por isso, a Associação Brasileira de Psicanalistas (ABP) entende que uma regulamentação na psicoterapia não afetaria a psicanálise.
- Terapias alternativas: Há uma profusão de outras formas de tratamento e práticas que partem de diferentes perspectivas para tratar uma série de questões, inclusive de saúde mental. Nessa lista, estão, por exemplo, a biodança, a aromaterapia e a arteterapia. Dentro desse grupo, há até vertentes que possuem formação de ensino superior. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, tem um curso de Musicoterapia. Especialistas defendem que o paciente busca se certificar da qualificação do profissional.
