A crise deflagrada pelo escândalo das fraudes no INSS ganhou novos capítulos na quarta-feira, dentro e fora do Planalto, ampliando o desgaste político do governo Lula. Nas redes sociais, quatro meses depois de alavancar a chamada “crise do Pix”, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) repetiu a estratégia com um vídeo viral atingindo a marca de 100 milhões de visualizações no Instagram em 24 horas. O impacto levou o PT a lançar uma cartilha para seus parlamentares ensinando como reagir às críticas nas redes. Internamente, o ministro Rui Costa (Casa Civil) criticou o colega Vinicius Carvalho (Controladoria-Geral da União) que, segundo ele, teria demorado a evitar o problema, impedindo resposta ágil.
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O objetivo da oposição, ancorado no vídeo do deputado mineiro, é explorar uma tensão que já provocou a saída de Carlos Lupi do Ministério da Previdência, mudanças na cúpula do INSS e vem gerando dores de cabeça ao governo, cobrado a definir um modelo de ressarcimento para aposentados e pensionistas que tiveram descontos fraudulentos nos contracheques.
Diante das implicações, Rui Costa avalia que a CGU falhou ao não fazer os alertas devidos assim que as primeiras informações apareceram. O ministro afirma que ele e Lupi não foram avisados com antecedência, o que, na visão do chefe da Casa Civil, impediu uma resposta célere do governo.
— A Controladoria-Geral tem o papel de evitar o problema, apontar falhas de procedimentos. É uma função preventiva, não corretiva ou punitiva. Deixamos passar dois anos, período no qual mais pessoas foram lesadas, para poder corrigir? Se você atua em 2023, tinha diminuído a quantidade de pessoas (afetadas), e eu diria que não tinha impactado basicamente o nosso governo — afirmou Rui Costa ao GLOBO.
Procurados, Carvalho e a CGU não quiserem comentar. O chefe da Casa Civil avalia que estancar a crise antes poderia ter limitado o problema à gestão de Jair Bolsonaro, já que o início da apuração da Polícia Federal e da própria Controladoria remete a 2019.
É justamente a disputa sobre qual governo seria o verdadeiro culpado o centro do vídeo de Nikolas, que define o episódio como o “maior escândalo da história do país”. Em janeiro, material no mesmo formato sobre mudanças no Pix é apontado como uma das razões da deterioração da popularidade do governo nas pesquisas seguintes. À época, o vídeo superou o patamar de 300 milhões visualizações, ao passo que o atual já havia registrado 100 milhões de views, apenas no Instagram, nas primeiras 24 horas.
— É claro, vão espalhar a narrativa de que tudo começou no governo anterior (de Bolsonaro). Já percebeu que no governo passado tudo era culpa só do presidente, e nesse governo nada é culpa do presidente? — diz o deputado, que usa a mesma estética do vídeo anterior, com fundo preto, camisa escura e calça jeans.
A gravação mais recente é a terceira de uma sequência que começou no Pix, passou pela defesa do projeto que anistia os envolvidos no 8 de Janeiro e chegou ao INSS.
Junto à imagem do parlamentar são projetados efeitos visuais que mostram gráficos ou imagens que ajudam o bolsonarista a explicar a linha de raciocínio. A técnica, segundo especialistas, é usada nas redes sociais para reter a atenção do público.
— Os vídeos são criados com a intenção de acusar o governo Lula e reforçar a ideia de que a gestão petista está submetida às práticas de corrupção. Ele foi feito para viralizar e atrair a atenção por meio da dramaticidade — afirma o doutor em ciência política Luiz Eduardo Garcia, professor da PUC do Rio Grande do Sul.
A crise do INSS provocou também uma turbulência política, com a bancada do PDT na Câmara anunciando que deixou a base e se tornou independente — os senadores do partido, por sua vez, seguem governistas. Enquanto o Planalto tenta contornar os desgastes, os deputados do PT foram orientados a reagir ao vídeo de Nikolas e tirar o Executivo da defensiva.
A liderança do PT na Câmara distribuiu uma cartilha com uma série de argumentos para rebater o vídeo. Com título “Desmentido Nikolas Ferreira — INSS”, o documento de 30 páginas traz o roteiro completo das falas do deputado, contrapondo ponto a ponto o que o ele diz e sugerindo argumentos para os petistas disputarem a narrativa com a oposição.
A estratégia está alinhada com o entendimento do Planalto, cuja avaliação é que, se o ataque partiu de um deputado da oposição, deve ser enfrentada por parlamentares da base. O governo observa os desdobramentos e, por ora, acredita que não é o caso de uma resposta institucional via Secretaria de Comunicação Social da Presidência.
Após o trecho em que Nikolas afirma que a atual gestão vai culpar a administração de Bolsonaro, o documento diz que “a maioria dos envolvidos no escândalo eram servidores nomeados na gestão” anterior. A cartilha também orienta os parlamentares a questionarem em público e nas redes o fato de a Polícia Federal não ter sido acionada no governo passado para investigar. O documento traz “personagens-chave” da fraude e levanta supostas conexões do caso com ex-ministros de Bolsonaro.
Na mesma toada, a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, foi às redes sociais afirmar que a fraude começou na gestão passada e que o momento exige a verdade, “não mentiras oportunistas de quem não investigou nada”.
“Foi no governo Bolsonaro que quadrilhas criaram entidades fantasmas para roubar os aposentados, sem que nada fosse feito para investigá-las ou coibir sua ação no INSS”, escreveu Gleisi.
A temperatura elevada da disputa reflete os números superlativos da investigação. No fim de abril, a PF e a CGU fizeram uma operação para combater o esquema fraudulento. As investigações apontam que a soma dos valores descontados chega a R$ 6,3 bilhões, entre 2019 e 2024, mas ainda será apurado qual porcentagem foi feita de forma ilegal.
Entidades sindicais fraudaram assinaturas e documentos, segundo o inquérito, para receber mensalmente verbas de aposentadorias e pensões. O esquema contaria com a anuência de integrantes da antiga cúpula do INSS, diz a PF. Ex-diretores e pessoas próximas a eles receberam mais de R$ 17 milhões em transferências de supostos intermediários das associações, de acordo com a apuração.
