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setembro 30, 2026
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Agenda Global: Trump desmonta a ordem que os Estados Unidos ajudaram a construir

Por · setembro 30, 2026
Agenda Global: Trump desmonta a ordem que os Estados Unidos ajudaram a construir


Como de costume, o anúncio veio por meio de um post em uma rede social. Após meses de ameaças, discursos agressivos e tentativas de negócios estapafúrdios, no dia 18 de setembro, uma sexta-feira quente e úmida em Washington, Donald Trump anunciou um acordo que, segundo ele, dará aos Estados Unidos controle permanente sobre a segurança da Groenlândia e ampla liberdade para aumentar sua presença militar na ilha. A massa de gelo e rocha a nordeste da costa canadense é um território autônomo do Reino da Dinamarca. Até agora, dinamarqueses e groenlandeses rechaçavam de forma veemente as pretensões americanas sobre a região, onde vivem pouco menos de 60 mil pessoas e cuja posição é extremamente estratégica.
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Ainda não estão claros todos os detalhes do acordo nem como ele será implementado. O que se sabe até agora é que os EUA terão maior liberdade para operar militarmente na Groenlândia, sem que isso implique transferência de soberania sobre o território. Não se trata de uma captura por meio de uma ação militar, como na Venezuela, ou de uma intervenção branca, como no Panamá. Mas o episódio é mais um sinal de uma mudança profunda na forma como os EUA sob Trump se relacionam com seus aliados e exercem seu poder no mundo.
‘Momento de transição’
Desde que assumiu a Presidência pela segunda vez, Trump rompeu com alguns dos principais pilares da política externa que sustentaram a ordem liderada pelos EUA desde o fim da Segunda Guerra. Tarifas arbitrárias, confrontos diretos com aliados e o questionamento de compromissos históricos abriram uma discussão mais ampla: o mundo estaria assistindo apenas a uma mudança na política externa americana ou ao início do fim da ordem construída sob a liderança de Washington?
— O segundo mandato de Trump quebra de vez com a ordem estabelecida e é muito difícil imaginar que ela voltará a ser o que era, porque quando se quebra, ainda que você junte os cacos e tente colá-los de novo, nunca é a mesma coisa — diz Gustavo Poggio, professor associado do Berea College, universidade americana no estado do Kentucky.
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Poggio defende que ainda é impossível prever para onde esse novo mundo irá. Para ele, nem sequer pode ser descartada a possibilidade de que, daqui a 25 ou 30 anos, o sistema volte a apresentar uma espécie de unipolaridade, novamente com os EUA em seu centro. Mas, neste momento, não há elementos suficientes para determinar qual será a configuração de poder que emergirá dessa transição.
— Estamos em um momento de transição, o velho mundo acabou e a ordem do pós-guerra está sendo destruída por dentro, pelo seu principal ator, os EUA — diz.
Ainda os mais poderosos
Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV e pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace, concorda que a velha ordem está severamente abalada pelas políticas adotadas por Trump. Assim como Poggio, porém, ele não está certo de que as decisões do governo americano irão, de fato, comprometer de forma permanente a capacidade dos EUA como um dos principais atores do sistema internacional em transformação.
— Veja, os Estados Unidos continuam com a maior economia do mundo em termos nominais, com a moeda de referência, com a fronteira tecnológica e ainda detêm a única força militar de alcance global — diz Stuenkel. — Isso, no entanto, não significa que o país vá recuperar o papel de liderança dominante que exerceu nos anos 1990, logo após o fim da Guerra Fria. Não por causa do Trump, mas porque hoje não há mais a ausência de um competidor, não há mais a adesão dos aliados como antes e nem mesmo um consenso interno sobre qual papel o país deve ter no mundo.
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Para Stuenkel e tantos outros pesquisadores, o enfraquecimento da ordem construída sob liderança americana não significa necessariamente fragilidade dos EUA como potência. Washington pode continuar reunindo recursos econômicos, militares e tecnológicos sem dispor da mesma capacidade de organizar o sistema internacional em torno de suas regras, instituições e alianças.
China ainda tem dever de casa
A erosão do sistema multilateral e das alianças construídas em torno dos EUA ocorre ao mesmo tempo em que a China amplia sua presença econômica, tecnológica, diplomática e militar. As duas transformações, porém, não significam necessariamente que Pequim esteja simplesmente ocupando o espaço deixado por Washington, ou que tenha condições de substituir os EUA como potência organizadora do sistema internacional.
— A crise dos Estados Unidos na arena multilateral não vem acompanhada necessariamente do surgimento de um competidor tão poderoso quanto aquele país — diz Marsílea Gombata, professora de Relações Internacionais e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP. — A China tem se expandido economicamente de forma incrível, mas uma potência não se faz só disso. É preciso mostrar direção e mostrar que tem capacidade de influenciar outros países a ponto de servir como norte para o modelo econômico a ser seguido. Não parece que a China chegou a esse patamar.

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