Quando se fala sobre o Brasil no exterior, o país muitas vezes é associado a futebol e carnaval, uma visão que pode deixar de lado tantos outros aspectos. Entretanto, os brasileiros também podem olhar para outros países a partir de imagens igualmente simplificadas. Seja pela falta de informação ou pela força da propaganda turística, alguns destinos acabam conhecidos principalmente por paisagens e referências que ajudam a formar uma visão particular sobre esses lugares. Mas o que existe além daquilo que já faz parte do imaginário?
Nader Adem é fotógrafo na Etiópia e busca, através das suas fotos, quebrar esses estereótipos. A imagem de um lugar vazio ou não desenvolvido, para ele, sustenta a narrativa de indivíduos como símbolos ao invés de pessoas. Por isso, quer que a fotografia una a dificuldade e a beleza em uma única lente, fotografando lugares como o metrô: “O país que conheço também inclui cidades movimentadas, arte e moda contemporâneas, música, arquitetura, uma longa história, paisagens variadas e muitas culturas e tradições.”
Metrô na Etiópia
Nader Adem
Nader conta que se pudesse escolher uma coisa para ser conhecida internacionalmente sobre o seu país, seria as celebrações. Quando a Etiópia é associada à miséria, imediatamente a imagem gerada no imaginário pode ser de pessoas tristes. Mas as tradições, que são muito alegres, para ele, são capazes de mostrar outra face do povo.
Cita práticas como o festival Shuwalid em Harar, Fichee-Chambalaalla entre o povo Sidama e o festival do Ano Novo Wolaita. Entretanto, o mais especial para o fotógrafo é a Ashenda. Acontece nas comunidades tigrinas, localizadas na região do chifre da África. Nela, as mulheres jovens celebram através de música, dança e vestuário: “O que me interessa é a forma como a celebração transmite a história e a identidade entre gerações. É alegre, mas também confere às raparigas e jovens mulheres um papel visível na sustentação da sua cultura. Gostaria que o público internacional visse Ashenda como uma tradição viva e não apenas como um evento colorido.”
Ashenda
Nader Adem
A relação de Nader com a visão internacional associada à Etiópia também passa por uma experiência pessoal. Foi durante o projeto ‘A Life as a Disabled Person’, em que registrou o cotidiano de pessoas com deficiência, que o fotógrafo percebeu que dar visibilidade não é suficiente, é preciso também construir imagens capazes de mostrar a diversidade dessas experiências.
Surdo, Nader se tornou ainda mais consciente dessa questão ao estudar ao lado de pessoas ouvintes. A experiência o fez entender como indivíduos podem compartilhar o mesmo tempo e espaço, mas ter percepções completamente diferentes sobre o mundo, e sobre o outro: “Uma fotografia pode chamar a atenção para alguém, mas também pode reduzir uma pessoa, ou um país, a um rótulo se o fotógrafo for descuidado. Quero que as pessoas que fotografo sejam vistas como indivíduos plenos.”
Mulheres celebrando na Ashenda
Nader Adem
Ashley Crowther, fotógrafo sul-coreano, também compartilha essa percepção sobre a Coreia do Sul, de que a imagem propagada sobre o país nem sempre corresponde à sua história e cultura. Argumenta que basta pesquisar “imagens da Coreia do Sul” no Google para perceber o padrão. O resultado é tomado por flores de cerejeira e pontos turísticos históricos. O que falta, na visão do fotógrafo, é mostrar também a luta vivida pelo povo sul-coreano. Uma ausência que, para ele, não acontece por acaso.
Diz que a Coreia do Sul é um lugar difícil de fotografar, onde as pessoas nem sempre estão abertas à presença de alguém que chega para documentar suas vidas. Ainda assim, foi ao construir relações de confiança com as pessoas que cruzaram seu caminho, que conseguiu transformar essas vivências em narrativas. Para o fotógrafo, o problema não está em registrar aspectos que eventualmente são usados para reforçar estereótipos, mas em não se dedicar a encontrar um olhar particular sobre uma realidade que não é preto no branco.
Uma dessas tentativas de trazer um olhar particular está na forma como Ashley decide fotografar momentos que não são considerados grandes eventos. Mas, com um pouco de lembrança histórica, se transformam em registros importantes: “Eu tentava capturar os momentos de contraste entre o antes e o agora. Há uma foto que tirei de um homem indo em direção ao seu telhado, repleto de videiras de batata-doce e pimentas em vasos, com uma tempestade se aproximando no alto e guindastes de construção ao fundo. É uma prática antiga levada para o telhado no meio de uma cidade de dezenas de milhões de habitantes. Para mim, há tanta profundidade em uma cena como essa. Duas gerações empilhadas uma sobre a outra, em vez de uma substituindo a outra.”
Homem em direção ao telhado
Ashley Crowther
Assim como percebe a permanência de características associadas às gerações anteriores, Ashley também enxerga na Coreia do Sul as marcas de um passado atravessado pela ocupação japonesa, pela Guerra da Coreia e por períodos de ditadura militar. Na sua visão, essas experiências não ficaram restritas aos livros de história, ainda fazem parte da memória e da trajetória das pessoas que vivem no país.
Poderia registrar cenas consideradas mais bonitas ou visualmente atraentes, mas acredita que fazer apenas isso não seria honesto com a realidade que encontra. “Já fotografei homens na faixa dos oitenta anos jogando jogos de tabuleiro na rua. Homens dessa idade nasceram sob a ocupação japonesa, foram crianças durante a guerra e estavam na meia-idade quando o exército entrou em Gwangju. Eles viveram cada parte disso. Nada disso está em uma foto de uma rua iluminada por neon ou da cultura pop.”
Homens jogando na rua
Ashley Crowther
O olhar de Ashley sobre a Coreia do Sul encontra eco na experiência de Katharina Hesse, ainda que em outro contexto. Fotógrafa alemã, se mudou para a China no início dos anos 1990 e, a partir da vivência no país, passou a questionar também a distância entre a imagem construída e a realidade cotidiana. Para Katharina, quando a China é apresentada ao mundo, o foco costuma estar concentrado em sua dimensão geopolítica, no crescimento econômico e na posição de potência global.
Reconhece que também chegou ao país carregando uma imagem previamente construída. Foi esse processo que a mostrou como o próprio olhar de quem fotografa precisa estar aberto às contradições e particularidades que aparecem: “Eu tinha uma imagem um tanto romântica da China. Quanto mais tempo me envolvo com a China, quanto mais vivo e trabalho lá, e quanto mais vejo, mais me torno consciente de quão complexa a China é, e de quão difícil é encaixar o país em categorias simples. A gente quase tem que tomar cuidado para não perder a floresta de vista por causa das árvores.”
Uma de suas fotos preferidas é de um momento que sentiu exatamente o oposto, nos jogos olímpicos de Pequim, em 2008. Explica que naquela época, realmente percebia um interesse profundo das pessoas em entender mais sobre tudo o que permeia o país, e teve conversas sobre os mais variados assuntos: “Queriam saber como as pessoas viviam, o que estava mudando na sociedade, quais desenvolvimentos culturais estavam ocorrendo e o que estava realmente acontecendo naquele vasto país. Havia uma curiosidade muito mais ampla sobre a China. Sinto falta desse interesse hoje em dia.”
PEQUIM: Uma jovem em lágrimas assiste à cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim entre milhares de pessoas reunidas na rua comercial Wangfujing.
Katharina hesse
Para Katharina, uma forma de reorganizar a imagem internacional da China seria ampliar o olhar para os diversos movimentos sociais que surgiram no país e, assim, romper com a ideia de uma sociedade completamente homogênea. Ela usa como exemplo o Tang Ping, movimento associado a jovens que resistem à pressão por desempenho e sucesso. O punk também, para ela, pode ajudar a revelar outras facetas da sociedade chinesa, e foi por isso que começou a registrar essas cenas.
“Eles eram marginais, mas, ao mesmo tempo, permitiam uma grande dose de liberdade. Talvez isso acontecesse, em parte, porque alguns deles, por assim dizer, vinham de algo como a classe média alta e, portanto, tinham privilégios que não eram visíveis de fora”, conta.
Entre as pessoas fotografadas por Katharina estão Tu Qiang e Shen Yue, integrantes dos grupos Anarchy Boys e Li Punk, que se encontraram antes de um show punk no distrito de Haidian, em Pequim. No final dos anos 1990, uma pequena cena punk surgiu entre jovens chineses que rejeitavam a conformidade e as expectativas convencionais. O Scream Bar e os becos ao redor se tornaram um dos pontos de encontro dessa emergente contracultura jovem de Pequim. Katharina argumenta que não basta ampliar a diversidade de informações sobre diferentes países: é preciso também que o público esteja disposto e interessado em conhecê-las.
Rebelião juvenil e a rejeição da conformidade na Pequim do final dos anos 1990.
katharina hesse
Além da fome, do K-pop e da política
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