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Os alimentos já acumulam queda de preço próxima de 1%, com recuo de 0,91% nos últimos três meses, de junho a agosto, calculou o IBGE nesta terça-feira. Os números ilustram esse comportamento atípico de interrupção da alta de preços mensal.
Economistas explicam que não é comum longas sequências de queda já que, por tendência, os custos de produção aumentam e a oferta dos alimentos é extremamente volátil por conta dos fatores climáticos e sazonais. No momento, porém, uma conjuntura favorável explica a redução dos preços.
Alguns alimentos têm recuperado a oferta depois de meses de escassez que culminaram em altas expressivas. Além disso, os preços das commodities agrícolas caíram e a valorização do real frente ao dólar aliviam os custos.
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Os alimentos tiveram um aumento de preço “fora da curva” no ano passado, e boa parte disso se deve aos fenômenos climáticos, explica Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners. O país sentiu os impactos de dois eventos (El Niño e La Niña) em um único ano, lembra ele. Já em 2025, não houve incidência de nenhum dos dois fenômenos, sem prejuízos às lavouras.
— É uma combinação entre dois fatores: tivemos uma alta muito forte na virada de 2024 para 2025 que agora se reverte. E uma safra muito boa este ano. A segunda razão amplifica a primeira — resume Leal. — A inflação de alimentos este ano deve ficar em 5%, mais baixo que a média histórica desse século, que é de 7,5%.
O café, por exemplo, registrou a segunda queda de preço mensal seguida depois de um ano e cinco meses seguidos de alta. Em 12 meses, o café ainda acumula aumento de 60% em 12 meses, mas está abaixo do pico de 82% registrado em maio, quando atingiu o maior aumento em 12 meses já registrado na última década, considerando a série de 2012 até então.
Agora, o café acumula a menor alta em 12 meses desde janeiro, quando estava em 50,35%. Segundo Fernando Gonçalves, analista do IBGE, a oferta de grãos melhorou nos últimos meses e isso já se reflete nos preços praticados nas gôndolas.
— A parte da colheita do café já se encaminha para o final e, como a colheita tem sido de uma boa monta, isso acaba refletindo nos preços ao consumidor final — explicou Gonçalves a jornalistas. —Vamos aguardar para ver os próximos meses se segue na trajetória de queda depois de todo o movimento de alta de 2024.
Frutas e legumes têm queda, e ‘tarifaço’ pode ser um dos motivos de alívio
Gonçalves, do IBGE, explica que historicamente esta época do ano há uma oferta maior de determinados alimentos. Por isso, há uma tendência de queda no preço de determinados itens, incluindo frutas, tubérculos, legumes, hortaliças e verduras.
É o caso do tomate, que registrou queda de 13,39%; da cebola, com recuo de -8,69%; da batata-inglesa, com -8,59% em agosto. O mamão, por exemplo, registrou queda de 10,90% em agosto em razão de uma oferta maior no período, explicou o analista.
Mas há uma série de componentes que impactam a formação dos preços, e o analista do IBGE não descarta algum impacto positivo vindo também do “tarifaço”, anunciado em julho pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e aplicado a partir de agosto.
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Ele avalia que, no próprio preço do café praticado em julho, pode já ter estado embutido alguma expectativa de redução do preço após o anúncio das tarifas. A manga, que já tinha caído 11% em julho e acentuou a queda para 18,40% em agosto, também pode ter sofrido influência das tarifas e não só do clima mais favorável à produção.
— Podem ter vários componentes nessa formação do preço final. Não é possível separar o quanto (da queda do preço) foi por questão de oferta e o quanto foi outro motivo. Nessa época, geralmente tem uma oferta maior de alimentícios — diz.
Economistas ainda esperam deflação para o índice de preços ao consumidor em setembro, com queda inclusive dos alimentos pelo quarto mês seguido. Mas essa tendência tem prazo para acabar. Os preços devem voltar a subir em outubro, seguindo a tendência histórica de aumento nos últimos meses do ano pela maior demanda das famílias.
Leal, da G5 Partners, projeta que o preço do café ainda caia cerca de 1% em setembro. Mas, a partir de outubro, acredita que pode subir algo em torno de 0,5% no mês.
— Até o final do ano, o café vai “comer” a deflação que a gente observou — diz ele.
A XP espera que a inflação de alimentos siga bem-comportada no curto prazo, mas reacelere, por questões sazonais, no quarto trimestre.
As carnes, que também registraram queda nos últimos meses após aumentos expressivos no final do ano passado, devem ter seus preços revertidos. Como o rebanho ainda está abaixo da média histórica, só no ano que vem os preços devem ser normalizados.
— Aquela sensação ruim que o consumidor teve no final do ano passado vai ser menor esse ano. Mas, fim de ano é sempre um período em que há pressões, com questões de entressafra, e as festas de fim de ano aumentam essas pressões. Tem essas idiossincrasias — explica Leal.