Alinne Moraes tinha 13 anos quando fez o primeiro trabalho como modelo. Emplacou logo uma campanha para a Ellus fotografada por J.R. Duran e recebeu um cachê equivalente a dez vezes o salário de sua mãe, àquela altura uma funcionária pública que vendia produtos da Avon, doces e sacolé para complementar a renda. Pouco tempo depois, estava embarcada, pela primeira vez, a bordo de um avião. A adolescente de Sorocaba, no interior de São Paulo, voava rumo ao Japão para dar início a uma agenda internacional que durou até os 17 anos, quando a carreira de atriz mudou a rota por completo. Começar a vida profissional tão cedo, ela reconhece, trouxe um rigoroso senso de responsabilidade e perfeccionismo. Algo que só agora, aos 43, começa a rever. “Fui melhorando com o tempo. Estou me exigindo menos, lembrando de brincar e deixar as coisas mais leves.”
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É com este estado de espírito que ela chega à décima terceira novela na TV Globo, como Vanessa, a vilã de “Por você”, que estreia amanhã, na faixa das 19h. “Sempre soube onde estão até as vírgulas do texto. Acho que não preciso mais de tanto”, afirma, numa fala que não guarda qualquer traço de negligência. Pelo contrário. Recém-separada do cineasta Mauro Lima e com o filho do casal, Pedro, já na pré-adolescência, a atriz pode se dedicar ainda mais ao folhetim. “Sempre exigi muito de mim em casa também. Então, talvez, não tenha estado 100% presente nos últimos trabalhos como gostaria. Saía correndo dos estúdios porque 10 minutos poderiam me custar não ver o meu filho antes de dormir. Mas ele está com 12 anos e começando a ir para o mundo, com a sua tribo. Estou deixando isso acontecer de uma forma tranquila.”
Nos sets, a dedicação profissional é testemunhada pelos colegas. No papel de Pérola, mãe de Vanessa, Renata Sorrah compara a postura de Alinne em cena à de uma trapezista que se lança no ar sem se preocupar com a rede de segurança. “Trata-se de uma atriz de primeira linha. É focada e tem muita inteligência”, comenta a veterana da dramaturgia. “Passamos o texto quando estamos nos maquiando e depois fazemos isso novamente na sala de atores e no ensaio, já no ambiente da cena. Quando gritam ‘gravando’, porém, sempre acontece algo novo. E adoro isso porque traz um frescor ao nosso trabalho.” Um tipo de interpretação definido como “preciso” pelo diretor-geral da novela, Jeferson De. “Ela não deixa apenas a palavra falada conduzir a cena. Vai se colocando totalmente para o jogo com quem está contracenando”, ele descreve. “Também vai do drama à comédia com uma maestria impressionante.”
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E quando a experiência de uma carreira longeva se encontra com a plenitude de uma mulher segura de suas escolhas, a vida parece deslizar de modo suave também no âmbito pessoal. “Tenho tido mais tempo para mim. Sou uma mulher independente, consciente da minha trajetória e com novos sonhos. Ter essa liberdade sem o medo e a ansiedade que tinha aos 20 e poucos anos é muito prazeroso”, observa Alinne. “Estou desde outubro solteira e nem beijei na boca ainda. E isso está sendo muito positivo. Não tenho pressa. Desde que comuniquei a separação, minhas amigas ficam preocupadas, perguntando: ‘E aí? Já saiu? Já pegou alguém?’. Respondo sempre: ‘Gente, estou casada comigo mesma’.”
Quanto ao ex-companheiro, com quem manteve uma relação por 14 anos, Alinne afirma que a separação não significa um corte seco na história de ambos. “Somos muito unidos. Apenas não somos mais marido e mulher”, resume. “Eu o tenho como uma pessoa da família para sempre. Ele tem um entendimento muito lindo sobre a vida, é um cara inteligente. De alguma maneira, compreendemos que tudo tem começo, meio e fim, e não significa necessariamente um rompimento. Além disso, quando começamos a namorar, saíamos direto com a ex-mulher dele, a (atriz) Rafaela Mandelli, que é sua melhor amiga. Então, sempre tive muita clareza sobre esse tipo de relação, assim como sou próxima dos meus ex-namorados.”
Parte do círculo mais íntimo de Alinne, a também atriz Débora Nascimento enxerga nela um novo desabrochar. “É uma mulher sem limites para se redescobrir. Está muito empolgada com a novela e se sentindo inteira”, descreve. “Mesmo com a vida corrida, estamos sempre em contato, formamos uma rede de apoio. Poucos a conhecem a fundo, mas trata-se de uma das pessoas mais leais que já conheci. Nunca houve um momento em que precisasse de ajuda e ela não estivesse lá.”
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Alinne é do tipo que enxerga o mundo como um grande laboratório sobre a existência humana, algo bastante útil em diferentes aspectos da vida. Vanessa, sua nova personagem, se materializa a partir desse repertório. Ela é uma médica que não exerce a profissão e atua na área administrativa do hospital de sua mãe, sempre de olho no potencial financeiro do negócio. Uma mulher cujas falas desfilam o ódio e os preconceitos de boa parte da elite brasileira. “Ela diz coisas como ‘você é filha da empregada’ de um jeito muito natural”, conta a atriz. “É como acontece numa sociedade que, muitas vezes, não se vê como racista e elitista. Acho que muita gente vai poder se questionar e mudar de atitudes por meio dela.”
Dentro de casa, as conversas com o filho transcorrem sempre do modo mais claro possível em torno dessas questões. Pedro observou muito cedo, por exemplo, o quanto pessoas em situação de rua são majoritariamente negras, o que abriu espaço para uma conversa sobre racismo e escravidão com os pais. Do mesmo jeito, ainda criança, ao notar que um casal formado por dois amigos homens de Alinne dormiria junto, foi capaz de assimilar a relação sem preconceitos. “No dia seguinte, ele perguntou à babá se ela tinha namorado. Ela respondeu que não, e ele continuou: ‘E namorada?’”, recorda-se a atriz.
São posturas que remetem à importância dada por ela à busca por conhecimento, algo trazido pelo trabalho. No começo da carreira, fez aulas de interpretação com a atriz e professora Camila Amado (1938-2021), cujos métodos iam além da representação. “Ela me fez assinar jornal e, em algumas ocasiões, era o que precisava ler, em vez de Shakespeare”, conta. “Saber o que acontece no mundo é fundamental. Essa coisa do ator que diz não misturar as coisas e não se posiciona (politicamente) não deixa de ser um posicionamento.”
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Ter essa clareza a aproximou ainda mais de gente como Caetano Veloso e Paula Lavigne e do grupo 342 Artes, articulação de artistas cuja agenda vai da defesa da liberdade de expressão ao combate às bets. “Houve época em que eu passava horas ao telefone, marcando reuniões, além de fazer a captação de vídeos”, recorda-se a atriz, que já chegou a ter contratos publicitários revogados em função de suas manifestações políticas (ela declarou voto ao presidente Lula nas últimas eleições). “Um dos casos se deu com uma campanha de roupas. Ligaram para o meu escritório para saber o meu posicionamento, e responderam que era só olhar as minhas redes. Quatro horas depois, telefonaram novamente, cancelando o trabalho, sendo que já estava tudo negociado.”
Nada que a faça recuar quanto às convicções firmadas ao longo dessa trajetória. A conta no Instagram, onde é seguida por quatro milhões de usuários, é administrada pela própria atriz e tem um feed limpo de “publis” e exposições excessivas. “A única vez que fiz um Stories foi para chamar os seguidores para uma manifestação”, afirma. “Entendo ser uma ferramenta importante, mas sou de outra geração. Se for um trabalho em que acredito e acho bonito, posso compartilhar. Mas a privacidade é uma moeda valiosa para mim. E tudo bem… Às vezes, me apego a algumas coisas do jeito que estão. Meu carro tem 20 anos.”
É com a mesma leveza que mira, todos os dias, a imagem refletida pelo espelho. “Claro que já aconteceu de acordar e me surpreender com um vinco, mas me acostumo rápido. Afinal, hoje é sempre o jeito mais jovem que me conheço agora”, reflete a atriz, que prefere os tratamentos a laser, feitos desde os 38 anos, ao Botox. “Não quero perder minha expressão. Além disso, quando tiver 80, quero gostar de como sou hoje. Então, não vou me congelar. Preciso das minhas rugas.”

