Raphael Joseph tinha apenas 10 anos, mas a imagem segue preservada em suas lembranças: Ronaldinho Gaúcho recebe a bola na intermediária, dribla quatro marcadores, deixa o goleiro para trás e balança as redes, marcando o primeiro de seus três gols nos 6 a 0 do Brasil sobre o Haiti.
— Foi muito espetacular — recorda ele, 22 anos depois.
Raphael foi um dos cerca de 15 mil haitianos que lotaram o estádio Sylvio Castor, em Porto Príncipe, naquele 18 de agosto, para o amistoso que ficou conhecido como Jogo da Paz. Segundo ele, havia outros milhares do lado de fora. Não conseguiram ver o jogo da arquibancada, mas já haviam lotado as ruas para receber a seleção brasileira do aeroporto até o local da partida.
— Era muita gente, muita gente. Eu era criança, estava com o meu tio, mas consegui ver os carros militares passando. Lembro das janelas se abrindo e os jogadores aparecendo para acenar para as pessoas. Uau! — conta.
Desde então, Brasil e Haiti só se enfrentaram mais uma vez em quase duas décadas e meia (nova goleada, então por 7 a 1, pela Copa América de 2016). Mas a presença da Amarelinha na vida dos nascidos na ilha caribenha é constante. É como o segundo time.
— Como o Haiti ficou mais de 50 anos sem jogar uma Copa, é pelo Brasil que as pessoas torciam. Se vestiam de amarelo e iam para as ruas com suas bandeiras para ver os jogos. É uma festa muito grande — diz Joseph, que hoje trabalha numa barbearia em East Orange, Nova Jersey. — Lembro que, quando o Brasil foi campeão em 2002, o cabelo do Ronaldo (o famoso corte “Cascão”) virou uma febre.
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Agora, com os Granadeiros em sua segunda participação numa Copa (a primeira fora em 1974, na Alemanha), a situação mudou um pouco. Não que o carinho pelo Brasil tenha acabado, mas a presença da seleção caribenha deixou a edição deste ano ainda mais especial, tanto no Haiti quantos nos Estados Unidos, uma das sedes da Copa e onde vivem cerca de 1,2 milhão de haitianos (é a maior população fora do próprio país).
— É muito importante pela forma como a sociedade enxerga o povo haitiano. Porque, como algo tão grande, a Copa do Mundo nos permite mostrar a nossa resiliência e superação— reflete Brianna Roy, cuja mãe, Marie, consegue resumir de forma ainda mais concisa o que significa a presença do Haiti no Mundial:
— É dizer: nós estamos aqui!
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Marie deixou Porto Príncipe há 15 anos e teve suas duas filhas (a outra é Jenasha) em Miami, na Flórida. Hoje morando em Los Angeles, as três viajaram para a Filadélfia apenas para assistir ao jogo de hoje contra o Brasil.
Os haitianos que residem em seu país até hoje não puderam comparecer aos jogos da seleção nos Estados Unidos. Em junho do ano passado, o presidente americano Donald Trump determinou que cidadãos do Haiti e de outros 18 países fossem impedidos de entrar no país por razões de segurança nacional. E a emissão de novos vistos foi bloqueada.
Ainda que houvesse a promessa de que atletas, treinadores e parentes próximos fossem isentos da restrição e pudessem viajar para a Copa do Mundo, a realidade mostrou o contrário. Único entre os 26 convocados que atua no Haiti, o meia Pierre Woodensky, do Violette AC, por exemplo, perdeu os primeiros dias de preparação da sua seleção nos EUA por um atraso na emissão do seu visto americano.
O Haiti é o país mais pobre das Américas (ocupa a posição 168 de um total de 187 países em todo mundo no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano).
A história de sua diáspora começa ainda no fim do século XVIII, em meio à revolução, com a fuga de colonos levando escravizados consigo. Ao longo das últimas décadas, porém, o movimento ganhou força devido à ditadura de François “Papa Doc” Duvalier, à guerra civil, à crise econômica e aos desastres naturais.
O maior contingente de haitianos nos EUA é encontrado na Flórida. Mas, mais ao nordeste, também há grandes comunidades, como em Nova York, Nova Jersey e na própria Filadélfia, que hoje receberá a seleção granadeira. Há cerca de 30 minutos do estádio da partida, um trecho de ruas do bairro de Olney é conhecido como pequeno Haiti.
A identidade haitiana é perceptível em todos. Entre si, falam basicamente em crioulo e exaltam o orgulho do país caribenho. Pelo bairro, bandeiras com as cores vermelha e azul e o brasão no centro podem ser vistas em postes e em comércios; camisas exaltando a nação ocupam vitrines de lojas e restaurantes temáticos (assim como no Brasil, arroz e feijão são base da culinária do país).
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A ligação com o Brasil, diz Jefna Geroges, de 66 anos, que vive desde 1988 nos EUA e é dona de um comércio em Olney, é mais forte do que os adversários podem supor.
—O Haiti jogou para vencer a Escócia (que ganhou de 1 a 0 na primeira rodada). Eles foram ajudados pelo árbitro. Mas o que se faz com os haitianos, vira dívida. Ainda vamos nos reencontrar e acertar as contas. Ou o Brasil vai cobrar — brinca.
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