É uma das bases do esporte: o futebol é um jogo disputado em dois tempos de 45 minutos. Certo? Não nesta Copa do Mundo. Com a justificativa de que era preciso proteger os jogadores das altas temperaturas e da umidade na América do Norte, a Fifa instaurou a pausa para hidratação. Por volta dos 22 de cada tempo, os jogadores ganham três minutos para beber água e respirar fundo. Mas o impacto vai muito além disso: o break tem fragmentado as partidas em quatro blocos e permitido que treinadores façam intervenções táticas fundamentais para a definição do placar. Tudo isso enquanto oferece às emissoras de televisão a oportunidade de faturar ainda mais com a exibição de anúncios.
- Entre genialidade e tempo: Messi e Mbappé estabelecem corrida particular pela artilharia das Copas do Mundo
- Gênio ou louco? Tuchel desafio consensos na Inglaterra e tenta encerrar jejum de 60 anos na Copa do Mundo
O torcedor brasileiro foi um dos primeiros a entender o impacto da novidade. No recorte inicial da partida de estreia, a seleção sofria com a pressão do Marrocos, que chegou a abrir o placar num momento de falha do sistema defensivo. Então veio a pausa para a hidratação, que permitiu ao técnico Carlo Ancelotti conversar com os jogadores e ajustar o que não estava funcionando. O Brasil, sem ser brilhante, cresceu na partida. E, poucos minutos depois, uma trama de Vini Jr. pela esquerda garantiu o empate que permaneceria até o fim.
Aferir o impacto das pausas de hidratação não é um exercício de objetividade. Afinal, são muitas as variáveis que influenciam o desenrolar de um jogo — entre elas, o acaso. Mas O GLOBO mapeou ao menos uma dúzia de ocasiões, apenas entre os jogos da primeira rodada do Mundial, em que o intervalo de três minutos contribuiu para a alternância de domínio na partida ou para a construção de um gol.
— Isso muda muito como trabalhamos durante o jogo — sentenciou Roberto Martínez, técnico espanhol à frente da seleção de Portugal. — O aspecto tático (surgia) antes do jogo, no intervalo e ao fim, para a próxima partida. Agora não. Há mais intervalos. Isso é revolucionário, porque o jogo passa a ter quatro partes. Não é minha função dizer se é bom ou ruim, mas em três minutos podemos trabalhar muitos aspectos táticos, como já vemos em outros esportes. Nesse sentido, ajuda muito ter contato com seus jogadores durante o jogo.
Partidas como Escócia x Haiti e Alemanha x Curaçao também tiveram a pausa obrigatória como momento-chave. No primeiro confronto, o gol da vitória escocesa, marcado por John McGinn, saiu instantes após o mini-intervalo. Já na goleada de 7 a 1 dos alemães, encarada com naturalidade pela discrepância dos elencos, o jogo foi interrompido justo após o país do Caribe chegar ao empate. É provável que os europeus mais cedo ou mais tarde confirmassem seu favoritismo. Mas talvez o placar tivesse sido menos elástico se o ritmo de Curaçao não fosse cortado.
A novidade não tem sido vista com bons olhos por vários dos atores envolvidos no jogo. Eles argumentam principalmente que, embora a pausa tenha sido pensada para conter situações climáticas extremas, ela acontece mesmo em dias de temperaturas amenas e em estádios que contam com cobertura ou climatização.
O zagueiro da seleção holandesa Virgil van Dijk, por exemplo, acredita que a necessidade de paralisação deveria ser avaliada jogo a jogo. É um caminho parecido com o proposto pelo técnico argentino Mauricio Pochettino, que comanda os Estados Unidos na Copa:
— Eu só gosto (da pausa) quando as condições são extremas. Quando elas são boas, acho desnecessária.
Enquanto, dentro de campo, parece haver alguma divisão entre os que aprovam ou reprovam a medida, fora dele começa a se construir um clima de saia justa para a Fifa. Nos últimos dias, torcedores em diversos jogos passaram a vaiar a pausa para hidratação no momento em que ela era anunciada. Aconteceu na goleada da Noruega sobre o Iraque por 4 a 1, na terça-feira, nas vitórias da Inglaterra por 4 a 2 sobre a Croácia e de Gana por 1 a 0 sobre o Panamá, no dia seguinte, e durante os 4 a 1 aplicados pela Suíça sobre a Bósnia e Herzegovina, ontem, para citar alguns.
Se os torcedores nas arquibancadas acreditam que sua experiência tem sido prejudicada, não muito diferente é o cenário para quem está em casa. Uma outra parcela dos descontentes com a nova interrupção apontam que, por trás do argumento do cuidado com os jogadores, está o interesse em encaixar novas inserções comerciais nas transmissões, algo permitido pela Fifa e explorado sobretudo na televisão americana. A Fox, principal emissora da competição no país, vem aproveitando cada segundo dos intervalos para exibir propagandas, às vezes passando o tempo previsto.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/8/0/nsKCU8SnKDCygx7Ws4dA/115316689-toronto-ontario-june-17-general-view-at-the-hydration-break-during-the-fifa-world-cup-20.jpg)
— A movimentação da Fifa para permitir inserções comerciais durante as pausas de hidratação é mais um passo na americanização da gestão de ativos do futebol — explica Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios. — Historicamente, o esporte sempre enfrentou o desafio da fluidez: são 45 minutos de bola rolando com pouquíssimas janelas de respiro para as marcas. Sob a ótica do marketing, estamos transformando um tempo morto em uma oportunidade para os patrocinadores conversarem com um público que está com os olhos fixos na tela, aguardando o reinício do jogo.
A pausa para mitigar os efeitos do calor não é uma novidade em si. Desde 2010 o Campeonato Carioca tem esse tipo de respiro. O que a Fifa faz agora é ampliar o espaço para intervenção e abrir margem para que ele seja monetizado. Se ele vai acabar rejeitado ou incorporado de vez, é cedo para dizer. Por ora, o período é de adaptação para todos.
— É diferente. Não estou acostumado, porque nunca tivemos “quartos”. Como técnico, se você precisa da pausa, ela é boa. Se não precisa, então é ruim — admite o treinador da Nova Zelândia, Darren Bazeley. — Para quem vê pela TV provavelmente não é legal, porque você vê comerciais. Mas, como treinador, nos dá a chance de reunir os jogadores, acalmá-los, fazer ajustes…

