Dor de barriga antes de ir à escola, dificuldade para dormir sozinha, choro frequente ou uma resistência repentina a atividades que antes faziam parte da rotina. Na infância, manifestações como essas nem sempre são associadas à ansiedade. Como os recursos para identificar e explicar emoções ainda estão em desenvolvimento, o sofrimento emocional pode aparecer primeiro no corpo ou no comportamento.
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A história de Emma Stone ajuda a ilustrar essa dificuldade. A atriz já contou que teve seu primeiro ataque de pânico aos 7 anos, na casa de uma amiga. Na ocasião, ficou convencida de que o imóvel estava pegando fogo, embora não houvesse incêndio. Sentiu o peito apertar e ligou para a mãe. Com o tempo, as crises também passaram a interferir em situações cotidianas, como ir à escola.
Segundo a psiquiatra Camilla Nicolucci, nem sempre existe uma palavra disponível para que os pequenos descrevam o que estão vivendo.
“Ela pode não saber dizer que está ansiosa ou que teve uma crise de pânico. O sofrimento pode aparecer como dor de barriga, choro, irritabilidade, dificuldade para dormir, medo de ficar longe dos pais ou recusa em ir à escola. Por isso, muitas vezes o comportamento comunica primeiro aquilo que a criança ainda não consegue organizar em palavras”, explica.
Quando a ansiedade aparece no corpo
Palpitação, tremores, falta de ar, náusea, desconforto abdominal e aperto no peito estão entre as manifestações físicas que podem acompanhar quadros de ansiedade. Isso não significa, porém, que uma queixa física deva ser automaticamente atribuída a uma causa emocional.
Para o psiquiatra Tales Vilela, especialista em psiquiatria infantil, o principal sinal de atenção é uma mudança que persiste e interfere na rotina.
“Um episódio isolado não deve ser transformado imediatamente em um diagnóstico. Precisamos observar frequência, intensidade e impacto. Quando o medo começa a impedir a criança de dormir, frequentar a escola, brincar, ficar longe dos pais ou participar de atividades adequadas à idade, existe um prejuízo que merece ser investigado”, afirma.
O comportamento também pode mudar. Irritabilidade, recusa em frequentar determinados lugares ou reações desproporcionais diante de situações aparentemente simples podem ter relação com medo ou insegurança.
“Uma criança ansiosa pode ficar mais irritada, querer evitar determinados lugares ou reagir intensamente diante de situações aparentemente simples. Antes de interpretar tudo como mau comportamento, é importante tentar compreender se existe medo ou sofrimento por trás daquela reação”, observa Tales.
Como acolher durante uma crise
Diante de uma reação intensa, é comum que adultos tentem tranquilizar rapidamente com frases como “não aconteceu nada” ou “não precisa ter medo”. Embora a intenção seja ajudar, a estratégia pode não ser suficiente para quem está vivenciando uma sensação de ameaça que parece real naquele momento.
Acolher, porém, não significa confirmar que existe perigo. A proposta é reconhecer a emoção e ajudar a pessoa a atravessar aquela experiência.
“Podemos mostrar para a criança que ela está segura sem desqualificar o que sentiu. Em vez de simplesmente dizer que não existe motivo para aquilo, podemos ajudá-la a identificar a emoção, entender o que aconteceu e construir maneiras de enfrentá-la. Esse aprendizado emocional também faz parte do desenvolvimento”, orienta Camilla.
No caso de Emma, a atriz começou a fazer terapia ainda na infância e, ao longo dos anos, passou a falar publicamente sobre a relação com a ansiedade. A atuação e o improviso também se tornaram ferramentas importantes em sua trajetória.
Quando é hora de procurar ajuda?
Nem todo medo, tristeza ou mudança de humor significa que existe um transtorno. Essas emoções fazem parte do desenvolvimento e podem surgir diante de diferentes situações. O sinal de atenção está principalmente na persistência e no impacto que elas provocam na vida cotidiana.
Alterações prolongadas no sono, isolamento, queda no rendimento escolar, crises frequentes de choro, sintomas físicos recorrentes sem causa identificada, medo intenso, irritabilidade e abandono de atividades que antes despertavam interesse são alguns exemplos que podem justificar uma avaliação profissional.
“Não precisamos esperar a criança chegar ao limite. Quanto mais cedo conseguimos compreender aquilo que está provocando sofrimento, mais cedo podemos oferecer ferramentas adequadas. E isso não significa patologizar qualquer medo ou tristeza, porque essas emoções também fazem parte da infância”, pondera Tales.
O relato de Emma Stone também chama atenção para uma dificuldade comum entre pais e responsáveis: nem sempre é possível identificar imediatamente o que está acontecendo. Uma criança pode experimentar emoções intensas sem ter repertório para descrevê-las.
“Crianças podem estar vivendo experiências internas muito intensas sem conseguir explicá-las. O papel do adulto é manter o canal aberto, observar mudanças e mostrar que medo, tristeza e preocupação podem ser conversados. Quando a criança sente que será ouvida sem julgamento, aumentamos a possibilidade de ela pedir ajuda”, conclui Camilla.
Ansiedade na infância: o que o relato de Emma Stone ensina sobre sinais que podem ser confundidos
