Um dos principais fotógrafos de moda da história, Richard Avedon transformava sonhos, delírios e fantasias em imagens. Assim é “Dovima With Elephants” (“Dovima com Elefantes”), registro que marcou o mundo da alta costura, contribuiu para o début da grife Yves Saint Laurent e completa sete décadas em 2025. Ele eternizou a beleza de Dovima, cujo verdadeiro nome é Dorothy Virginia Margaret Juba (o nome artístico vem da junção das primeiras sílabas), em uma foto que a modelo posa com um grupo de animais de circo.
Aos 32 anos, o fotógrafo nova-iorquino trabalhava como freelancer para a revista Harper’s Bazaar. A publicação não oferecia espaço de estúdio, cenário que permitiu Avedon experimentar locais “inusitados” para produzir as fotos, como praias, casas noturnas e ruas da Big Apple. Ele inspirou, inclusive, outros profissionais a realizarem sessões externas. Com um estilo original e inovador, fotografou estrelas como Audrey Hepburn, Marilyn Monroe, e Twiggy, além de artistas como Andy Warhol, Os Beatles e Bob Dylan.
A serviço da então editora-chefe da revista, Carmel Snow, Avedon viajou a Paris em agosto de 1955 para fotografar as coleções de outono. No mesmo período, a diretora de cinema Carol Reed produzia o longa-metragem “Trapeze” (“Trapézio”) no Cirque d’Hiver, na capital francesa. Lançado no ano seguinte, o filme acompanha a história de um jovem trapezista que busca o treinamento de um ícone do circo, mas se envolve em um triangulo amoroso mortal.
No cenário das gravações, o fotógrafo se encantou com as elefantas Trilby e Suzie, parte do espetáculo circense, e escolheu aquele local para o ensaio fotográfico. “Vi os elefantes sob uma enorme claraboia e, em um segundo, soube que precisava encontrar o vestido certo, e sabia que havia ali o potencial para uma espécie de imagem dos sonhos”, avaliou, na ocasião.
O resultado não poderia ser diferente: o registro ganhou uma página inteira. A fotografia foi publicada no “Relatório de Paris de Carmel Snow” com outras 14 imagens de Avedon, na edição impressa da Harper’s Bazaar americana em setembro daquele ano. A foto se tornou um ícone atemporal da moda e da comunicação visual.
“A sinuosa linha noturna da Dior é marcada em alto, como uma silhueta império, e então flui suavemente contra a figura, estreitando-se à medida que avança… Dior coloca mangas longas e justas em seus vestidos com decote grande. Aqui, com mangas até os pulsos: seu vestido tubinho de veludo preto, preso sob o busto com uma grande faixa de cetim branco” , opinou Carmel, no relatório.
Professora de Fotografia e Editorial de Moda na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, Anna de Moraes afirma que “não há como falar ou pensar na fotografia de moda sem [reconhecer a importância de] Avedon”.
– A estética dele era única: um olhar que valorizava composições, luz e beleza. Avedon tornou a fotografia de moda arte, uma arte conceitual. Trouxe narrativas para as fotos.
A fotógrafa destaca que o registro não se limita apenas aos mundos fashion e da fotografia: alcança à ótica sócio-política feminina.
– Avedon retratou a modelo em um vestido de luxo em meio a elefantes. Em um contexto político, rompeu com os padrões da fragilidade da mulher e a colocou em um lugar de força e feminilidade – avalia ela, que atua no ramo há mais de 20 anos.
Em 1965, Avedon começou a clicar para a Vogue, onde trabalhou pelas duas décadas seguintes. Em meados dos anos 1990, ele se tornou o primeiro fotógrafo daThe New Yorker. “Seus retratos ajudaram a redefinir a estética da revista”, detalha o site The Richard Avedon Foundation (A Fundação Richard Avedon). O profissional morreu em 1° de outubro de 2004, aos 81 anos.
–Avedon rompeu com padrões da fotografia de moda dos anos 1940 e 1950. Ele trouxe movimento e narrativa para as fotos, que eram estáticas antes. Usou a luz natural de forma muito artística e inovou usando locações que, até então, não eram pensadas para fotografias. – descreve Anna.
Com uma pose dramática em “Dovima With Elephants”, a modelo exibe um vestido de noite Christian Dior, grife que se tornou símbolo da alta-costura no final da década de 1950. Quem assina a peça é Yves Saint Laurent, que trabalhava para a maison na época. A roupa preta tem a cintura marcada, saia longa, mangas compridas e um laço branco na parte frontal. A elegância de Dovima contrasta com a brutalidade dos elefantes.
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Essa composição marcou a estreia de Saint Laurent no mercado de luxo. Aos 19 anos, o estilista francês criou seu primeiro design para a Dior, um momento inédito para a grife francesa, que só apresentava criações assinadas por Christian Dior. Até então, o rapaz era encarregado apenas de tarefas menores no ateliê devido à inexperiência.
O vestido usado por Dovima se destacou entre os demais esboços que ele submeteu à coleção de alta-costura da Dior. O sucesso do modelo permitiu que Saint Laurent assinasse mais criações nas temporadas seguintes. Aos 21 anos, o francês assumiu a direção criativa da marca, após a morte precoce do fundador. Em 1961, o estilista lançou a própria grife, Yves Saint Laurent (YSL), porém os trabalhos realizados para a Dior são considerados essenciais para sua trajetória fashion.
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“Ele me ensinou o essencial”, escreveu Saint Laurent, em 1986. “Depois, vieram outras influências que, por terem me ensinado o essencial, se fundiram a esse essencial e o encontraram como um terreno maravilhoso e prolífico, as sementes necessárias que me permitiriam me afirmar, crescer forte, florescer e, finalmente, exalar meu próprio universo.”
A fotografia “Dovima With Elephants” integrou o catálogo do leilão “Avedon: Photographs from the Richard Avedon Foundation” em 2010. Arrematada pela marca Christian Dior, a iniciativa da Christie’s Paris arrecadou US$ 1.153.011 (na época, mais de R$2 milhões) e estabeleceu o recorde de leilão para fotógrafo.
Dez anos mais tarde, a foto foi novamente colocada à venda no leilão “One: A Global Sale of the 20th Century”, na Christie’s New York. O registro foi vendido por US$ 1.815.000 (aproximadamente, R$10,2 milhões) e quebrou o próprio recorde.
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Atualmente, a foto está à venda na Sotheby’s por lances a partir de £ 30 mil (libras esterlinas), aproximadamente R$230 mil. “Nenhuma outra fotografia de moda do século XX é tão amplamente reconhecida e nenhuma outra imagem ilustra tão plenamente os profundos dons de Richard Avedon como fotógrafo de alta-costura e de mulheres”, descreve o site oficial da casa de leilão.
O preço da fotografia não é à toa: “Richard Avedon ‘humanizou’ a moda”, movimento que se desdobra até a atualidade, completa a fotógrafa Ana de Moraes.
