Conhecido no mundo inteiro por sucessos de rádio dos anos 1970 como “Show me the way”, “Baby I love your way” e “I’m in you”, o cantor, compositor e guitarrista inglês Peter Frampton, de 76 anos, tem, porém, um hit que só os brasileiros podem chamar de seu: “Breaking all the rules”, de 1981. Ele se diverte ao contar a história dessa música, em entrevista por Zoom, ao GLOBO.
— Foi porque vocês tinham cigarros que pareciam uma espécie de Marlboro brasileiro, era uma embalagem vermelha, e usaram “Breaking all the rules” para os anúncios daquele cigarro — recorda-se ele, logo em seguida sendo lembrado de que o nome da marca era… Hollywood. — Então, quando chegamos ao Brasil, lembro de ter subido direto uma montanha até os pés do Cristo, e tinha uma boate bem no topo. Me senti como se fossem os Beatles chegando… e éramos nós! Foi muito engraçado… porque todo mundo lá estava fumando Hollywood!
Frampton está de volta com seu primeiro álbum de inéditas em 16 anos, “Carry the light”, lançado no dia 15 de maio. Ele se mostra surpreso com algumas das críticas publicadas, dizendo que seria um dos melhores discos que já fez.
— Basicamente, tudo veio acontecendo nos últimos seis anos. Na verdade, foi bem antes da Covid que comecei a compor de verdade de novo. Depois de escrever algumas músicas de que eu meio que gostei, escrevi outra de que gostei muito e pensei: “Acho que vou compor um álbum inteiro agora!” Aí descartei as músicas de que não gostei, fiquei com as boas e chamei meu filho, Julian, que me ajudou a finalizar algumas músicas e também a produzir o álbum.
Miguel Falabella: Astro revela que deixará de atuar, cita toque certeiro de Marília Pêra, reflete sobre sexualidade e lembra impacto de boatos sobre HIV
Robbie Williams: ‘Sempre tive meus adultos cuidando de tudo. E nunca questionei muito’
Há anos, o inglês vem sofrendo de miosite por corpos de inclusão, uma doença degenerativa muscular.
— Então, isso torna as coisas um pouco diferentes. Tenho muita sorte de a doença não estar progredindo muito rápido. Ainda gosto de tocar e sinto que ainda toco bem, então isso é o principal — explica ele, que, além do filho, contou no disco com a participação das cantoras Sheryl Crow e H.E.R. (esta, tocando guitarra na instrumental “Islamorada”), de Tom Morello (guitarrista do Rage Against The Machine e Audioslave) e do velho amigo Graham Nash (cantor dos grupos Crosby, Stills, Nash & Young e The Hollies), que faz vocais em “I’m sorry Elle”, música dedicada por Frampton à neta:
— Nos conhecemos desde que eu estava no Herd (grupo com o qual fez sucesso na adolescência) e ele nos Hollies. Graham me tocou a primeira versão estéreo do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967), dos Beatles! — admira-se. — Fui vê-lo em Nova York e ele me perguntou o que eu estava fazendo. Respondi: “Estou terminando um novo álbum.” E ele: “Ah, então me mande duas faixas, eu canto em uma.” Mandei e ele escolheu “I’m sorry Elle”.
No último dia 4, estreou em Nova York, no Festival de Tribeca, “Frampton”, documentário de Rob Arthur, em comemoração aos 50 anos de “Frampton comes alive!”, o disco depois do qual aquele prodigioso guitarrista do Herd e, depois, do Humble Pie, tornou-se um astro pop de abrangência mundial.
— Não fiquei exatamente emocionado gravando as entrevistas, mas quando vejo meus filhos no filme, eu me emociono. Quando eles falam sobre a minha deficiência e tudo mais, isso me chateia, obviamente, porque eu quero ser forte por eles. Meus filhos têm me apoiado muito, temos uma família muito unida, o que é diferente de anos atrás, quando eu estava sempre viajando. Agora, estou muito mais em casa e passo muito mais tempo com eles e meus netos — diz ele, avô de duas meninas, Rain (filha de Julian, de 2 anos) e Elle (de 6, filha de Jade). — Elas são completamente diferentes e eu as amo demais!
Peter Frampton e o jogador Paulo Cesar Caju, em 1978, no Morro da Urca, Rio de Janeiro
Antonio Nery
Sobre “Frampton comes alive!”, o inglês diz ter muito orgulho, até hoje.
— Estou tocando muito bem nele. Mas não foi esse disco me transformou em um ídolo adolescente, foi a publicidade, foram as fotos, as roupas, tudo isso. A razão de “Frampton comes alive” ter se perpetuado é que ele é muito bom, é um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos — acredita ele que, na esteira do sucesso do disco, esteve no Brasil pela primeira vez em 1978, para o carnaval, com Elton John e Rod Stewart. — Não tenho muitas lembranças porque eu… bem, eu bebia muito naquela época. Mas me lembro de passar um tempo com todo mundo lá, foi muito divertido.
Peter Frampton acha graça por até hoje ser associado ao talk box, em efeito que permite usar a própria voz (pela via de um tubo ligado à boca) para alterar o som dos instrumentos elétricos — o que literalmente fazia a sua guitarra falar.
— Eu não conseguiria fazer “Show me the way” ou “Do you feel like we do” sem usar o talk box. E uso ainda na nossa versão de “Black hole sun”, do Soundgarden. As pessoas ainda ficam loucas quando eu uso — conta o britânico. — Mas me lembro da primeira vez que usei, aqui nos Estados Unidos, em “Do you feel”. O lugar explodiu em gritos de “o que é isso?” e todos começaram a rir, que era o que eu queria, porque o talk box tem um som muito engraçado, é como se fosse a guitarra falando. Os músicos usam um pouco mais ele hoje em dia, é algo que sempre agrada as pessoas, e elas obviamente esperam por isso.
Para Frampton, “graças a Deus, a guitarra nunca vai desaparecer”.
— Se você procurar na internet, tem alguns guitarristas fenomenais por aí, de todos os estilos: clássico, jazz, rock, blues, o que você imaginar. Acho que tem mais gente tocando guitarra hoje do que nunca — diz ele, que, no entanto, não está tão empolgado com as modernidades da inteligência artificial. — A IA não me interessa muito para fazer música, acho que as pessoas já estão cansadas disso. Perfeição, para mim, é algo que você atinge quando coloca seu coração e sua alma em algo. Pode haver uma nota um pouco desafinada, mas ela pode significar mais do que mil notas afinadas. Alma e coração são o que há de mais importante. Um computador consegue copiar, mas não consegue criar essa sensação.

