Lourenzo Duvale viu Isis Broken pela primeira vez em uma tela de celular, no auge da pandemia de Covid-19. Ele, rapper em São Paulo, compartilhava suas músicas e reflexões nas redes. Ela, cantora, trabalhava no disco “Bruxa Cangaceira” em Sergipe. Bastou uma mensagem — “como está a sua noite?” — para que os dois atravessassem a madrugada conversando sobre música, espiritualidade e política. Poucas semanas depois, ela comprou uma passagem, e a história de “Apolo” começou a ser escrita.
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Dirigido por Tainá Müller e Isis Broken, o documentário chega aos cinemas nesta quinta-feira, 27 de novembro, depois de ser premiado no Festival do Rio (Melhor Documentário e Trilha Sonora Original) e no Festival MixBrasil (Melhor Filme pelo júri popular e menção honrosa do júri oficial). “Apolo” acompanha a gravidez carregada por Lourenzo, homem trans, e vivida ao lado de Isis, mulher trans e mãe da criança que dá nome ao filme. Expõe, assim, as transfobias institucionais enfrentadas por parentalidades trans no Brasil, ao mesmo tempo em que se revela um registro histórico e uma carta de amor ao filho.
A seguir, Isis e Lourenzo falam sobre os bastidores da gestação, as violências e acolhimentos encontrados no SUS — e o legado que esperam deixar para o filho e para o público.
Como foi receber a notícia da gestação? Lourenzo, você já tinha se imaginado pai, gerando uma vida dentro de você? Isis, já tinha se imaginado mãe?
Lourenzo: Na verdade, nunca tinha pensado nessa possibilidade. Eu achava que homens trans, quando tomavam testosterona, ficavam estéreis. É um mito que rola na comunidade. Foi bem assustador. Eu tinha vontade de ser pai, mas não sabia como isso ia acontecer. A primeira coisa que me bateu foi um surto de disforia, porque eu já me hormonizava há três anos, e sabia que, com a gestação, precisaria parar.
Isis: Eu nunca pensei em ser mãe. Acho que porque não existe referência de uma mãe travesti. Eu acreditava que LGBTs não poderiam se reproduzir. É um discurso que a gente ouve desde cedo, mas o Apolo mostra que esse discurso cai por terra.
Quais foram as principais barreiras no pré-natal?
Lourenzo: Muita coisa não se mostrou no filme, justamente porque a intenção não era só falar sobre violência. Logo no começo da gestação, por exemplo, fui ao hospital por causa de um sangramento, e me chamaram em todos os cantos pelo nome morto. A médica fez um exame ginecológico super invasivo, desnecessário de toque, e eu saí sem resultado.
Também não consegui fazer o ultrassom morfológico. No único lugar que toparam marcar, o médico foi transfóbico: mandou eu deitar na maca e “tirar a calcinha”. No sistema, não existia a opção de um homem fazer pré-natal, então mudaram meu gênero para feminino para liberar a consulta. Era sempre essa tentativa de me enquadrar biologicamente, como se meu corpo estivesse errado.
Alguns artistas como Maya Massafera, Bruno Gagliasso e Nanda Costa se ofereceram para nos ajudar a pagar o particular, mas as clínicas achavam que era trote: “um homem grávido, como assim?” Então percebemos que, no SUS ou no particular, a transfobia ia aparecer. Preferimos ficar no SUS para tentar transformar o sistema, e porque em São Paulo conseguimos atendimento melhor no Ambulatório Trans da UBS Santa Cecília.
Isis: Na clínica, chegaram a me dizer: “Já que você é mulher, me mostra a sua vagina”. Eles queriam que a gente provasse de forma biológica; era uma transfobia sistematizada. Falavam: “Não é culpa nossa, é culpa do sistema”. Quando saímos da maternidade com o Apolo, me chamaram de pai.
Em algum momento vocês foram bem acolhidos?
Lourenzo: Só quando conhecemos o Dr. Emmanuel, no ambulatório trans da UBS Santa Cecília, em São Paulo. Ele mudou tudo para mim, me sinto confortável. Ele explica o que está acontecendo com meu corpo, não é aquele médico que nem olha na tua cara e só receita hormônio. Dr. Emmanuel trata pessoas trans como deveria ser: com naturalidade, igual a uma pessoa cis. Ele faz o básico, mas por não termos o básico, acaba sendo extraordinário.
Isis: Aqui no Brasil, para nós [pessoas trans] termos um atendimento digno, precisamos ir a um lugar especializado em saúde de corpos trans. Isso também cria um lugar de exotificação, como se só pudéssemos receber atendimento nesses espaços. O SUS tem até uma frase “saúde para todos”. Para todos quem?
Como foi o processo de amamentação?
Lourenzo: A Tainá [Müller] ajudou nos doando a nossa primeira bombinha de extração, uma manual que era do filho dela. Eu amamentei por um mês. Foi o máximo que consegui, porque abusou muito da minha saúde mental. Eu não tenho a cirurgia de mastectomia e os seios vão crescendo por causa do leite, o que me causava muita disforia. Então, o Dr. Emmanuel me passou um comprimido para secar o leite.
Isis: Já eu nem sabia que mulheres trans também podiam amamentar. O Dr. Emmanuel me passou estudos, inclusive de uma mulher trans nos Estados Unidos que também amamentou. Mas a condição para isso é que a pessoa esteja se hormonizando há, no mínimo, seis meses. Eu cheguei a me hormonizar para tentar induzir a lactação, mas não consegui amamentar. Era uma dor terrível. Parecia que tinha umas facas.
Ao dedicar o filme a Apolo, vocês dizem: “Não tenha medo de ser quem você é, seja você quem você for”. O que vocês querem que Apolo compreenda ao ouvir essas palavras no futuro?
Lourenzo: A Isis diz que esse filme é um “presente do entendimento” para ele. Fizemos para que ele saiba de onde veio, quem somos nós e como foi a luta para ele nascer. Vai servir para ele formar a própria opinião e, como a Tainá falou, para ser uma “arma” para ele se defender da sociedade.
Isis: A gente que é LGBT vive nesse estado de alerta, principalmente no Brasil, um país que desumaniza e precariza esses corpos. Essa frase é um recado para o Apolo: a gente está aqui para o que der e vier, para protegê-lo. Ele não precisa ter medo de ser quem é.
O que vocês esperam que o público — especialmente o público cis — leve de “Apolo”?
Lourenzo: Eu acho que esse filme fala direto com o subconsciente das pessoas. Faz o público olhar para corpos trans com naturalidade, tira a gente desse lugar de desumanização e nos devolve humanidade. A palavra que eu gostaria que as pessoas sentissem ao sair da sessão é exatamente essa: humanidade.
Isis: Mesmo entre pessoas cis existe uma variedade enorme de modos de viver o gênero. Minha mãe, por exemplo, adora batom rosa. Minha tia, odeia. Elas são irmãs, da mesma família, mas vivem o gênero de formas completamente diferentes. O filme mostra que não existe um único jeito de ser. O “presente do entendimento” que fizemos para o Apolo acaba sendo um entendimento para todo mundo.

