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outubro 9, 2026
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Após incêndio, UFPE anuncia prorrogação de bolsas e doutorado-sanduíche no exterior para estudantes afetados

Por · outubro 9, 2026
Após incêndio, UFPE anuncia prorrogação de bolsas e doutorado-sanduíche no exterior para estudantes afetados


A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) anunciou medidas para ajudar estudantes afetados pelo incêndio que atingiu um prédio de pesquisas na noite de quarta-feira, na Zona Oeste do Recife. Entre as iniciativas estão a prorrogação dos prazos das bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a criação de um programa de doutorado-sanduíche no exterior, para que alunos de laboratórios atingidos possam dar continuidade às pesquisas em instituições parceiras. Além disso, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação anunciou um investimento de R$ 40 milhões para a compra de equipamentos perdidos.
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Durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira (9), Gomes afirmou que as medidas buscam garantir que os estudantes consigam concluir seus trabalhos, apesar da destruição de equipamentos, amostras e materiais científicos acumulados ao longo de anos.
— Muito importante o anúncio de estender os prazos das bolsas da Capes, para que nossos estudantes de mestrado e doutorado possam concluir seus cursos. E há o lançamento de um programa de doutorado-sanduíche no exterior, para que nossos estudantes possam se deslocar para laboratórios com os quais temos parcerias e concluir mais rapidamente suas teses — afirmou.
Além das pesquisas e dos materiais destruídos pelas chamas, ainda há incerteza sobre a extensão dos danos às amostras biológicas e aos equipamentos que estavam no edifício. Com o prédio isolado por questões de segurança e sem fornecimento de energia elétrica, pesquisadores tentam dimensionar os prejuízos e encontrar alternativas para retomar as atividades.
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos também anunciou um aporte emergencial de R$ 40 milhões para a recomposição dos equipamentos destruídos durante a coletiva em frente ao prédio.
— Essa é uma ajuda emergencial. Junto ao que o ministro da Educação relatou ontem, vamos somar esforços para atender a outras necessidades. Concomitantemente, a equipe do reitor Alfredo Gomes está reunida fazendo levantamentos, de modo que possamos, da maneira mais célere possível, garantir a retomada plena das atividades de pesquisa e desenvolvimento que existiam aqui — disse Luciana Santos.
Segundo a universidade, o incêndio provocou um prejuízo estimado em R$ 100 milhões e afetou pesquisas nas áreas de genética, farmácia e inovação terapêutica. Informações e amostras de mais de 200 pesquisas foram destruídas, além de materiais acumulados ao longo de duas décadas. Estudos sobre câncer, transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), Covid-19 e outras doenças estão entre os atingidos.
A Polícia Federal investiga o incêndio em duas frentes: a identificação da origem do fogo e a reconstituição da dinâmica dos fatos que antecederam o episódio. Segundo o delegado regional executivo e superintendente substituto da PF em Pernambuco, Rodrigo Bastos, um inquérito policial foi instaurado na manhã de quinta-feira (8), com o envio de equipes de perícia e investigação ao campus.
— Houve a instauração imediata de inquérito policial, e vieram equipes tanto de perícia quanto de investigação até a universidade para iniciar os trabalhos — afirmou Bastos em entrevista coletiva.
Incerteza
Mesmo pesquisadores cujos laboratórios foram menos afetados diretamente pelas chamas ainda não sabem se conseguirão recuperar os materiais armazenados. É o caso de Tercilio Calsa Júnior, professor titular do Departamento de Genética do Centro de Biociências da UFPE e coordenador do laboratório de Genômica e Proteômica de Plantas, que funciona em um anexo lateral ao prédio atingido.
Há quase duas décadas na universidade, o professor desenvolve pesquisas sobre genética e biologia molecular de plantas, com estudos voltados, entre outros temas, à identificação de genes e proteínas associados à tolerância das culturas agrícolas a estresses ambientais, como temperaturas elevadas e escassez de água.
— O impacto do incêndio foi absurdamente catastrófico, desolador para todos nós frequentadores. Ali é o nosso dia a dia há quase 20 anos — afirma.
Embora a área coordenada por ele tenha sido pouco afetada diretamente pelo fogo, o pesquisador ainda não conseguiu avaliar as condições dos equipamentos e das amostras mantidas no laboratório. O acesso ao prédio permanece proibido por questões de segurança, e a interrupção do fornecimento de energia elétrica aumenta a preocupação com os materiais armazenados em ultrafreezers, que operam a temperaturas de até -80º C.
O laboratório também mantém plantas em salas de cultivo e amostras biológicas utilizadas em pesquisas, como proteínas, DNA e RNA. Calsa Júnior não sabe quais materiais resistiram nem se será necessário refazer experimentos.
— A gente precisa entrar ali. Temos amostras de vários estudos, várias teses e dissertações, materiais de experimentos armazenados para serem analisados. Precisamos ver se os equipamentos resistiram ao calor e se algumas amostras sobreviveram — diz.
Doutoranda no Laboratório de Imunomodulação e Novas Abordagens Terapêuticas (LINAT), vinculado ao Núcleo de Pesquisas em Inovação Terapêutica Suely Galdino (NUPIT-SG), Heloísa Carvalho, de 28 anos, mantinha uma pesquisa voltada para a predição de resposta a medicamentos biológicos em pacientes com artrite reumatoide. Ela destaca que os estudos perdidos não só afetaram o trabalho, como também o psicológico dos pesquisadores.
Segundo Carvalho, antes do incêndio, a mudança para um novo local já havia iniciado, mas os materiais ainda não tinham sido levados. As chamas atingiram o local que funcionava um biobanco de doenças raras, como esclerose sistêmica e um biorrepositório de amostras de chikungunya, onde era possível acompanhar pacientes que tiveram as doenças. Sínteses de fármacos para teste de câncer também foram perdidas.
— Impacto inestimável, não conseguimos mensurar o quanto tudo isso pode mexer com a gente, não somente pelo nosso trabalho, mas também psicologicamente. Estamos desolados, mas recebendo apoio e medidas efetivas de todas as esferas para nos reerguer. Na minha pesquisa, estávamos no momento de coleta para montar um biobanco, nós perdemos as amostras de soro e de sangue desses pacientes. A parte do equipamento a gente sabe que recupera, mas as amostras doadas não. Estamos pensando, principalmente, em quem iria se beneficiar depois dos resultados das pesquisas — desabafa Carvalho.
Com o incêndio na UFPE, a doutoranda Heloísa Carvalho perdeu amostras de pacientes, usadas na pesquisa sobre artrite reumatoide
Arquivo pessoal/Heloísa Carvalho
Memória científica da universidade
Além das perdas materiais e dos prejuízos às pesquisas em andamento, o incêndio atingiu um espaço que guarda parte da história recente da ciência em Pernambuco. Antes de abrigar laboratórios, o edifício funcionou como restaurante universitário e, durante a pandemia de Covid-19, recebeu estudos relacionados à doença. Por anos, também sediou a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da UFPE.
O professor ressalta que o incêndio também destruiu parte da memória construída por pesquisadores e estudantes ao longo dos anos. Para ele, o edifício representava não apenas um local de trabalho, mas um espaço de formação de profissionais e de produção científica que marcou diferentes gerações.
— Aquele prédio tem um registro histórico. Não é só a parte material que foi destruída. Toda uma memória, de um momento muito crucial na ciência e na vida brasileira, foi perdida com esse incêndio — diz.
Calsavara Júnior afirma que, ao longo de quase duas décadas, o local recebeu estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, muitos dos quais hoje atuam em universidades, centros de pesquisa e na iniciativa privada. Ele também destaca a mobilização de antigos alunos e colaboradores, que se ofereceram para ajudar os pesquisadores afetados a retomar suas atividades.
Estudantes que moram no campus relatam prejuízos
Os efeitos do incêndio também chegaram a quem mora e circula pelo campus. Estudante de Ciências Sociais da UFPE, Gheissy Carvalho, de 28 anos, afirma que a fumaça atingiu pessoas e residências nas proximidades do edifício, localizado ao lado da Casa do Estudante, moradia universitária. Com o corte de energia elétrica provocado pelo incêndio, os moradores também perderam alimentos armazenados nas geladeiras.
— Estamos falando de vidas. O impacto que esse incêndio tem causado, não só para mim, como para as pessoas que também ocupam a universidade, não é só pesquisa, não é só um trabalho. A nossa vida está aqui, a gente mora aqui, é a nossa casa. E não estamos tendo um suporte da instituição — afirma Gheissy.

Após incêndio, UFPE anuncia prorrogação de bolsas e doutorado-sanduíche no exterior para estudantes afetados