Dos movimentados cafés literários de Montparnasse à Biblioteca Nacional da França, onde se encontra parte de seu arquivo pessoal, incluindo o diploma e a medalha do Nobel de Literatura, Paris marcou profundamente o escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias.
Impulsionador do realismo mágico e grande defensor do mundo indígena, Asturias (1899-1974) foi sepultado no famoso cemitério parisiense de Père-Lachaise. Após mais de meio século, seus restos mortais serão trasladados, na próxima semana, para sua Guatemala natal.
O escritor viveu na capital francesa durante vários períodos: principalmente entre 1923 e 1933, uma etapa crucial para sua formação, e mais tarde como embaixador, entre 1966 e 1970. Em seus primeiros anos em Paris, matriculou-se na Sorbonne para estudar os mitos pré-colombianos e trabalhou como correspondente para diversos jornais, entre eles o “El Imparcial”, da Guatemala.
“Esta cidade tem um rio velho no qual ninguém se banha, igrejas nas quais ninguém reza, palácios nos quais ninguém vive”, escreve ele sobre Paris em um de seus artigos. Naquele período entre as duas guerras mundiais, a Cidade Luz era um epicentro artístico, e Asturias nutriu-se dessa efervescência.
Cafés literários
Frequentou os cafés literários, especialmente no bairro de Montparnasse, como o La Rotonde, onde entrevistou o escritor espanhol Miguel de Unamuno. Também o La Coupole, onde encontrou outro literato, Ramón Gómez de la Serna, além dos pintores Juan Gris e Georges Braque. No Jockey, costumava ver Pablo Picasso.
Nesse contexto de efervescência artística, “todos esses movimentos eram discutidos nos cafés literários de Paris, que meu pai frequentava assiduamente”, explica seu filho, Miguel Ángel Asturias Amado, em um vídeo recente nas redes sociais. “Ele foi se formando e, ali, criando também o caminho que seguiria na literatura”, afirma.
Durante sua estadia em Paris, Asturias publicou seu primeiro livro, “Lendas da Guatemala” (1930), e já tinha “quase terminado”, como o próprio escritor mencionou em uma entrevista, seu romance mais conhecido: “O Senhor Presidente” (1946). A obra, inspirada na ditadura de Manuel Estrada Cabrera (1898-1920), é considerada um dos primeiros trabalhos sobre autocratas, figura que mais tarde proliferaria intensamente na literatura latino-americana.
Em sua fase posterior como diplomata, já consagrado como escritor, dois acontecimentos marcaram sua permanência. Enquanto estava em Paris, em 1966, recebeu o Prêmio Lenin da Paz, concedido pela União Soviética. Um ano depois, veio o reconhecimento mundial com o Prêmio Nobel de Literatura.
Segundo ele relatou, a notícia foi dada no dia de seu aniversário, 19 de outubro, na embaixada que, na época, ficava não muito longe da Champs-Élysées.
Essas duas distinções encontram-se, atualmente, na Biblioteca Nacional da França (BnF) e fazem parte do acervo pessoal que o próprio escritor decidiu legar à instituição. Este acervo inclui manuscritos, correspondência, desenhos, textos sobre discursos e diversos objetos, como uma bengala com esculturas na empunhadura.
‘A gênese das obras’
Entre os documentos, destacam-se 56 cadernos de diferentes tamanhos, contendo anotações para suas obras e registros sobre suas viagens.
“Eles abrangem um período de escrita muito amplo. São o espaço onde se manifesta e se revela a gênese das obras, a evolução do pensamento de Asturias”, explica à AFP Laurence Le Bras, responsável pelo departamento de manuscritos modernos e contemporâneos da BnF. “São as peças-chave deste acervo”, acrescenta, detalhando que, no total, os arquivos de Asturias na instituição, provenientes de seu apartamento em Paris, ocupam cerca de 150 caixas de conservação.
Esse acervo inclui também desenhos “muito representativos do realismo mágico”, segundo Le Bras, que retratam pássaros, personagens de lendas ou caricaturas, feitos em pedaços de papel de todo tipo, inclusive em toalhas de mesa.
“Asturias valorizava muito seus desenhos; em alguns casos, eles estão colados em folhas maiores, por vezes agrupados tematicamente”, explica a especialista.
Dois anos antes de sua morte em Madri, o autor de “Homens de Milho” já havia manifestado o desejo de legar esse arquivo parisiense à BnF, conforme consta em correspondências da época.
“Ele nutria um apego muito forte a essa França, que serviu de base para sua formação intelectual, e quis materializar esse vínculo por meio da doação de seus arquivos”, afirma Le Bras.
Após mais de meio século, corpo do vencedor do Nobel Miguel Ángel Asturias será trasladado para sua Guatemala natal
