Os líderes da Armênia, Nikol Pashinyan, e do Azerbaijão, Ilham Aliyev, assinaram nesta sexta-feira um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos que tem como ponto central a concessão dos direitos de exploração, para os americanos, de uma estratégica região no sul armênio, alvo de disputa entre os dois países. E ao seu estilo, o presidente americano, Donald Trump, conseguiu impor sua marca pessoal no plano.
— A Armênia e o Azerbaijão prometem cessar todos os conflitos para sempre, abrir relações comerciais, de viagem e diplomáticas e respeitar a soberania e a integridade territorial um do outro — disse Trump, ao lado dos dois líderes, enquanto a declaração era assinada na Casa Branca. — Trinta e cinco anos de morte e ódio, e agora teremos amor e sucesso juntos.
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Ao final de uma entrevista coletiva, na qual Trump foi praticamente o único a falar, foi executada uma versão instrumental de “What a Wonderful World”, de Bob Thiele e George David Weiss e eternizada na voz de Louis Armstrong.
Pela proposta defendida pelos EUA e aceita pelos dois líderes, a Armênia concederá, por 99 anos, os direitos exclusivos de exploração econômica do chamado Corredor de Zangezur, perto da fronteira com o Irã. Posteriormente, um consórcio indicado pelos americanos será encarregado pelo desenvolvimento econômico da área, que fica em uma região montanhosa, e pela instalação de redes de energia, fibra ótica, petróleo e gás.
Em seuis comentários, Pashinyan disse que a declaração conjunta era um “resultado revolucionário”, que abria um novo capítulo “de paz, prosperidade, segurança e cooperação econômica no Sul do Cáucaso.
Apesar da concessão, a área estará sob jurisdição da lei armênia — e em um toque personalista, o corredor passará a ser chamado de Rota Trump para a Paz Internacional e a Prosperidade.
— Se não fosse pelo Presidente Trump e sua equipe, provavelmente hoje a Armênia e o Azerbaijão estariam novamente neste processo interminável de negociações — disse Aliyev, pouco antes da assinatura. — O Presidente Trump traz paz ao Cáucaso.
Com pouco mais de 40km de extensão, o Corredor de Zangezur está localizado entre o exclave azeri de Nakhichevan e a região de Nagorno-Karabakh (Artsakh), ponto central de uma guerra entre Azerbaijão e Armênia em 2020, e que terminou com o controle total de Baku sobre a área, ocasionando a saída de toda a população armênia dali.
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Desde o fim do conflito, o Azerbaijão exerce pressão — inclusive militar — para controlar a área, que fica em território armênio, permitindo uma ligação direta entre o país, o enclave de Nakichevan e a Turquia, aliada de Baku. Os armênios alegam se tratar de mais uma quebra de sua soberania territorial, prometeram usar “todos os meios disponíveis” para se proteger.
Em março, Armênia e Azerbaijão firmaram os termos de um acordo de paz para resolver as questões em aberto após o conflito de 2020, que até hoje não foi assinado por divergências em tema, como, por exemplo, um trecho da Constituição armênia que defende a reunificação do país com o território de Nagorno-Karabakh — no mesmo mês, Pashinyan anunciou que um referendo sobre uma nova Carta poderia ocorrer em 2027, sugerindo a alteração exigida por Baku, além de compromissos voltados a uma eventual adesão à União Europeia, mas o tema ainda divide a sociedade armênia.
O acordo firmado nesta sexta-feira ainda prevê o fim de restrições impostas aos azeris, ligadas à venda de equipamentos de defesa, em vigor desde os anos 1990, quando ocorreu a primeira guerra com os armênios. Trump também anseia trazer o Azerbaijão para os chamados Acordos de Abraão, voltados à normalização dos laços entre países de maioria muçulmana e Israel. Embora Baku tenha laços firmes e complexos com os israelenses, sua inclusão na iniciativa é vista na Casa Branca como uma forma de ampliar sua pegada na Ásia Central, e reduzir a presença econômica e política chinesa na área.
Pelo lado armênio, além da certa garantia de que Baku não avançará em seu território, restaram questões em aberto no plano de Trump: o texto não menciona, por exemplo, os mais de 100 mil civis que deixaram Nagorno-Karabakh após o conflito de 2020.
— A verdadeira paz deve se basear na justiça e na responsabilização pelas contínuas violações de direitos humanos no Azerbaijão — essas questões não devem ser deixadas em segundo plano — disse ao portal Politico Alex Galitsky, diretor de programa do grupo de defesa Comitê Nacional Armênio dos EUA. — Um acordo que recompensa a agressão do Azerbaijão, enfraquece a soberania da Armênia e nega justiça aos armênios de Artsakh só tornará mais difícil a resolução dessas questões críticas de direitos humanos no futuro.
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O acordo também tem seus perdedores. O primeiro é o Irã, que perde um acesso direto e irrestrito à Armênia em uma fronteira importante em termos econômicos, e que também vê uma potência inimiga — os EUA — estabelecerem presença econômica e política perto de seu território.
A Rússia, que se considera a principal força do Sul do Cáucaso, vinha perdendo influência junto ao Azerbaijão, com uma recente crise envolvendo cidadãos dos dois países como exemplo claro, e com a própria Armênia, que desde a guerra de 2020 questiona a real intenção de Moscou de proteger o país de agressões militares. No texto assinado nesta sexta-feira, Baku e Erevã se comprometem a deixar uma iniciativa promovida pela Organização Pela Cooperação e Segurança da Europa, o Grupo de MInsk, do qual a Rússia fazia parte, ao lado dos EUA e da França, que desde os anos 1990 atuava para tentar aparar as arestas na região. Agora, ambos entendem que ele não é mais necessário.
Mesmo antes de sua assinatura, Trump apresentava a iniciativa como mais uma evidência de que está ajudando a resolver conflitos mundo afora: recentemente, ele alegou ter parado “cinco guerras em apenas cinco meses”, citando conflitos entre Índia e Paquistão e Tailândia e Camboja. Contudo, ele tem tido menos sucesso em guerras de grande porte, como a travada em Gaza, onde Israel pretende ocupar todo o território, e na Ucrânia, onde a Rússia tem ignorado suas ameaças e pedidos por um cessar-fogo imediato. Durante a reunião na Casa Branca, Aliyev deu asas a um notório objetivo do presidente americano, o de receber o Nobel da Paz, e propôs a Pashinyan que ambos o indicassem à honraria, como assim o fez o premier israelense, Benjamin Netayahu.