Embora amasse treinar futebol, Pedro Nogueira tinha a ciência da “falta de talento” com a bola nos pés quando se mudou para a Suíça, ainda pré-adolescente. Mas o desejo de trabalhar nos gramados continuou vivo, e ele passou a se dedicar à profissão de técnico. Aos 15 anos, iniciou na carreira treinando um time de futebol feminino, depois passou por países como França e Espanha, escreveu um livro sobre táticas, que se tornou um dos mais vendidos no velho continente. Ao final da última temporada (2024/2025), na quarta divisão suíça, ele conquistou o primeiro título como técnico profissional, fez história com os azarões do sub-21 do Lausanne e foi eleito treinador da temporada.
O que parecia a proximidade do auge na carreira, aos 32 anos, no entanto, foi acompanhado de um revés inesperado: o clube não quis renovar com o brasileiro e as glórias da temporada ficaram escanteadas pela necessidade de se manter na profissão.
— Decidiram mudar o perfil do treinador do sub-21 e fizeram a opção de colocar o auxiliar técnico do treinador do profissional, que trabalha com ele há muitos anos. Não me deram nenhuma justificativa objetiva em termos de qualidade do trabalho, falaram que estão satisfeitos com o meu trabalho, mas que é uma questão de perfil — diz o treinador ao GLOBO.
Mas ele “caiu para cima”. A sua campanha para o acesso histórico, o levou ao reconhecimento no país e ao convite para treinar o Etoile Carouge FC, time da segunda divisão. Mas terá que recomeçar um trabalho. Até o momento foram 3 jogos, com duas derrotas e um empate, o último jogo foi nesta sexta-feira, quando a equipe perdeu por 1 a 0. Embora possa parecer um começo desanimador, o treinador ressalta que o início da sua caminhada foi muito mais tortuoso.
— Eu jogava em um time em que um dos meus amigos tinha uma irmã que treinava no feminino sub-14, um pouquinho mais novos que nós, que tínhamos 16 anos. Elas precisavam de um treinador e ninguém queria porque, infelizmente, perdiam muitos jogos. Então falei com estes amigos para nos juntarmos e treinar a equipe delas. Os homens que eram os dirigentes do clube, lá, olharam para gente e falaram que éramos muito novos, mas como não tinha ninguém querendo a vaga, falaram: “tá bom, então fiquem aí até a gente arrumar alguém”, e a gente acabou ficando um ano lá — diz o treinador ao GLOBO.
E a partir daquele momento, Pedro passou a construir os degraus para chegar ao almejado sonho, mesmo sem uma infraestrutura para isso.
— Quando cheguei o time não tinha estrutura tinha uma meia dúzia de cones e olha lá e aí eu comprei e gastei um dinheiro pedir para os meus pais cumprir uma um monte de material lá de treino e aí eu ia para escola com uma uma mala de viagem caçar essas malas de 30 quilos de enorme e é todo dia que é todo dia que tinha treino que era acho que duas vezes ou três vezes semana três vezes semana acho que era mais o jogo e aí eu eu ia com a mala cara eu deixava lá na secretaria da escola e a com a mala depois levava a mala para o treino para elas terem todo o material necessário lá
Após as primeiras experiências próximo de casa, Nogueira se testou fora do país e iniciou sua saga cruzando o velho continente, onde trabalhou como auxiliar técnico no Poli Ejido-ESP e logo foi alçado a treinador principal, duas temporadas depois, em 2019. A sua pouca idade — virando o técnico do time profissional aos 26 anos — levou à inusitada situação de ser um treinador mais novo do que boa parte do elenco com que trabalhou.
— Até pela juventude, eu nunca senti muito essa dificuldade de treinar jogadores mais velhos nas ocasiões que eu treinei grupos profissionais, inclusive, eu fui bem recebido pelos elencos um pouco mais experiente que eu tive por não não querer eliminar ou ocultar a minha idade. Sempre assumi a minha juventude e a partir do momento que eu acho que você mostra um trabalho sério, correto, e ideias, é capaz de transmitir aos jogadores e ganhar a confiança do elenco. Eu entendo que os jogadores recebem isso bem. Tanto que a gente vê hoje vários treinadores na casa dos 30 anos trabalhando em ligas em primeiras divisões em clubes importantes com sucesso — comenta, Nogueira.
Após deixar a Espanha, Pedro buscou uma experiência em outra língua e atuou como assistente no Stade Reims, da primeira divisão francesa. Mas seja pelo maior tempo dedicado ao país, seja pela forma de trabalho, Nogueira ressalta que a Espanha foi o país em que mais aprendeu sobre a profissão.
— Na minha carreira de treinador, minha escola é espanhola, mas a personalidade é brasileira — diz. E continua: — Eu gosto de ter uma equipe dominadora, que impõe o jogo ao adversário, pressionando alto, mas eu considero que, sobretudo hoje em dia, um time ele tem que ser completo quer dizer ele tem que dominar vários estilos, às vezes você tem que ter um elenco para ser mais reativo para jogar um pouco mais no contra-ataque — completa.
Tanto gostou do estilo espanhol, que “bebeu” dessa fonte para escrever o seu livro “Conceitos táticos de ataque no futebol”, do espanhol, que se tornou um dos mais vendidos no país, sobre o esporte. Mas para a obra se tornar um sucesso o treinador teve que fazer como no passado e se dedicar em todas as frentes do negócio sozinho, até que vingasse.
— Já tinha vontade de botar o livro no papel, assim eu achava que era importante para continuar fazendo coisas que pudessem me inserir no mercado. Com a pandemia, eu tive bastante tempo para sentar e me concentrar fazer. O resultado foi muito gratificante. Porque o pessoal não acreditava que leriam por eu não ser conhecido. Eu sentia que tinha espaço para os livros mais diagramados sobre o esporte, mas falei com algumas editoras e elas disseram: “a gente vai pegar o Word vai mandar mandar fazer 50, 100 exemplares, se vender vendeu”, mas eu quis fazer diferente — disse.
A partir daquele momento o treinador arregaçou as mangas mais uma vez, mas agora visando o sonho literário para que ele mesmo publicasse o livro.
— Diagramei no livro no Brasil com uma empresa profissional que faz isso para grandes editoras brasileiras e depois fiz toda a logística de impressão do livro e lancei no mercado sem saber se eu ia eu ia vender 10 exemplares meus amigos e familiares. Ele fez muito sucesso no Twitter. Tanto que uma editora francesa quis traduzí-lo. Foram mais de 5 mil exemplares foram vendidos, o que para um mercado de nicho aí como é o essa coisa de treinamento de futebol é bastante — diz Pedro.
E o livro abriu portas para a experiência de analisar jogos, mas de uma cabine de rádio. Pedro se tornou comentarista de futebol logo após a abertura dos estádios.
— O pessoal da imprensa começou a me entrevistar sobre o meu livro e acabei fazendo uma ponta em uma das rádios mais populares do sul da Espanha, a Rádio Pública. Eu comentava jogos ao lado de figuras do futebol espanhol como Salva Ballesta, um ex-atacante da seleção e do Atlético de Madri. Fiz um ano in loco os jogos da Almeria em casa, na época que eu trabalhava lá — diz o técnico.
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Sua trajetória mais vencedora foi com o time sub-21 do Lausanne. A equipe competia na quarta divisão nacional. Após um início irregular do brasileiro, o time conseguiu um inesperado título na disputa do losângulo final. Nas ligas de acesso suíças os quatro primeiros colocados ao final do torneio disputam entre si para a vaga de acesso à próxima divisão.
— É o maior feito da base do Lausanne, ascender com o time de base à uma divisão profissional é um objetivo que eles tinham há anos. Ainda mais em um contexto que a equipe havia sido rebaixada da quarta para a quinta divisão. Foi um feito histórico — comenta.
Poliglota, o brasileiro fala cinco línguas, mas um de seus objetivos é dar treinos em português, em solo nacional. Recentemente Nogueira adquiriu a licença Fifa Pro, a mais alta disponível para atuar com times de primeiro escalão tanto em solo europeu como em outros continentes. Para se obter este documento é necessário não apenas completar os outros cursos de formação como ter ao menos cinco anos de experiência na primeira ou segunda divisão.
— É um mercado muito interessante para mim. Eu sou um treinador europeu, mas brasileiro. Seria muito interessante para mim receber essa oportunidade. Seria ótimo contribuir, receber uma oportunidade com este novo futebol brasileiro, com equipes que pressionam mais. E ter essa licença é um fator que ajuda muito a chegar e rapidamente atuar no país.